domingo, 31 de maio de 2026

O teste da ausência

 J.J. Camargo 

“A solidão não é falta de gente,

é falta de sintonia com quem está por perto.”

(Clarice Lispector)

Existe uma diferença abissal entre a solitude ‒ que é a escolha pacífica de estar consigo mesmo ‒ e a solidão, que é o isolamento imposto pelo descarte social. Esta última transformou-se na verdadeira pandemia do nosso século, alimentada por um paradoxo perverso: a combinação de longevidade com a perda da utilidade. Ganhamos tempo de vida e não sabemos o que fazer com ele. 

Hoje, a solidão é a doença mais grave e de mais difícil solução, porque há um grande desequilíbrio social agravado pela conquista da longevidade despida de propósito. A extensão da vida, sem um objetivo que a sustente, traz como subproduto uma legião de velhos funcionalmente inúteis que, na lógica utilitarista do mundo moderno, passam a ser vistos como um fardo para suas famílias. 

Como não há pílula para o vazio, a busca por cura migrou de endereço. Quem observa o fluxo dos ambulatórios gratuitos logo percebe um dado chocante: cerca de dois terços das consultas não são motivadas por dores orgânicas. O paciente não tem uma infecção, um tumor ou uma falência qualquer; há, sim, uma busca desesperada por companhia. O estetoscópio encostado no peito é o pretexto para o toque; a receita médica é o documento que prova que ele ainda existe para alguém. 

Ou o que pensar quando uma idosa questionada por que chegara duas horas antes da hora marcada simplesmente responde: “Porque eu não aguentava mais ficar sozinha em casa”. Ou do idoso que reclamou do banco que orgulhosamente eliminou a fila: “Por não se importar com o quanto ríamos até chegar a nossa vez!” 

O tamanho exato desse drama se revela nos detalhes de um fim de tarde qualquer, quando o grande salão do ambulatório de um hospital público finalmente esvaziou. As luzes iam se apagando, as cadeiras de plástico ficavam expostas em sua nudez cinzenta, e todos os médicos já haviam ido embora. Com exceção de uma senhorinha de cabeça muito branca, miúda na imensidão da sala, que parecia esperar pacientemente ser chamada. Estranhando a cena, a enfermeira checou a agenda do dia e confirmou que o mapa estava zerado: todos os pacientes agendados já tinham sido atendidos. Aproximou-se da idosa e, com delicadeza, quis saber quem ou o que ela ainda estava aguardando. A resposta veio com uma lucidez que rasga qualquer tentativa de romantizar a velhice: 

‒ Eu vim aqui para ter com quem conversar. Agora que todo mundo já se mandou, vou esperar sentada para ver quanto tempo a minha família vai demorar para dar pela minha falta e vir me procurar. 

Aquela mulher não estava esperando uma consulta: estava aplicando um teste de sobrevivência afetiva naqueles que deveriam amá-la. Usava o banco frio do hospital público como um farol de náufrago, testando limites do esquecimento. 

Enquanto a medicina se orgulha de adiar a morte, a sociedade precisa entender o que pode significar a morte antes de morrer. Caso contrário, continuaremos celebrando os aniversários de 90 anos enquanto assistimos, impotentes, a idosos sentados em sala de espera vazias, cronometrando o tempo que o mundo leva para lembrar que eles ainda respiram. 

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J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina. 

(Do caderno Vida, do jornal Zero Hora, maio de 2026)

sábado, 30 de maio de 2026

Histórias da MPB

 

Seresteiro Obtuso 

Noel Rosa gostava das madrugadas e, quando não tinha carro, escalava motoristas de táxi para acompanhá-lo no périplo noturno. 

Um desses motoristas tinha o apelido de Malhado, em função do vitiligo. Possuía voz possante, que gostava de exibir em serenatas, e vivia pedindo a Noel uma música em que pudesse exibir seus dotes vocais. 

Noel percebeu um detalhe interessante. Malhado cantava valsas e canções com palavras difíceis de que ele não conhecia o significado. Diante disso, resolveu compor uma canção para o amigo motorista. 

Depois de pronta a composição, Noel ensinou a melodia para Malhado, e combinou de fazerem a estreia da obra numa serenata para as filhas de um coronel lá de Vila Isabel. 

Ao chegar diante do sobrado do coronel, Noel disse que ficaria do outro lado, para dar o destaque que a voz de Malhado merecia. Feriu o tom e o cantor atacou: 

“Saí da tua alcova

Com prepúcio dolorido,

Deixando teu clitóris gotejante

De volúpia emurchecido,

Porém o gonococo da paixão

Aumentou minha tesão.” 

O coronel levantou atirando. Malhado correu para a esquina onde Noel já o esperava. Lívido, parou diante do Poeta da Vila, que o consolou: 

- Isso é pra você ver, Malhado, o que é a falta de sensibilidade dessa gente. 

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Quizila mal resolvida 

A coisa mais fácil de acontecer entre pessoas de porre é um desentendimento. Qualquer motivo pode ser a causa da diáspora, e as conseqüências só serão conhecidas no dia seguinte. 

Foi assim com uma discussão entre a cantora Miúcha e o agitador cultural Albino Pinheiro. Os dois discutiram e chegaram a se estranhar, por causa de um assunto que no dia seguinte ninguém lembrava. 

Ao acordar, cheia de arrependimento e culpa, Miúcha resolveu ligar para Albino e colocar tudo em pratos limpos. Aconteceu que Albino tinha ido à casa do grande Sivuca*, para combinar o roteiro de um show da série Seis e Meia, e deixara o telefone de onde estaria para quaisquer eventualidades. 

Sem saber para onde estava ligando, Miúcha telefonou para a casa do Sivuca, sendo atendida pela esposa do instrumentista, a cantora e compositora Glorinha Gadelha. Miúcha foi logo perguntando: 

- O Albino está? 

