Tarso Genro
A extrema direita, esta mesma responsável por Hitler e Mussolini, não pode conquistar democraticamente a capacidade de escravizar um país aos seus preconceitos, ao seu ódio de classe e a sua visão sobre a inferioridade das mulheres e a superioridade da ditadura. A democracia pode, em períodos de crise, ser um bem relativo, mas a ditadura em todos os períodos é o mal absoluto que encarcera a vida, a gentileza e a reflexão.
O hálito áspero de uma democracia em crise pode ser dissolvido pelo sopro da liberdade e da cultura. Pode ser neutralizado pelo perfume da educação, pelo dissenso regrado em leis, pela saúde da participação cidadã. Esta não é uma eleição da rotina democrática de um país em paz. É um pleito que vai muito além da escolha entre dois projetos de gestão do Estado na República, cujas questões – que estão de fato em disputa – não são aquelas ideológicas em sentido estrito: as controvérsias sobre o significado da democracia que queremos já foram superadas pela Constituição de 88.
As eleições livres, os direitos da liberdade e da dignidade humana, um estado soberano que defende a paz: eis o que podemos perder. A história nos conta isso: 900 mil mortos, considerando a subnotificação e o excesso de mortalidade agravada pela incúria negacionista e ativista do Presidente anterior na pandemia; 1,6 milhões de armas de fogo colocadas principalmente nas mãos de bandos milicianos; nosso país foi recordista em desmatamento, entrou de novo no Mapa da Fome e saiu do ranking da cobertura vacinal.
Esta é a eleição mais importante da história republicana, porque corremos o risco de assistir novamente um presidente debochar dos que vão morrer, imitando o arfar dos pulmões enfraquecidos dos nossos compatriotas, como na tragédia do Covid 19. Se Lula for derrotado, os preconceitos mais cruéis, a brutalidade e a truculência miliciana habitarão novamente o Planalto.
O campo político comprometido com um golpe de estado em movimento é o mesmo que defende que outra pátria tenha o direito e o dever de nos taxar como a uma colônia, sem Constituição e sem soberania. É o mesmo campo que instaurou no país o cercadinho dos jornalistas, humilhados pela prepotência do Führer de opereta.
A vida ensina que dois campos políticos em disputa, em um regime democrático, sempre têm virtudes e defeitos. Mas a história também ensina que nas lutas eleitorais contra qualquer totalitarismo, este nunca tem virtudes. E mais: que as suas vitórias sempre são anunciações da guerra e da dor física e moral, que atravessam gerações inteiras. Vote bem, vote na democracia! Não é uma questão ideológica, é uma questão de vida ou morte para as próximas gerações.

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