sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Livro recomendado

 Salim, o Mágico

É um livro publicado em 1970 por Malba Tahan (pseudônimo do matemático e escritor brasileiro Júlio César de Mello e Souza). Lançado em 1970, o livro – uma fábula sobre a convivência pacífica entre diferentes religiões ‒ faz uma sátira da situação política do Brasil dos anos 1960 e da ditadura militar. 

O Enredo 

● O Protagonista: Salim é um homem humilde, temente a Alá e de profissão modesta ‒ trabalhava como cordoeiro (fabricante de cordas) em Damasco, na Síria, durante o século VIII (no contexto do califado de El-Walid). 

● A Ascensão Acidental: Sem nenhum conhecimento de ocultismo, gênios ou lâmpadas mágicas, Salim é empurrado pelo puro acaso a uma fantástica ascensão social. Por uma série de mal-entendidos e coincidências, ele passa a ser visto pelo povo e pela corte como o maior mágico e adivinho da Síria. 

● Honrarias e Regalias: Adorado pela população e estimado pelo governante (emir/califa), Salim desvenda “mistérios”, faz supostas profecias e ganha imensas riquezas. Entre as regalias satíricas que recebe do poder público está até mesmo um “camelo chapa branca” (um símbolo dos privilégios estatais). 

● A Sátira Política: Sob o disfarce de uma fábula oriental ambientada no Oriente Médio, o livro funciona como uma corajosa sátira política aos costumes da época e à ditadura militar brasileira dos anos 1970. A trama ironiza a bajulação, os esquemas de corrupção, as sinecuras (cargos fáceis e remunerados), os jogos de influência e o “jeitinho” institucionalizado. 

P.S.: O livro está entre os dez principais livros da Literatura brasileira. Leia, pois ele é muito bom!



O Pingo e a Pinga

 Sampaulo* ‒ chargista de Zero Hora

Quando a chuva pinga no meu pago 

E pela estrada eu venho no meu pingo, 

Me apeio à procura de algum gringo 

Dono de bolicho, quero um trago! 

Bebo pura a pinga, mas não pago 

E boto uma peleia com o gringo. 

Sai cara a pinga, mas nem um pingo 

De dinheiro na guaiaca eu trago! 

E enquanto ele grita: ‒ “Paga a pinga!” 

Eu pego pela goela o pobre gringo 

E, despacito, despacito, o apago. 

Depois, na garupa, levo a gringa 

Que vai pingando o pranto no meu pingo 

E eu, fedendo a pinga, pelo pago.

******* 

* Sampaulo foi o pseudônimo artístico de Paulo de Tarso Faria (1931–1999), um dos mais importantes e premiados cartunistas, chargistas e ilustradores brasileiros, consagrado especialmente no Rio Grande do Sul.

Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho

 

O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse instante, sobreolhá-lo-ia comiserado. 

O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos, não há equipará-los. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do Equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.

As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das árvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda encarnado, ao pescoço; coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis, e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca ‒ é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. Demonstra-o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aperado está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa. 

Trecho do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ladainha

 Texto de Lourenço Diaféria

Dizem que vai faltar açúcar, todo mundo corre a procurar o doce.

Dizem que vai faltar o óleo, todo mundo corre a procurar a fritura.

Dizem que vai faltar o trigo, todo mundo corre a procurar a broa.

Dizem que vai faltar o fubá, todo mundo corre a procurar o angu.

Dizem que vai faltar o ferro, todo mundo corre a procurar a treliça.

Dizem que vai faltar o cimento, todo mundo corre a procurar o concreto.

Dizem que vai faltar a água, todo mundo corre a procurar o balde.

Dizem que vai faltar o sarilho, todo mundo corre a procurar o poço.

Dizem que vai faltar o vinagre, todo mundo corre a procurar o vinho.

Dizem que vai faltar o vinho, todo mundo corre a procurar o copo.

Dizem que vai faltar a luz, todo mundo corre a procurar a vela.

Dizem que vai faltar a carne, todo mundo corre a procurar o bife.

Dizem que vai faltar o orégano, todo mundo corre a procurar a pizza.