Do outro lado da linha, Glorinha, ciosa de sua função de fiel escudeira do marido, não se conteve diante de tamanha falta de respeito. 

- Olha aqui, albino é puta que lhe pariu! 

Miúcha custou a “cair a ficha”. 

*Sivuca é albino. 

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Reclamando por reclamar 

No começo de 1981, foi programado um show na série Seis e Meia do Teatro João Caetano, reunindo Radamés Gnattali, a Camerata Carioca e a grande cantora Zezé Gonzaga, chamada na Rádio Nacional de “a cantora dos maestros”. 

Num dos dias da temporada, tendo chegado cedo como sempre, Radamés foi ao camarim da cantora e ficou impressionado. Flores, cartões, tudo arrumadinho e perfumado

Radamés sentou-se e foi logo reclamando:

 - Este camarim é muito melhor do que o meu, com aquele monte de homem. 

Zezé continuou se maquiando sem responder. Radamés voltou à carga: 

- Fizeram a reforma deste teatro, mas o piano continua a mesma merda... 

E a Zezé continuava sem responder. Não tendo mais nada sobre o que reclamar, Radamés apelou: 

- E você, Zezé, vai ser afinada assim na puta que a pariu! 

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Esporro eficiente 

Se existe algo que irrita a todos os artistas é gente falando enquanto se toca ou se canta. Pode-se dizer que o problema atinge a todos os estilos e só o pessoal do pop não sofre tanto, porque o som é tão alto que não se escuta a plateia. 

Numa boate ou casa noturna, em geral o problema se agrava com a presença de bêbados (chamá-los de inconvenientes seria pleonasmo). 

A mais saborosa história sobre o assunto ocorreu com Aracy de Almeida, quando fazia um show em são Paulo no ano de 1960. Ao se preparar para entrar no palco, Aracy percebeu que duas “peruas” falavam sem parar na primeira mesa. Ainda com esperanças de elas pararem ao começar o show, mandou o conjunto atacar. Com a concorrência de outro som, as duas passaram a falar ainda mais alto. Aracy entrou no palco já contrariada quando, de repente, ouviu uma “perua” dizer para a outra: 

- Nossa! Como a Aracy tá velha! 

A cantora mandou o conjunto parar, pediu que acendessem as luzes e foi dizendo sem dó nem piedade: 

- Eu tô velha, mas sou a Aracy de Almeida. E você quem é, sua filha da puta! 

Aracy saiu do palco sob aplausos e gargalhadas. Voltou meia hora depois e cantou para o público mais silencioso de toda a sua carreira. 

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Jovelina Pérola Negra 

O ano de 1986 revelou a figura da partideira Jovelina Pérola Negra. 

Acostumada a fazer show em quadras de clubes e escolas de samba, onde o pagamento é feito em espécie antes da apresentação, Jovelina estranhou que ninguém falasse em dinheiro antes de seu primeiro show em teatro. Tratava-se de uma espécie de temporada de revezamento dos pagodeiros emergentes, em um teatro de Bonsucesso, subúrbio do Rio. 

Depois de cantar, chamou o produtor da série a seu camarim e perguntou pelo “faz-me rir”. O rapaz, não entendendo direito o que ocorria, avisou que as contas seriam fechadas ao final da temporada. Diante da cara de contrariedade de Jovelina, resolveu oferecer alguma coisa: 

- Se a senhora precisar, nós lhe adiantamos algum e botamos no seu borderô. 

Jovelina se contrariou mais ainda, e olhando fixamente para o produtor, com o dedo em riste, advertiu: 

- Olha aqui, ô rapaz, no meu borderô nem meu marido bota. 

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Do livro “Suíte Gargalhadas”,

Cento e tantas histórias engraçadas sobre música e músicos

de Henrique Cazes – José Olympio Editora)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Aos que não gostam de ler

 Escrito por Rubem Alves 

Existem três tipos de pessoas no mundo: 

- As que deixam acontecer;

- As que fazem acontecer;

- As que perguntam o que aconteceu. 

7 de janeiro - dia do leitor.

Nada tenho a dizer aos que gostam de ler. Eles já sabem. Mas tenho a dizer a quem não gosta. Pena que, por não gostar de ler, é provável que não leia isto: “Você não sabe o que está perdendo.” 

Ler é uma das maiores fontes de alegria. Claro, há livros chatos. Não leia. O escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que, se há tantos livros deliciosos, por que gastar tempo lendo um que não dá prazer? Na leitura, fazemos turismo sem sair de casa, gastando menos dinheiro e sem correr riscos. 

O Sho-gun me levou pelo Japão do século 16, em meio a ferozes samurais e sutilezas do amor oriental. Cem Anos de Solidão, que reli faz meses, me produziu espantos e ataques de riso. Achei que Gabriel García Márquez deveria estar sob efeito de alucinógeno. 

Lendo, você experimenta seu mundo fantástico sem precisar de “aditivos”. É isso: quem lê não precisa de alucinógeno. Nunca tinha pensado nisso. A poesia do Alberto Caeiro me ensina a ver, me faz criança e fico parecido com árvores e regatos. Agora, essa maravilha de delicadeza e pureza, do Gabriel velho, com dores no peito e medo de morrer: Memórias de Minhas Putas Tristes. Li, ri, me comovi, fiquei leve e fiquei triste de o ter lido, porque agora não poderei ter o prazer de lê-lo pela primeira vez. Pena que você, não-leitor, seja castrado para os prazeres que moram nos livros. 

Mas, se quiser, tem remédio. 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Manias

Flávio Cavalcanti e Celso Cavalcanti

Dolores Duran lançou em 1955 a única composição do famoso apresentador Flávio Cavalcanti que fez sucesso. O samba-canção diz que amar alguém é uma das muitas manias que se pode ter.

