segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pequenos grandes textos

 A cura contra o infortúnio

Certa vez, uma mãe jovem e bela viu adoecer e definhar seu filhinho.  A mãe enlouqueceu. Apertou ao peito o filho morto e saiu de casa em casa, pedindo um remédio que lhe restituísse a vida. Um monge, tomado de piedade, disse-lhe: “Minha pobre filha, eu não tenho o remédio; mas sei de alguém que o tem. É o Buda.” 

Correu ao Gautama. “Sim, conheço o remédio eficaz, disse ele. É a semente da mostarda.” Mas quando a mulher já se regozijava por ser o remédio tão comum, o profeta continuou: “Tens de obtê-lo numa casa onde nunca haja morrido nenhum filho, marido, pai, ou escravo.” A jovem mãe partiu a procura do remédio.  As pessoas se mostravam solícitas em dar-lhe a semente pedida.  Mas a mulher perguntava: “Esta casa nunca foi atingida pela morte de nenhum filho marido ou escravo?” Respondiam-lhe tristemente: “Tal casa não existe. Os mortos são muitos; os vivos, poucos.” Então, mergulhada em profunda dor, foi à floresta e enterrou a criança. 

Quando voltou para junto do Gautama, este perguntou: “Encontraste a semente da mostarda?” A mulher respondeu: “Não, meu mestre, mas encontrei a cura. Sepultei a minha dor na floresta.  E agora estou pronta para seguir-te em paz.” 

O rei e o camponês 

Um rei passou um dia por um camponês que, apesar de bem velho, plantava tamareiras.  Disse-lhe o rei: “Ó velho, esperas mesmo comer do fruto desta árvore, que leva anos para dar a primeira colheita?” Respondeu o camponês: “Majestade, nós comemos do que outros plantaram. E plantamos para que outros comam.” O soberano gostou da resposta e premiou o camponês com 1000 dinares.  O camponês aceitou o dinheiro e disse: “Admirável a rapidez com que estas tamareiras deram a sua primeira colheita!” O rei deu-lhe outros 1000 dinares.  E o camponês disse: “E o mais admirável é que elas produziram duas colheitas num só ano. O rei deu-lhe outros 1000 dinares e foi-se embora. 

(Al-Atlidi) 

Dois senhores 

Um dia, falaram de um certo santo a um rei, e este o procurou e pediu-lhe que fosse viver na corte e fazer-lhe companhia.  “É um convite muito agradável” respondeu o santo, “mas suponhamos que entreis um dia no palácio e me encontreis abusando de vossa filha, que faríeis?” 

O rei encolerizou-se e gritou: “Oh, miserável, tu me insultas até ao dizeres semelhante coisa!” 

E o santo respondeu: “Eu já tenho um generoso Senhor. Quando ele me vê cometer setenta ofensas, não me hostiliza, não me repele, não me recusa o pão de cada dia. Por que eu deixaria sua corte para viver na corte de um rei que se enfurece contra mim antes que eu tenha cometido uma só ofensa?” Então, deixou o rei e foi-se embora. 

(Al-Kaliubi)


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