quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Futuro do pretérito

 Roger Lerina

(...) 

A aceleração crescente do tempo é uma característica da modernidade, contribuindo para a sensação atual de estarmos vendo a história passar voando na nossa frente ‒ ainda ontem a gente escutava música em fita cassete e recebia telegrama, lembra? No entanto, diferentemente da engenhoca criada pelo personagem vivido no cinema por Rod Taylor, a máquina do tempo da civilização ocidental* engatou marcha à ré afu no novo milênio. Direitos sociais, liberdades individuais e valores progressistas, arduamente conquistados ou ao menos almejados desde o Iluminismo, são frontalmente atacados por ideologias políticas e sistemas econômicos que tendem à hegemonia em boa parte do planeta. 

Por aqui a máquina do tempo virou montanha-russa: haja coração para aguentar a sucessão frenética de escândalos, imposturas, arbitrariedades e quejandos que a vida pública nacional nos apresenta no noticiário diariamente. No último domingo (4.10.2026), a partir da divulgação dos resultados eleitorais, entramos no trem fantasma deste parque chamado Brasil: as redes sociais e o debate público repercutiram as manifestações de candidatos terrivelmente antidemocráticos chancelados pelas urnas. Gente que vai para as ruas chicotear calçada, reverenciar ex-presidente golpista preso, elogiar torturador do regime militar, chamar indígena de canibal e declarar-se a maior inimiga mulher das feministas**. A nação zumbi está crescendo e talvez já não dê mais tempo de embarcar naquele carro que leva de volta para o futuro. 

Parte da crônica do título citado acima,

do jornal Zero Hora, de 8.10.2026 

*   Um cientista constrói uma máquina do tempo e decide viajar para o futuro. Ele acaba descobrindo que a humanidade foi dividida de duas formas, os da superfície são pessoas pacíficas e nos subterrâneos elas são deformadas e canibais. 

** Eduarda Campopiano, deputada mais votada pelo do PL de São Paulo declarou-se a maior inimiga das feministas e chamou indígenas de canibais. 

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