Entre as manias que eu tenho
uma é gostar de você.
Mania é coisa que a gente
tem mas não sabe por quê.
 

Mania de querer bem,
às vezes, de falar mal.
Mania de só deitar
sem antes ler o jornal.
 

De só entrar no chuveiro
cantando a mesma canção.
De só pedir o cinzeiro
depois da cinza no chão.
 

Eu tenho várias manias,
delas não faço segredo.
Quem pode ver tinta fresca
sem logo passar o dedo.

 De contar sempre aumentado

tudo o que viu e que fez.

De guardar fósforo usado

dentro da caixa outra vez. 

Mania é coisa que a gente

tem mas não saber por quê.

Entre as manias que eu tenho

uma é gostar de você.

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Dolores Duran lançou em 1955 a única composição do famoso apresentador Flávio Cavalcanti que fez sucesso. O samba-canção diz que amar alguém é uma das muitas manias que se pode ter. Joaquim Ferreira dos Santos conta no programa Ouve Essa. A música está na íntegra no site da Rádio Batuta.

Vou pra casa da vovó

  

Chega de tanta injustiça
de castigo e confusão!
Vou pra casa da vovó,
não tem outra solução!
 

Estou mesmo decidido
e pra sempre eu me mudo.
Aqui eu não posso nada
e por lá eu posso tudo!

Posso comer chocolate,
posso até me empanturrar.
Posso comer sobremesa
até antes do jantar.

Mesmo que eu faça bagunça,
vovó não briga comigo.
Se eu beliscar o irmãozinho,
vovó não me põe de castigo!

Vou fazer a minha mala,
meu carrinho eu vou levar.
Vou levar o meu cachorro
e o meu jogo de armar.

Vou levar meu travesseiro,
levo também meu pião,
pego os meus livros de história
e o meu time de botão.

Levo as coisas que eu gosto,
pra ter tudo sempre à mão:
levo também o papai,
a mamãe e o meu irmão!

Autora: Ana Canéo

Chico Buarque do Brasil.

 Que orgulho!

Chico Buarque pelo caricaturista Quinho 

“Meu caro Chico, desde que você chamou a gente pra ver a banda passar, quanta gente passou pelas suas canções! 

A Rita, a Rosa, a Geni, a Morena de Angola, as Mulheres de Atenas, Angélica, Beatriz, Bárbara, Carolina, Cecília, Iracema, Iolanda, Lígia, Joana Francesa, João e Maria, Teresinha, não sei se estão todas... 

Paratodos, canções sob medida que você cantou de todas as maneiras – ora com açúcar, com afeto, ora com desalento, ora sem fantasia. 

Não houve “cálice” que o calasse. 

Ah, as piruetas que você deu na censura, num tempo, aquele, página infeliz da nossa história! 

Não faz muito tempo, a roda-viva do destino pôs no seu caminho uma gente nada humilde que o insultou de maneira covarde. 

Foi a gota d'água. Nem mil perdões absolvem essa gente. Mas você nem injuriado ficou com o estorvo, como quem dissesse : ‛Apesar de você, amanhã há de ser outro dia’; como quem soubesse: ‛Vai passar! Afinal, não existe pecado ao sul do Equador’. 

Trocando em miúdos, você está no cotidiano de um mundo de gente. E a gente vai levando você no peito feito tatuagem. 

E você, artista de tantas palavras, tanto as da música quanto as do teatro e da literatura, merece um eu-te-amo com todo o sentimento! Assim até o fim! 

Deus lhe pague, Chico, por essa construção mais que perfeita!” 

(José Rúbio)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

A grutinha do prazer

 Moacyr Scliar

Os índios têm uma curiosa armadilha para pegar peixes. É uma espécie de gaiola, com um orifício orientado de tal maneira que o peixe pode entrar, ainda que com dificuldade, mas não pode sair. O mundo da palavra escrita é assim, entrar é difícil; diferente da imagem e da voz na TV, diferente da voz do rádio, a letra é um símbolo. Precisa ser decodificada, o que não raro causa frustração. Observe um garoto recém-alfabetizado lendo anúncios num automóvel andando, ou assistindo a filme legendado: mal ele consegue decifrar as primeiras sílabas, pronto, lá se foi a mensagem. Mas essa dificuldade inicial é compensada pela sensação de poder que ela se segue. Depois que você aprendeu a ler, você é um iniciado. Você passa a fazer parte de uma confraria, cujos membros, na maior parte das vezes, nem se conhecem. Porque esse é outro aspecto peculiar no hábito de ler; é difícil compartilhá-lo. As pessoas que estão numa biblioteca diferente dos espectadores de um cinema, não estão sintonizados no mesmo canal emocional. Ler é um vício solitário. 

Fui um leitor voraz. Devo à minha mãe, que era professora e uma notável alimentadora, motivo pelo qual se sentia obrigada a nutrir duplamente ‒ material e espiritualmente ‒ o seu filho. E contente ficou quando descobriu que, distraído pela leitura, eu devorava um sanduíche sem perceber. Livros e sanduíches foram assim desaparecendo no que era um sumidouro inesgotável. 

Havia também os livros que líamos no colégio. Mas o que fazia maior sucesso entre os alunos era um grosso volume, do qual não me lembro nem o título, nem o autor, nem o assunto, nada. Só lembro que era um livro já amarelado, com as páginas gastas; alguém o trazia para as aulas de educação física. Desta obra recordo de uma passagem ‒ e por ela se pode definir o tema dominante ‒ que falava da grutinha do prazer da heroína. 