Dizem que vai faltar a galinha, todo mundo corre a procurar a canja.

Dizem que vai faltar o peixe, todo mundo corre a procurar a moqueca.

Dizem que vai faltar a paz, todo mundo corre a procurar as armas.

Dizem que vai faltar o samba, todo mundo corre a procurar o pandeiro.

Dizem que vai faltar o sol, todo mundo corre a procurar a praia.

Dizem que vai faltar a chuva, todo mundo corre a procurar o chuveiro.

Dizem que vai faltar o dinheiro, todo mundo corre a procurar o banco.

Dizem que vai faltar o cometa, todo mundo corre a procurar a luneta.

Dizem que vai faltar o horóscopo, todo mundo corre a procurar a cartomante.

Dizem que vai faltar estrelas, todo mundo corre a procurar o firmamento.

Dizem que vai faltar eleições, todo mundo corre a procurar candidatos.

Dizem que vai faltar governo, todo mundo corre a procurar revoluções.

Dizem que vai faltar a liberdade, todo mundo corre a procurar prisões.

Dizem que vai faltar navios, todo mundo corre a procurar o porto.

Dizem que vai faltar os fatos, todo mundo corre a procurar boatos.

Agora: quando dizem que vai faltar vergonha, ninguém se toca, está todo mundo acostumado.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O Navio Negreiro, Tragédia no Mar (VI)

 Castro Alves

Existe um povo que a bandeira empresta

Pr'a cobrir tanta infâmia e cobardia!..

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

 

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança,

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca este pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta de teus mares! 

São Paulo, 18 de abril de 1868.

Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876). In: ALVES, Castro. Obra completa. Organização e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198. 

Antônio Frederico de Castro Alves, 14 de março de 1847 – 6 de julho de 1871, foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de “poeta dos escravos”. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

As qualidades para se ter bom senso

 

O bom senso é a capacidade de agir e julgar com equilíbrio, sabedoria e razoabilidade, adaptando regras e comportamentos ao contexto prático da convivência social. 

As principais qualidades e atitudes associadas a quem tem bom senso incluem: 

● Empatia: Saber se colocar no lugar do outro, ouvir sem julgamentos e respeitar sentimentos e opiniões divergentes e manter o equilíbrio e a força diante de pressões ou dificuldades.

 ● Escuta ativa: Prestar atenção genuína ao que o outro diz antes de formular uma resposta ou julgamento. 

● Inteligência emocional: Controlar impulsos, manter a calma e preferir o diálogo ponderado a reações agressivas ou precipitadas. 

● Humildade: Reconhecer os próprios erros, aceitar limitações e não agir de forma egocêntrica ou arrogante. 

● Ponderação e prudência: Analisar os riscos, os benefícios e as consequências de uma decisão antes de agir. 

● Respeito às regras e ao coletivo: Compreender os limites da convivência social e agir em harmonia com os valores da comunidade. 

● Confiança: Acreditar no caráter, na lealdade e nos valores de alguém. 

● Criatividade: Capacidade de inovar e criar coisas novas. 

● Tolerância: Habilidade de aceitar diferenças e perdoar pequenos erros. 

● Amorosidade: Transmitir carinho, atenção e respeito aos outros. 

● Sinceridade: Ser uma pessoa honesta, franca e leal. 

● Foco: Habilidade de se concentrar para cumprir tarefas e metas. 

● Extroversão:  Facilidade para se comunicar e socializar. 

● Disciplina: Capacidade de realizar obrigações com constância.

domingo, 25 de outubro de 2026

A casa do casal de barreiros

 Paulo Mendes

Construíram, os dois, uma casa feita de barro e capim, porta virada para e leste, bem em cima do moirão grosso, ali no piquete dos cavalos de encilha. Levaram 20 dias, faziam muitas viagens diárias naquela primavera chuvosa, com as bolinhas de terra e palha no bico. 

