domingo, 31 de maio de 2026

O teste da ausência

 J.J. Camargo 

“A solidão não é falta de gente,

é falta de sintonia com quem está por perto.”

(Clarice Lispector)

Existe uma diferença abissal entre a solitude ‒ que é a escolha pacífica de estar consigo mesmo ‒ e a solidão, que é o isolamento imposto pelo descarte social. Esta última transformou-se na verdadeira pandemia do nosso século, alimentada por um paradoxo perverso: a combinação de longevidade com a perda da utilidade. Ganhamos tempo de vida e não sabemos o que fazer com ele. 

Hoje, a solidão é a doença mais grave e de mais difícil solução, porque há um grande desequilíbrio social agravado pela conquista da longevidade despida de propósito. A extensão da vida, sem um objetivo que a sustente, traz como subproduto uma legião de velhos funcionalmente inúteis que, na lógica utilitarista do mundo moderno, passam a ser vistos como um fardo para suas famílias. 

Como não há pílula para o vazio, a busca por cura migrou de endereço. Quem observa o fluxo dos ambulatórios gratuitos logo percebe um dado chocante: cerca de dois terços das consultas não são motivadas por dores orgânicas. O paciente não tem uma infecção, um tumor ou uma falência qualquer; há, sim, uma busca desesperada por companhia. O estetoscópio encostado no peito é o pretexto para o toque; a receita médica é o documento que prova que ele ainda existe para alguém. 

Ou o que pensar quando uma idosa questionada por que chegara duas horas antes da hora marcada simplesmente responde: “Porque eu não aguentava mais ficar sozinha em casa”. Ou do idoso que reclamou do banco que orgulhosamente eliminou a fila: “Por não se importar com o quanto ríamos até chegar a nossa vez!” 

O tamanho exato desse drama se revela nos detalhes de um fim de tarde qualquer, quando o grande salão do ambulatório de um hospital público finalmente esvaziou. As luzes iam se apagando, as cadeiras de plástico ficavam expostas em sua nudez cinzenta, e todos os médicos já haviam ido embora. Com exceção de uma senhorinha de cabeça muito branca, miúda na imensidão da sala, que parecia esperar pacientemente ser chamada. Estranhando a cena, a enfermeira checou a agenda do dia e confirmou que o mapa estava zerado: todos os pacientes agendados já tinham sido atendidos. Aproximou-se da idosa e, com delicadeza, quis saber quem ou o que ela ainda estava aguardando. A resposta veio com uma lucidez que rasga qualquer tentativa de romantizar a velhice: 

‒ Eu vim aqui para ter com quem conversar. Agora que todo mundo já se mandou, vou esperar sentada para ver quanto tempo a minha família vai demorar para dar pela minha falta e vir me procurar. 

Aquela mulher não estava esperando uma consulta: estava aplicando um teste de sobrevivência afetiva naqueles que deveriam amá-la. Usava o banco frio do hospital público como um farol de náufrago, testando limites do esquecimento. 

Enquanto a medicina se orgulha de adiar a morte, a sociedade precisa entender o que pode significar a morte antes de morrer. Caso contrário, continuaremos celebrando os aniversários de 90 anos enquanto assistimos, impotentes, a idosos sentados em sala de espera vazias, cronometrando o tempo que o mundo leva para lembrar que eles ainda respiram. 

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J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina. 

(Do caderno Vida, do jornal Zero Hora, maio de 2026)

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