A grutinha do prazer. Até hoje esta imagem me persegue, não por seu refinamento ‒ está mais para o grotesco do que para o literário ‒ mas pela conotação de sensual mistério. A grutinha do prazer. Equivalente erótico da caverna de Ali-Babá, que abre-te sésamo nos permitiria nela penetrar? 

A leitura, sem dívida. A leitura, este vício solitário, que permite à imaginação amar as mais belas princesas e chegar às mais longínquas regiões do pensamento. Um filme poderia ser mais realista; mas um filme não incendiaria a imaginação como faz esta simples expressão, “grutinha do prazer”. 

O livro é a grutinha do prazer, é a casa do afeto, é o templo da sabedoria, é o palácio da emoção. O livro é muito a vida, assim como a vida e muito os livros que lemos. É que recordamos com saudades e prazer, quando retornamos ao esconderijo de nossos secretos prazeres. 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Amigo da Onça

 

Este personagem, criado pelo cartunista Péricles, foi, sem dúvida nenhuma, o mais popular do Brasil em todos os tempos. 

As pessoas compravam O CRUZEIRO, a maior revista em circulação que já houve no Brasil, e iam direto à página do Amigo da Onça. Os donos das bancas de revista penduravam bem alto um exemplar O CRUZEIRO e escondiam o resto para que as pessoas não ficassem folheando atrás da sacanagem semanal que o Amigo da Onça faria com alguém. 

Qual a razão deste sucesso estrondoso, desta popularidade quase unânime? 

Nelson Rodrigues diria que o brasileiro ama os cafajestes. Sim, porque o amigo da onça era um cafajeste dos cabelos englostorizados aos sapatos de bico fino, passando pelo imenso blazer branco trespassado e o bigodinho fino. Não levava livre parentes e amigos, sacaneava todo mundo. 

Qual a razão desta simpatia popular por um canalha? Uma das razões: todo mundo conhece um amigo da onça. Não há no território nacional quem não tenha sido sacaneado por alguém assim. Isto é um fator, mas não o maior. O brasileiro adora ver os outros serem logrados, enganados, ludibriados e colocados em situações embaraçosas. Os outros, não eles. 

Assim, cada um com seus motivos, malandros, otários, pacatos pais de família, mães extremadas e até avós, toda a semana riam com os logros do personagem que sempre apontava alguma, ou levava alguém, com artimanhas, a inadvertidamente, aventurar-se na jaula de um leão, ou se colocar no caminho de um lotação homicida. 

Péricles conhecia bem a alma dos brasileiros. Suicidou-se. Talvez por isto. 

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Péricles de Andrade Maranhão (Recife, 14 de agosto de 1924 – Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 1961) foi um cartunista brasileiro de grande sucesso nos anos 1940 e 1950. 

Criado em Pernambuco, em 1942 Péricles mudou-se para o Rio de Janeiro, onde começou sua carreira nos veículos dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand com As aventuras de Oliveira, o Trapalhão, publicadas na revista A Cigarra, também publicado como tira na revista O Guri. 

Em outubro de 1943 a revista O Cruzeiro começou a publicar as histórias do Amigo da Onça, que se transformaria em um dos personagens mais populares do país, criado a pedido de Leão Gondim, editor da revista O Cruzeiro, inspirado nos cartoons Enemies of Man da revista americana Esquire e El enemigo del Hombre, personagem criado por Guillermo Divito para a revista argentina Patoruzú, seu nome veio de uma anedota: 

Dois caçadores conversam em seu acampamento: 

‒ O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?

‒ Ora, dava um tiro nela.

‒ Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?

‒ Bom, então eu matava ela com meu facão.

‒ E se você estivesse sem o facão?

‒ Apanhava um pedaço de pau.

‒ E se não tivesse nenhum pedaço de pau?

‒ Subiria na árvore mais próxima!

‒ E se não tivesse nenhuma árvore?

‒ Sairia correndo.

‒ E se você estivesse paralisado pelo medo? 

Então, o outro, já irritado, retruca:

‒ Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

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Dono de uma personalidade atormentada, o sucesso fez com que o cartunista passasse a odiar sua criação, pois era sempre citado como “O criador do Amigo da Onça”. Apesar disso, continuou ilustrando suas histórias semanalmente, por 17 anos ininterruptos. 

Morreu na noite de domingo, 31 de dezembro de 1961, véspera de ano novo de 1961 para 1962, em seu apartamento no Rio de Janeiro, abrindo o gás, mas, antes, fixou na porta um cartaz onde se lia: “não risquem fósforos”. O cartunista cometeu suicídio aos 37 anos.  Com isso ele queria matar o Amigo da Onça porque, se fosse o personagem, o bilhete diria: “ao abrir, risque um fósforo” para explodir tudo. 

Sobre ele, escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade: “A solidão do caricaturista seria talvez reação contra a personagem, que o perseguia, que lhe era necessária e que lhe travara os meios de comunicar-se e comungar com outros seres”.

Pequenos grandes textos

 A cura contra o infortúnio

Certa vez, uma mãe jovem e bela viu adoecer e definhar seu filhinho.  A mãe enlouqueceu. Apertou ao peito o filho morto e saiu de casa em casa, pedindo um remédio que lhe restituísse a vida. Um monge, tomado de piedade, disse-lhe: “Minha pobre filha, eu não tenho o remédio; mas sei de alguém que o tem. É o Buda.” 

Correu ao Gautama. “Sim, conheço o remédio eficaz, disse ele. É a semente da mostarda.” Mas quando a mulher já se regozijava por ser o remédio tão comum, o profeta continuou: “Tens de obtê-lo numa casa onde nunca haja morrido nenhum filho, marido, pai, ou escravo.” A jovem mãe partiu a procura do remédio.  As pessoas se mostravam solícitas em dar-lhe a semente pedida.  Mas a mulher perguntava: “Esta casa nunca foi atingida pela morte de nenhum filho marido ou escravo?” Respondiam-lhe tristemente: “Tal casa não existe. Os mortos são muitos; os vivos, poucos.” Então, mergulhada em profunda dor, foi à floresta e enterrou a criança. 