Naquele ano eu acompanhei toda a faina e os dias nervosos em que os dois apaixonados ergueram aquela casinha em forma de forno. No final da tarde, davam uma pausa e, lado a lado, cantavam sobre a cerca. Até que ficou pronta a moradia e a fêmea se aquietou no ninho, chocando três ovinhos brancos. Foi no início de outubro que nasceram os barreirinhos, que descobri quando o casal começou a fazer novas incursões e voltava com frutinhas, larvas e minhocas para alimentar os filhotes. Três semanas depois, o primeiro apareceu na porta numa manhã de domingo, mirou o céu azul da Vila Rica, abriu as asas, partiu por sobre o capão e desapareceu. É sempre assim, quando a gente abre as asas, nunca mais. 

Em janeiro, chegou a minha vez, juntei meus trapos, abracei pai, mãe e irmão, e também abri as asas. Olhei o campo, os matos, o açude, meu cachorro, os galpões e alcei voo. Quando voltei, não havia mais casas, nem minha, nem a do casal de barreiros. 

Do caderno + domingo,

do jornal Correio do Povo, de 25.10.2026.

* Barreiro, em algumas regiões do Rio Grande do Sul, é o nome regional do joão-de-barro (Furnarius rufus) é uma ave  Passeriforme da família Furnariidae. É conhecido por seu característico ninho de barro em forma de forno (característica compartilhada com muitas espécies dessa família). 

Glossário das palavras gaúchas 

Moirão: estaca grossa de madeira, concreto ou pedra cravada verticalmente no solo, usada principalmente para sustentar arames, telas ou ripas na construção de cercas. 

Piquete: pequeno potreiro próximo das habitações, onde se recolhem os animais para serviços diários. 

Cavalo de encilha: cavalo pronto para se montar. 

Capão: porção de mato isolado no meio do campo.


sábado, 24 de outubro de 2026

E como vota o analfabeto político?

 

01. Ele vota no candidato que está levemente à frente das pesquisas. Ele quer ter a ilusão de vencer sempre. 

02. Quando assiste a um debate entre dois candidatos na TV, ele acredita sempre no que faz mais promessas. * 

* O pai desse candidato, esse vídeo está na internet, deu uma entrevista aconselhando a quem quiser se candidatar a um cargo político, a prometer, prometer, pois o importante é ganhar a eleição, o resto a gente vê depois. 

03. Ele não pesquisa a vida dos candidatos, ignora os seus maus feitos, sempre votou em políticos de seu partido, e votará sempre nos que o partido indicar. 

04. Muitas vezes, por burrice ou ingenuidade, ao parar num sinal de trânsito, aceita um adesivo, um botom, uma bandeira de algum candidato, e resolve votar nele. 

05. Sempre aceitou as dicas de um parente, geralmente um cunhado, para saber em quem deverá votar. Sua mulher, irmã do cunhado, sabe das fraquezas dele, e o obriga a votar no político simpático à família. 

06. Ele vota pelo efeito manada. Se nas pesquisas do seu Estado a maioria está votando em tal candidato, ele acha que o povo todo está com razão. 

07. Uma vez Nélson Rodrigues, grande jornalista e teatrólogo brasileiro, disse uma frase antológica: “Toda a unanimidade é burra”. Ele, em qualquer circunstância, seguirá sempre a unanimidade, de qualquer partido, de qualquer candidato. 

08. Se for um empregado ou uma empregada de alguém rico, ao ouvir a conversa de seus patrões em quem irão votar, julgando que eles sabem muito mais do que ele (ela), toma a decisão de votar em quem seus patrões irão votar. 

09. Muitos patrões empresários obrigam o ignorante político a votar no seu candidato, sob pena de perder o emprego, mesmo ele sabendo que na cabine de  votação estará ele e a urna, ninguém irá ficar sabendo em quem ele votou. 

10. Mas, na grande maioria das vezes, ele não tem nenhuma consciência de classe. Não sabe que o partido que mais o representa está numa ponta e o outro, que não tem nada a ver com sua classe social, está na outra. Ele, por pura burrice, fica na dúvida em quem votar! Não sabe ele que o seu voto, se votou no candidato que o representa, irá melhorar a sua vida e, consequentemente, a vida do país. 