Quando voltou para junto do Gautama, este perguntou: “Encontraste a semente da mostarda?” A mulher respondeu: “Não, meu mestre, mas encontrei a cura. Sepultei a minha dor na floresta.  E agora estou pronta para seguir-te em paz.” 

O rei e o camponês 

Um rei passou um dia por um camponês que, apesar de bem velho, plantava tamareiras.  Disse-lhe o rei: “Ó velho, esperas mesmo comer do fruto desta árvore, que leva anos para dar a primeira colheita?” Respondeu o camponês: “Majestade, nós comemos do que outros plantaram. E plantamos para que outros comam.” O soberano gostou da resposta e premiou o camponês com 1000 dinares.  O camponês aceitou o dinheiro e disse: “Admirável a rapidez com que estas tamareiras deram a sua primeira colheita!” O rei deu-lhe outros 1000 dinares.  E o camponês disse: “E o mais admirável é que elas produziram duas colheitas num só ano. O rei deu-lhe outros 1000 dinares e foi-se embora. 

(Al-Atlidi) 

Dois senhores 

Um dia, falaram de um certo santo a um rei, e este o procurou e pediu-lhe que fosse viver na corte e fazer-lhe companhia.  “É um convite muito agradável” respondeu o santo, “mas suponhamos que entreis um dia no palácio e me encontreis abusando de vossa filha, que faríeis?” 

O rei encolerizou-se e gritou: “Oh, miserável, tu me insultas até ao dizeres semelhante coisa!” 

E o santo respondeu: “Eu já tenho um generoso Senhor. Quando ele me vê cometer setenta ofensas, não me hostiliza, não me repele, não me recusa o pão de cada dia. Por que eu deixaria sua corte para viver na corte de um rei que se enfurece contra mim antes que eu tenha cometido uma só ofensa?” Então, deixou o rei e foi-se embora. 

(Al-Kaliubi)


domingo, 24 de maio de 2026

O quase craque de bola

 História verídica.

Tenho muitos amigos de testemunhas:

Quando eu jogava bola, eu me movimentava por todo o campo com muita facilidade, tanto pelo meio quanto pelas pontas. Deslocava-me por todos os lados, estava sempre no lugar certo, tinha uma tremenda visão de jogo, estava sempre desmarcado, e na cara do goleiro. Jogava de cabeça erguida, enxergava quem estava se deslocando no espaço vazio e quem queria receber a bola, reclamava do juiz, cobrava empenho dos companheiros. Olhava com cara feia para quem vaiasse os jogadores. Tinha um enorme espírito de equipe. O meu uniforme estava sempre limpinho. Mas, de tanto correr em campo, assim que terminava o jogo, eu estava sempre muito suado e terrivelmente cansado. 

No vestiário, desabava de tão exausto que estava. Era sempre o primeiro a pedir massagem e água. Porra, eu corria pra caramba! 

Com tantas qualidades, eu só tinha em campo um único defeito: me atrapalhava todo quando pegava na bola. Se não fosse a bola, hoje eu seria um craque. Creio até que muito melhor que o Ronaldinho Gaúcho. 

Maldita bola! Quem foi o safado que inventou essa merda? E ainda mais redonda! 

Se pelo menos ela fosse quadrada... 

P.S. Parei de jogar por problemas nas pernas. Um médico falou que eu tinha “Wooden Leg”. Como não sei inglês, não fiquei sabendo o que eu tinha realmente. O gozado é que ele não me receitou nenhum remédio, ele mandou que eu apenas passasse Jimo Cupim nas pernas que, talvez, eu melhorasse em um pouco.

(A bola, essa ingrata!)

De um quase craque.

Resumo de alguns escritores brasileiros modernos

 

João Guimarães Rosa 

“Sagarana” (contos), “Grande Sertão Veredas” (romance) 

● linguagem revolucionária 

● a linguagem do sertão mineiro 

● a luta do bem X mal 

● a presença da consciência mítica, mágica 

Clarice Lispector 

“Perto do coração selvagem”, “O lustre”, “Laços de Família”, “A paixão segundo G.H.” 

● narrativa intimista 

● ficção introspectiva 

● crise do universo feminino tradicional 

● domínio do monólogo interior 

José Cândido de Carvalho 

“O Coronel e o Lobisomem” 

● a revelação de um mundo arcaico 

Josué Guimarães 

“A ferro e a fogo” 

● ênfase no romance histórico 

● o romance da imigração alemã no Sul 

Antônio Callado 

“Quarup” 

● painel do Brasil nas décadas de 50 e 60 

● o padre que perde a vocação religiosa e torna-se guerrilheiro 

Dalton Trevisan 

“Novelas nada exemplares”, “A guerra conjugal” 

● contos sobre a violência do cotidiano curitibano 

● estilo que usa os lugares-comuns da linguagem urbana 

Rubem Fonseca 

“Feliz Ano Novo”, “O cobrador” 

● a luta de classes nas cidade brasileiras 

● a linguagem adaptada a cada grupo social representado nos contos e romances 

Lygia Fagundes Telles 

“As meninas” 

● intimismo mesclado com questões políticas 

● a questão feminina no mundo patriarcalista 

José J. Veiga 

■ “A hora dos ruminantes”, “Sombra dos reis barbudos” 

● narrativas alegóricas 

● pequenas cidades à mercê de forças obscuras e não delimitadas 

João Antônio 

“Malagueta, Perus e Bacanaço” 

● registro dos marginais e malandros tristes das metrópoles brasileiras 

Moacyr Scliar 

“O Exército de um Homem Só” 

● humor e revelação dos imigrantes judeus 

Márcio Souza 

“Galvez, o Imperador do Acre” 

● paródia sobre o mundo amazonense 

sábado, 23 de maio de 2026

O amor é isso

 (Condensado de um conto de Leon Tolstoi)

Em certa cidade morava um sapateiro, chamado Martin Avdéich. Tinha um quartinho num porão, com uma janela que dava para a rua. Por ela, ele só podia ver os pés de quem passava, mas Martin reconhecia muitas pessoas pelas botinas que consertara. Tinha muito serviço, pois trabalhava bem, usava material de boa qualidade e não cobrava caro. 