P.S. O pior de tudo é o eleitor fanático religioso que aceita, sem contestar, as determinações do pastor de sua igreja evangélica*. Não sabe ele que político safado, uma das primeiras coisas que ele faz, ao se candidatar a algum cargo eleitoral, é se converter a alguma comunidade religiosa para tirar proveito disso, pois sabe ele que o líder de algum grupo religioso tem total domínio sobre os fiéis que acreditam piamente nas suas determinações sobre em quem devem votar.

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* O Brasil possui aproximadamente 178 mil a mais de 180 mil templos e igrejas evangélicas, segundo estimativas recentes baseadas em dados do Censo e registros oficiais. A maioria são igrejas honestas que seguem com muita fé os verdadeiros ensinamentos cristãos. Muitas dela delataram que um tal político não é uma pessoa confiável e estão se afastando dele, determinando a seus fiéis total liberdade para votar em quem sua consciência achar melhor. 

Conselho final: 

“Na dúvida, fique sempre ao lado dos pobres.”

 Dom Pedro Casaldáliga

NSM

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Como age o ignorante político?

 

O ignorante político age, segundo cientistas políticos e sociólogos, demonstrando desinteresse, desconhecimento ou apatia em relação ao funcionamento do sistema governamental, às propostas dos candidatos e aos processos democráticos. 

Diferente de quem apenas carece de acesso à informação, a ignorância política frequentemente se manifesta por meio de comportamentos específicos na esfera pública: 

Padrões de Comportamento 

● Voto baseado em simpatia ou repulsa: A escolha de candidatos ocorre por afinidade pessoal, carisma, religião ou rejeição extrema, em vez de uma análise de propostas econômicas ou sociais. 

● Consumo passivo de informação: O indivíduo tende a aceitar narrativas simplistas ou manchetes sensacionalistas sem verificar as fontes ou a veracidade dos fatos. 

● Replicação de boatos: Há uma forte inclinação para compartilhar desinformação (fake news) que confirme seus próprios preconceitos ou visões de mundo. 

● Aversão ao debate complexo: Assuntos que exigem profundidade (como reformas tributárias ou políticas fiscais) são reduzidos a slogans ou ignorados por completo. 

Tipos de Ignorância Política 

● Apatia pura: O cidadão que se isola completamente do debate público por acreditar que a política “não muda nada” na sua vida cotidiana. 

● Ignorância racional: Um conceito da ciência econômica onde o cidadão escolhe conscientemente não despender tempo e esforço para estudar política, por considerar que o custo de se informar é maior do que o impacto real que o seu voto individual terá no resultado geral. 

● Militância desinformada: O indivíduo que participa ativamente de discussões e manifestações, mas possui um conhecimento distorcido ou superficial da realidade institucional, agindo movido estritamente pelo pensamento de grupo (efeito manada). 

O Analfabeto Político 

O pior analfabeto é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.

Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo. 

Bertold Brecht 

Nota: O texto é atribuído a Brecht pela primeira vez em Terra Nossa: Newsletter of Project Abraço, North Americans in Solidarity with the People of Brazil, Vols. 1-7 (1988, p. 42).

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Piá... dinhas

 

Não estou entendendo mais nada...  Aluguei um terno para o meu avô ser enterrado com ele, e estou pagando as prestações até hoje... 

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Um marido surpreende sua mulher nos braços do seu melhor amigo: 

‒ Meu velho... logo você, meu melhor amigo? Coitado! Eu sim, eu sou obrigado, mas você? Por que você? 

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‒ Vovó, como é que as crianças nascem? 

E a vovó, respondendo: 

‒ É a cegonha que as traz no bico, meus netinhos. 

E é aí que o Pedrinho fala pro Joãozinho: 

‒ Que é que você acha, Joãozinho? Contamos pra ela? 

‒ Não, não ‒ diz Joãozinho. ‒ Deixa ela na inocência. 

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A garota simpática foi fazer a prova em segunda época, Estudara pouquíssimo e a única chance que tinha é que ela era muito, mas muito gostosa mesmo. No dia seguinte se encontra com sua melhor amiga:

‒ Como é? Deu pra passar? 

E ela: 

‒ Dei. 

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Numa zona de baixo meretrício: 

‒ Vem comigo, querido. Quanto que você me dá? 

‒ Uns sessenta anos... 

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O filho do alfaiate chega para o pai no fundo da loja e fala com ele: 

‒ Pai, tem um freguês aí que quer comprar aquele terno de listrinhas marrons. Ele que saber se depois de lavado, o terno encolhe ou não. 

‒ Ele já experimentou o terno? 

‒ Já , sim senhor. 

‒ Ficou largo ou apertado? 

‒ Largo. 

‒ Então diz que encolhe. 

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O garotinho chegou pra mãe e perguntou: 

‒ Mãe, empregada amarrota? 

‒ Não, meu filho. Claro que não. Por que a pergunta? 

‒ Porque eu ouvi o papai dizendo pra empregada que hoje à noite ia passar o ferro nela. 

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Uma recatada e caridosa senhora vinha passando por uma esquina erma e deserta quando, zapt, pulou na frente dela um alto e forte desconhecido e deu a maior juntada na velha. 

Corta para cena seguinte: A senhora deitada no mato, aos prantos, falando pro homem: 

‒ Vou contar pro delegado que o senhor abusou de mim cinco vezes. 

‒ Cinco vezes? ‒ protestou o tarado. Só foi uma vez! 

E ela: 

‒ Bom, o senhor não está com pressa, não é? 

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Tinha um país com um senador tão vagabundo, mas tão vagabundo, que a única coisa que ele fazia era arrecadar dinheiro através de “rachadinhas”. Um dia, espalharam que o senador estava doente. Mandaram chamar médicos de todas as partes do país, até que um deles descobriu o que era. Era prisão de ventre. 

‒ Como foi que o senhor descobriu? 

‒ É que desde que ele tomou posse no seu primeiro mandato que ele não faz merda nenhuma! 

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As voltas dos ponteiros no relógio

 Carpinejar

Na infância, comunicávamo-nos com nossos amigos pelas visitas. 

Aparecíamos. Sem hora marcada. 

Ou para jogar futebol, ou para pular corda, ou para arremessar pião e bolitas, ou por tédio mesmo, para emprestar a solidão e empreender uma expedição pelo bairro, achando o que fazer junto. 

Assumíamos o risco da viagem perdida. Algumas vezes ninguém nos atendia. E regressávamos com a porta na cara. Pensávamos em tentar mais tarde. Não levávamos para o lado pessoal o fato de caminhar com monte ou pegar uma outra condução para ir de novo. Não sofríamos com a repetição. Não havia preguiça. 

Batíamos palmas, assoviávamos na frente do portão, gritávamos o apelido de quem procurávamos, alongando a última sílaba. 

A família do amigo provavelmente nos odiava. Nem tanto pela algazarra comum nos 70, que servia como campainha informal, mas porque sempre interrompíamos o almoço ou o planejamento espartano do dia. 

Quando avistávamos uma alma se mexendo na janela, nossa pergunta não mudava: 

‒ Fulano pode sair? 

Nada acontecia de imediato. Amargávamos o suspense. 

‒ Espera aí! 

Sequer éramos convidados a entrar. A gurizada medonha se mantinha de pé na rua. Não desfrutava dos privilégios de gente grande, dos vendedores de enciclopédia, de cosméticos, de frutas. 

Aguardávamos no meio-fio da calçada. 

O amigo precisava terminar o tema escolar antes. Ou lavar a louça. Ou arrumar sua cama e organizar sua escrivaninha. Ou tomar banho. Ou recolher as necessidades do cachorro no pátio. Ou varrer o quintal. Os pais aproveitavam nossa presença para cobrar tarefas domésticas e pendências. Para recuperar o atraso nas responsabilidades. 

Não testemunhávamos o que estava sendo solicitado nos bastidores. Pelo tempo excedido, adivinhávamos que existia uma exigência em vigor: um pedágio para a liberdade inusitada. 

Acabávamos como pretextos perfeitos. 