Anos antes, sua mulher e seus filhos haviam morrido, e o desespero de Martin fora tão grande que ele chegara a exprobrar a Deus. Então um dia apareceu um velho da aldeia natal de Martin, que se tornara peregrino e homem santo. Martin desabafou com ele. 

“Já não tenho desejo de viver”, disse ele. “Já não tenho esperanças.” O velho respondeu: “Você está desesperado porque deseja viver para sua própria felicidade. Leia os Evangelhos: lá verá como Deus gostaria que você vivesse.” 

Martin comprou uma Bíblia. A princípio, só pretendia ler nos dias santos, mas, depois que começou, seu coração ficou tão leve que ele leu todos os dias. 

Foi assim que uma noite, bem tarde, no Evangelho de São Lucas, Martin chegou ao trecho em que um fariseu rico convidou o Senhor para ir à sua casa. Uma mulher, que era pecadora, chegou e ungiu os pés do Senhor e os lavou com suas lágrimas. Disse o Senhor ao fariseu: 

Vês esta mulher? Entrei em tua casa, não me deste água para os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou os meus pés, e os enxugou com seus cabelos... Não ungiste a minha cabeça com bálsamo: e esta com bálsamo ungiu os meus pés.” (Lucas 7:44-46.) 

Martin ficou pensando. “Ele deve ter sido parecido comigo, aquele fariseu. Se o Senhor viesse ter comigo, eu procederia assim?” Depois deitou a cabeça sobre os braços e adormeceu. 

De repente, ouviu uma voz e acordou sobressaltado. Não havia ninguém ali, mas ele ouviu claramente: “Martin! Olha para a rua amanhã, pois Eu virei.” 

Na manhã seguinte, Martin levantou-se antes do raiar do dia, acendeu o fogo e preparou sua sopa de repolho e seu mingau. Depois vestiu o avental e sentou-se junto à janela, para trabalhar. Pensando na noite da véspera, olhava mais para a rua do que trabalhava. Sempre que passava alguém com botinas desconhecidas, ele olhava para cima, para ver o rosto. Passou um porteiro de casa, depois um carregador de água. Dali a pouco um velho chamado Stepánich, que trabalhava para um comerciante vizinho, começou a limpar a neve defronte da janela de Martin. Este olhou para ele e continuou a trabalhar. 

Depois de ter dado uma dúzia de pontos, tornou a olhar para fora. Stepánich tinha encostado a pá na parede e ou estava descansando, ou procurando aquecer-se. Martin foi até a porta e chamou-o “Entre”, disse ele, “e se aqueça um pouco. Deve estar com frio.” 

“Deus te abençoe!“ respondeu Stepánich, e entrou, sacudindo a neve e limpando os pés. Nisto, cambaleou e quase caiu. 

“Não se incomode”, disse Martin. “Sente-se e tome um pouco de chá.” 

Enchendo dois copos, ele passou um ao seu visitante. Stepánich esvaziou o copo, dando sinais evidentes de que gostaria de tomar mais. Martin tornou a encher o copo. Enquanto bebiam, Martin ficou olhando para a rua. “Está esperando alguém?” perguntou o visitante. 

“Ontem à noite”, respondeu Martin, “estava lendo que Cristo foi à casa de um fariseu que não o recebeu com as devidas homenagens. Suponhamos que uma coisa dessas acontecesse comigo? O que eu não faria para recebê-Lo! Então, enquanto dormia, ouvi alguém cochichando: ‘Olha para a rua amanhã, pois eu virei’.” 

Quando Stepánich ouviu aquilo, as lágrimas começaram a escorrer por suas faces. “Obrigado, Martin Avdéich. Você me reconfortou, na alma e no corpo.” 

Stepánich foi embora, e Martin sentou-se para costurar uma botina. Quando olhou pela janela, uma mulher de sapatos de camponesa passou e parou junto da parede. Martin viu que ela estava vestida com roupas pobres, e tinha um bebê no colo. De costas para o vento, ela procurava agasalhar o bebê junto do corpo, embora vestisse apenas roupas leves e surradas. Martin saiu e os convidou a entrar. 

Ofereceu-lhe pão e sopa. “Vá, coma, minha cara, e aqueça-se bem”, disse ele. 

Enquanto comia, a mulher lhe contou quem era. “Sou mulher de soldado. Mandaram meu marido para longe, há oito meses, e não tive mais notícias dele. Não consegui arranjar trabalho e fui obrigada a vender tudo o que possuía para comprar comida. Ontem empenhei o meu último xale.” 

Martin foi buscar um casaco velho. “Tome”, disse ele. “Está surrado, mas serve para embrulhar o bebê.” A mulher pegou o casaco e rompeu em prantos. “O Senhor o abençoe.” 