O filho queria se divertir? Então que cumprisse primeiro o que tinha prometido. 

Melhor a série de atividades do que estar de castigo, que consistia numa prisão domiciliar, de prazo indefinido, por causa de notas baixas, ou mau comportamento com o irmão, ou quebra de um objeto de valor. 

O castigo alheio nos obrigava passar lá todo santo dia para descobrir se o colega já estava liberado. 

Naquela época, criança brincava com criança. Adultos não nos entretinham. Deveríamos nos virar entre nós. Não se via pai ou mãe dividindo passatempos com o seu rebento. Não nos misturávamos. Não sentávamos com eles para Super Trunfo ou Banco Imobiliário. Eles se mostravam ocupados demais para se interessar pelo nosso ócio. 

Quando o amigo vinha em nossa direção, esquecíamos a areia da ampulheta, as voltas dos ponteiros no relógio. 

A felicidade da parceria apagava o sacrifício. 

Corríamos, e escutávamos ao fundo o eco materno, pouco a pouco enfraquecido pelo som de nossos Kichutes: 

‒ Fiquem por perto! 

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Crônica de Fabrício Carpinejar,

 no jornal Zero Hora, outubro de 2026.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Duas peças

 Luís Fernando Veríssimo

 

Pai e Filha, 1951, 52, por aí. 

Pai – Minha filha, você vai usar... isso? 

Filha – Vou, pai. 

Pai – Mas aparece o umbigo! 

Filha – Que que tem? 

Pai – Você vai andar por aí com o umbigo de fora? 

Filha – Por aí, não. Só na praia. Todo mundo está usando duas-peças, pai. 

Pai – Minha filha... Pelo seu pai. Pelo nome da família. Pelo seu bom nome. Use maiô de uma peça só. 

Filha – Não quero! 

Pai – Então este ano não tem praia! 

Filha – Mas pai! 

Filha – Pai, vou usar maiô de uma peça. 

Pai – Muito bem, minha filha. Gostei da sua independência. Por que ser como todas as outras? Uma peça. Ótimo. Você até vai chamar mais atenção. 

Filha – Só não decidi ainda qual das duas, a de cima ou a de baixo. 

******* 

Luís Fernando Veríssimo. Zoeira. 5ͣ  edição. Porto Alegre: L&PM, 1987. Pág. 67.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Nada mais importa

 Marquinhos PQD* e Arlindo Cruz 

Nada mais importa,

se a solidão vier bater na sua porta,

se um novo amor fizer chover na sua horta,

faça o favor de ser feliz. 

Meu coração tão infeliz,

diz que nada mais importa,

se a saudade no teu peito não suporta,

é o nosso adeus escrito certo em linhas tortas,

eu quis amar, você não quis. 

E tanto faz se o seu olhar entristeceu e derramou,

pois este pranto você  fez por merecer,

e o meu olhar, de tão sofrido, já secou,

e o que eu chorei só me ajudou a te esquecer.

Seu amor não valeu o que aconteceu. 

Nada mais importa,

nasceu torto e ninguém mais desentorta,

quando o mal é na raiz, a gente corta.

Foi assim que eu aprendi. 

Meu coração tão infeliz me diz

que nada mais importa,

se a saudade o teu peito não suporta

é o nosso adeus escrito certo em linhas tortas

eu quis amar, você não quis. 

E tanto faz se o teu olhar me entristeceu e derramou,

pois este pranto você fez por merecer

e o meu olhar, de tão sofrido, já secou

e o que eu chorei só me ajudou a te esquecer.

seu amor não valeu o que aconteceu. 

Nada mais importa.

Nasceu torto e ninguém mais desentorta,

quando o mal é na raiz a gente corta,

foi assim que eu aprendi. 

Nada mais importa,

pois agora já é tarde, Inês é morta.

Tô legal, meu coração já não comporta

mais um pingo de ilusão. 

Nada mais importa,

nossa rima já não faz nenhum sentido,

nosso caso tá pra lá de resolvido,

aprendi outra lição... 

******* 

P.S.: Escute essa música nas vozes do cantor Reinaldo ou do próprio autor: Marquinhos PQD.