Martin sorriu e contou a ela sobre seu sonho e a visita prometida. “Quem sabe? Tudo é possível”, disse a mulher. Ela se levantou e embrulhou o casaco em volta de si e do bebê. “Tome isto”, disse Martin, dando-lhe dinheiro para tirar o xale do penhor. Depois a acompanhou até a porta

Martin tornou a sentar-se para trabalhar. Cada vez que aparecia uma sombra na janela, ele olhava para cima, para ver quem estava passando. Depois de algum tempo, viu uma mulher vendendo maçãs numa cesta. Às costas, tinha um saco pesado, que ela queria mudar de posição. Quando ela pôs a cesta junto de um poste, um menino com um boné esfarrapado pegou uma maçã e tentou fugir, mas a mulher agarrou-o pelos cabelos. O garoto gritou, e a mulher ralhou com ele. 

Martin correu para a rua. A mulher estava ameaçando levar o menino à polícia. “Deixe-o ir, vovó”, disse Martin. “Perdoe o menino, pelo amor de Cristo.” A velha largou o garoto. “Peça perdão à vovó”, sugeriu Martin ao menino. 

O menino começou a chorar e a pedir perdão. Martin pegou uma maçã da cesta e a deu ao menino, dizendo: “Eu lhe pago, vovó.” 

“Esse capeta devia levar uma surra”, resmungou a velha. “Ah, vovó”, disse Martin, “se ele devia ser surrado por roubar uma maçã, que é que nos deveria acontecer, pelos nossos pecados? Deus manda que perdoemos, do contrário não seremos perdoados. Devemos sobretudo perdoar a um menino irresponsável.” 

“Isso é bem verdade”, concordou a velha, “mas é que eles estão ficando levados da breca.” 

Quando ela ia levantar o saco para as costas, o garoto deu um salto à frente. “Deixe que eu carregue para a senhora, vovó. Vou na mesma direção.” 

Ela pôs o saco nas costas do menino e eles foram andando juntos pela rua. 

Martin voltou ao trabalho. Dali a pouco, já não conseguia ver e não podia passar a agulha pelos furos no couro; então juntou suas ferramentas, varreu o chão e colocou um lampião na mesa. Depois pegou a Bíblia da prateleira. 

Pretendia abrir o livro num lugar que tinha marcado, mas ele se abriu em outra página. Então, ouvindo passos, ele olhou em volta. Uma voz sussurrou em seu ouvido: “Martin, você não me conhece?” 

“Quem é?” murmurou Martin. “Sou eu”, disse a voz – e, de um canto escuro do quarto, apareceu Stepánich, que sorriu e, desaparecendo como uma nuvem, não mais foi visto. 

“Sou eu”, tornou a dizer a voz – e apareceu a mulher com o bebê ao colo. Ela sorriu, o bebê riu-se, e eles também desapareceram. 

“Sou eu”, disse a voz, ainda uma vez. A velha e o menino com maçã apareceram, sorriram e desapareceram. 

A alma de Martin alegrou-se. Ele começou a ler o Evangelho, onde estava aberto. No alto da página, dizia: 

Por que tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era hóspede, e me recolhestes. (Mateus, 25:35.) 

No fim da página, ele leu: 

Quantas vezes vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fizestes. (Mateus 25:40.) 

E Martin compreendeu que o Salvador na verdade tinha ido a ele naquele dia, e ele o recebera bem.

A Mulher

 

Examina bem a consciência, e diz-me qual é para os corações puros e nobres o motivo imenso, irresistível das ambições de poder, de abastança, de renome? É um só – a mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos. 

Para o que encontrou na terra aquela que deve amar para sempre, aquela que é a realidade do tipo ideal, que desde o berço trouxe estampada na alma a mira das mais exaltadas paixões, é a auréola celestial que cinge a fronte da virgem, ídolo das suas adorações. 

Para o que anda, por assim dizer, perdido nas solidões do mundo, porque ainda não descobriu a estrela polar da sua existência, o astro que há de iluminar a noite do coração, como o sol com os seus primeiros raios ilumina as trevas de um templo – para este, a mulher é uma ideia vaga e confusa, mas brilhante, formosa e querida. Não a conhece, não sabe onde esteja a imagem visível da filha de sua imaginação, e, todavia, é para lhe por aos pés, glória, poderio, riqueza, que ele cobiça tudo isso. 

Tirai do mundo a mulher e a ambição desaparecerá de todas as almas generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da atividade interior; é a causa e o fim e o resumo de todos os humanos afetos. 

(Alexandre Herculano) 

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo – 1810 – 1877. 

Poeta (Tristezas do Desterro, 1838) e romancista (Eurico, o Presbítero, 1844), teve a paixão da reconstituição histórica, elevando os estudos de História à sua consideração científica. 

É um dos grandes escritores da geração romântica, desenvolvendo os temas da incompatibilidade do homem com o meio social e experienciando a dimensão ética do escritor face à incompreensão do mundo.

Um poema de Bob Dylan

 

Venham, mestres da guerra.

Vocês que forjam canhões como se fossem brinquedos.

Vocês que desenham aviões que vomitam fogo sobre inocentes.

Vocês que criam bombas como se fossem poemas  frios, calculados, assassinos.

Vocês que nunca sujam as mãos, mas lavam a consciência em cifras.

Que se escondem atrás de paredes grossas, de gravatas bem passadas, de sorrisos em reuniões sombrias.

Acreditem, eu vejo através das vossas máscaras.

Vejo o vazio nos vossos olhos.

Vejo a fome de poder disfarçada de patriotismo.

Deixem-me perguntar algo simples:

O vosso dinheiro é assim tão puro?

Pode comprar perdão no fim da linha?

Pode silenciar o grito das crianças soterradas?

Pode pagar o preço da alma de um mundo dilacerado?

Quando a morte bater à tua porta, não virá com fanfarra ‒

Virá com as vozes dos que morreram por tuas mãos.

E aí, descobrirás:

Todo o ouro que acumulaste,

Todo o sangue que derramaste,

Não comprará o silêncio eterno.