Marquinhos PQD – O Globo 

Marquinhos PQD: Nome completo: Marcos de Souza Nunes; 

Nascimento: 1ͦ. de janeiro de 1959, no Rio de Janeiro (criado em Realengo, na Zona Oeste); 

Apelido “PQD”: Veio de seu tempo como paraquedista do Exército Brasileiro, onde serviu no batalhão Dompsa, que é a sigla para Batalhão de Dobragem, Manutenção de Paraquedas e Suprimento pelo Ar (ou Companhia/Batalhão DoMPSA) do Exército Brasileiro. realizando manutenção e dobragem de paraquedas. Seu número era 33446, do turno 1980/1; 

Marquinho PQD iniciou a carreira musical em 1983, quando o grupo Fundo de Quintal gravou o samba “Fase de Amor”, composta por ele junto com Chiquinho e Fernando Piolho. 

Falecimento: Faleceu em 29 de setembro de 2025, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. 


As cortinas do espetáculo

 Nílson Souza

(...) 

Cenário: o menino, a bola e a parede: 

‒ Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba! 

A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto. 

‒ Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! ‒ acrescenta com igual agilidade verbal. 

E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito. 

‒ Prrriiiii! 

Retorna para o locutor improvisado: 

‒ Penalidade máxima! ‒ grita. 

Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti: 

‒ Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta... 

Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.

‒ Isolou! Isolou! ‒ grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo. 

‒ Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade! 

Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair: 

‒ Craque! Esse é craque! ‒ diz para si mesmo. 

Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora: 

‒ No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem? 

Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha pra cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego. 

‒ Fim de jogo! ‒ exclama, desapontado. 

Mas ainda encontra ânimo para um fecho solene: 

‒ Fecham-se as cortinas do espetáculo! 

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(Do jornal Zero hora, 20 de outubro de 2026)

Noel Rosa:

 A história por trás do sorriso do poeta

Caricatura – Arquivo do  O Globo

Na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, ficava a casa onde nasceu, em 11 de dezembro de 1910, Noel Rosa. Hoje, o antigo imóvel deu lugar a um prédio, e a memória daquela residência sobrevive nos registros históricos. 

Noel nasceu em uma família de classe média. Seu avô era médico, sua avó tocava piano, seu pai tinha uma loja e sua mãe tocava bandolim. Mas qual seria o destino daquele menino: médico ou artista? Noel escolheu a música e ajudou a mudar a história do samba. 

O pesquisador Ricardo Cravo Albin destaca um aspecto importante de sua trajetória: Noel representava também a presença de jovens brancos de classe média na música popular, num período em que esse universo era associado principalmente a artistas de origens humildes e compositores negros e mestiços. 

Mas a história de Noel também foi marcada por uma dificuldade física. 

Durante o parto, o uso do fórceps provocou um afundamento em seu maxilar. Ele passou por operações na infância, mas o problema persistiu. E foi aí que apareceu uma das características mais marcantes de sua personalidade: a capacidade de rir de si mesmo. 

Em vez de permitir que sua condição o definisse, Noel fazia piadas sobre a própria aparência e brincava com as pessoas ao seu redor. Seu humor, por vezes sarcástico, revelava uma inteligência afiada e uma maneira singular de enfrentar as adversidades. 

Noel Rosa morreu em 4 de maio de 1937 aos 26 anos, mas deixou uma obra que atravessou gerações. Talvez sua grandeza também esteja nisso: ele transformou em arte sua maneira de observar o mundo, sem perder a ironia, a leveza e a capacidade de rir da própria vida. 

Por trás do grande compositor, havia um homem que não permitiu que suas limitações se tornassem maiores do que seu talento. 

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Piada de Noel Rosa sobre ele mesmo: “Eu não tenho do que me queixar!”