Não comprará paz.

E, acima de tudo…

Não comprará a tua alma de volta. 

Bob Dylan

Bob Dylan (24 de maio de 1941), nascido Robert Allen Zimmerman é um cantor, compositor, escritor, ator, pintor e artista visual norte-americano, e uma importante figura na cultura popular há mais de sessenta anos.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O retrato de Jesus

 

“Sabendo que desejais conhecer quanto vou narrar-vos, escrevo-vos esta carta. Nestes tempos apareceu um homem na Judeia um homem de virtudes singulares, que se chama Jesus e que pelo povo é chamado de “O Grande Profeta”. Seus discípulos dizem ser ele o “Filho de Deus”. Em verdade, ó César, cada dia dele se contam raros prodígios: ressuscita os mortos, cura todas as enfermidades e tem assombrado Jerusalém com sua extraordinária doutrina. É de estatura elevada e nobre, e há tanta majestade em seu rosto que aqueles que o veem são levados a amá-lo ou a temê-lo. Tem os cabelos cor de amêndoa madura, separados ao meio, os quais descem ondulados sobre os ombros, ao estilo dos nazarenos. Tem fronte larga e aspecto sereno. Sua pele é límpida e corada: o nariz e a boca são de admirável simetria. A barba é espessa e tem a mesma cor dos cabelos. Suas mãos são finas e longas e seus braços de uma graça harmoniosa. Seus olhos são plácidos e brilhantes, e o que surpreende é que resplendem no seu rosto como raios de sol, de modo que ninguém pode olhar fixo o seu semblante, pois quando refulge, faz temer, e quando ameniza, faz chorar. É alegre e grave ao mesmo tempo. É sóbrio e comedido em seus discursos. Condenando e repreendendo, é terrível; instruindo e exortando, sua palavra é doce e acariciadora. Ninguém o tem visto chorar. Anda com os pés descalços e com a cabeça descoberta. Há quem o despreze vendo-o à distância, mas estando em sua presença não há quem não estremeça com profundo respeito. Dizem que este Jesus nunca fez mal a ninguém, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm andado afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, afirma-se que um homem como esse nunca foi visto por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, nunca se viram tão sábios conselhos e tão belas doutrinas. Há, todavia, os que o acusam de ser contra a lei de Vossa Majestade, porquanto afirma que reis e escravos são iguais perante Deus. Vale, da Majestade Vossa, fidelíssimo e obrigadíssimo.” 

(assinado) 

Públio Lêntulo, Presidente da Judeia.

Creio...

 Mahatma Gandhi

“Creio em mim mesmo;

creio nos que trabalham comigo;

creio nos meus amigos;

creio na minha família;

creio que Deus me emprestará tudo

que necessito para triunfar,

contanto que eu me esforce para alcançar

com meios lícitos e honestos;

creio nas orações

e nunca fecharei meus olhos para dormir,

sem pedir antes a divina orientação

a fim de ser paciente com os outros

e tolerante com os que não acreditam

como eu acredito;

creio que o triunfo é resultado de esforço inteligente,

que não depende de sorte, de magia, de amigos,

companheiros duvidosos ou de meu chefe;

creio que tirarei da vida exatamente o que nela colocar.

E assim sendo, serei cauteloso quando tratar os outros,

como quero que eles sejam comigo.

Não caluniarei aqueles que não gosto;

não diminuirei meu trabalho,

por ver que os outros o fazem;

prestarei o melhor serviço do que sou capaz,

porque jurei a mim mesmo triunfar na vida

e sei que o triunfo é sempre resultado do esforço consciente e eficaz.

Finalmente, perdoarei os que me ofendem

porque compreendo que às vezes ofendo os outros

e necessito do seu perdão.”

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Mohandas Karamchand Gandhi  (Porbandar, Índia, 2 de outubro de 1869 ‒ Nova Deli, Índia, 30 de janeiro de 1948), mais conhecido como Mahatma Gandhi (“Venerável Gandhi” sendo Mahatma um título), foi um advogado, estadista, líder espiritual e ativista indiano. Considerado também um líder religioso, além de nacionalista, anticolonialista  e especialista em ética política indiana. Ficou conhecido por ter empregado a resistência noa violenta para liderar a campanha bem-sucedida pela independência da Índia do Reino Unido e, por sua vez, por inspirar movimentos pelos direitos civis e pela liberdade em todo o mundo. O título honorífico Mahatma (do sânscrito: “de grande alma”, “venerável”), aplicado-lhe pela primeira vez em 1914 na África do Sul, é agora usado em todo o mundo. O aniversário de Gandhi, 2 de outubro, é comemorado na Índia como Gandhi Jayanti, um feriado nacional e em todo o mundo como o Dia Internacional da Não Violência. 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Teste de Atenção

 

Para aplicar aos alunos no primeiro dia de aula: 

Seguir instruções 

01.           Leia todo o texto antes de executar qualquer tarefa. 

02.           Trace um círculo em torno da palavra tarefa do item 01. 

03.           Desenhe dois círculos no canto esquerdo superior. 

04.           Sublinhe a palavra Círculo que aparece no item 02. 

05.           EM VOZ ALTA enuncie, levantando-se da cadeira, o seu nome. 

06.           Registre o seu nome no canto superior direito. 

07.           Conte de 05 a zero, também EM VOZ ALTA. 

08.           Anote a sua data de nascimento ao pé desta folha. 

09.           Bata palmas, bem forte, três vezes. 

10.           Anuncie, pausadamente e EM VOZ ALTA: 

- Sou inteligente, pois segui as instruções!

 

 

 

 

 

 

  

11.  Agora que você leu com atenção todo o texto, faça apenas o seguinte: 

Registre a data de hoje na linha abaixo. 

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