Ricardo Cravo Albin é um advogado, jornalista, historiador, crítico, radialista e musicólogo brasileiro, sendo considerado um dos maiores pesquisadores da Música Popular Brasileira. Sua maior obra é o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, com cerca de sete mil verbetes e referência na área musical.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Garoto safado

 

A diretora de uma escola rural do interior de uma cidade nordestina, chama o pai de um aluno para reclamar do seu filho, personagem de um fato desagradável acontecido no colégio: 

‒ Bom dia, diretora, porque eu estou sendo chamado aqui, o que é que o sem-vergonha lá de casa aprontou agora? 

‒ Estou chamando o senhor aqui, é que o seu filho foi apanhado com duas meninas dentro do banheiro da escola. 

‒ Tá no sangue, puxou o pai. E o que ele estava fazendo de tão grave assim, dentro do banheiro, com essas duas meninas? 

‒ Eles estavam se maquiando durante o período de aula!

Nomes bíblicos

 Por Ricardo Salles

Os nomes abaixo são bíblicos; a maioria vem do hebraico ou do aramaico, línguas do antigo Testamento. Veja o seu significado provável. 

01. Abel ► filho (tem provável origem remota assíria [aplu,‛filho’ ou suméria [ibila, ‛filho’]. 

02. Adão ► homem (do hebraico adam, idem).   

03. Ana ► misericórdia (do hebraico hanna, idem; parece ser redução de hananyah, ‛Javé compadeceu-se’, que, por sua vez, é o étimo de Ananias). 

04. Ariel ► leão de Deus (do hebraico ‛ariel’ [idem, em que o elemento ari-[redução de aryeh] significa ‛leão’). 

05. Débora ► abelha (do hebraico d’borah, idem). 

06. Esaú ► peludo (do hebraico ‛echaw’, idem). 

07 Filipe ► amador de cavalos (termo de origem grega, Phílippos, formado dos elementos philo-, radical de gostar, amar, e hippos, ‛cavalo’). 

08. Jonas ► pomba (do hebraico yonah, idem). 

09. Mateus ► presente de Deus (é, na realidade, a forma grega do hebraico Mattai, redução de Mattenai, ‛presente, dádiva de Deus’; há outros antropônimos de origem grega com o mesmo significado, como, por exemplo, Teodoro, formado dos elementos theos, ‛Deus’ e doron, ‛dom’). 

10. Paulo ► pequeno (do adjetivo latino paulus, -a, -um, ‛pequeno, pouco considerável’; é o nome latino do soldado Saulo, perseguidor dos cristãos, convertido depois do episódio da visão da luz no caminho de Damasco). 

11. Raquel ► ovelha (do hebraico rakhel, idem). 

12. Salomão ► prosperidade (do hebraico ch’lomo, derivado de uma forma que significa prosperidade naquele idioma). 

13. Sara ► princesa (do hebraico charah ou charay, conforme a fonte, que propriamente significa ‛soberana’). 

14. Susana ► lírio (Souzanna é forma grega do hebraico chúchan, ‛lírio’). 

15. Tomás ► irmão gêmeo (do aramaico tomá, ‛gêmeo’ que, em grego, foi traduzido como Dídimo [‛gêmeo’], nome pelo qual também é conhecido esse apóstolo de Cristo; Tomé é a forma galega, muito usada em Portugal). 

Da Seleções do Reader’s Digest, dezembro de 2018)

domingo, 18 de outubro de 2026

Dia da Língua Portuguesa

 5 de maio 

Texto de Eduardo Affonso

Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”. 

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”. 

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário. 

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem. 

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo. 

Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson. 

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema. 

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”. 

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito uma tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz. 

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária. 

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra que sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta? 

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo). 

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo. 

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa, cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente. 

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos. 

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Eduardo Affonso é professor, cronista e arquiteto mineiro. É uma das vozes mais originais e bem-humoradas da crônica contemporânea brasileira. Ele se destaca nacionalmente por suas reflexões irônicas sobre o comportamento humano, sua análise lúdica das redes sociais e sua paixão pela etimologia e pelo aportuguesamento criativo de termos estrangeiros. Nasceu em 1959, em Belo Horizonte/MG. Mudou-se para o Rio de Janeiro /RJ, onde se estabeleceu profissionalmente, graduou-se e fixou sua residência de longo prazo. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ).