Moacyr Scliar
Os índios têm uma curiosa armadilha para pegar peixes. É uma espécie de gaiola, com um orifício orientado de tal maneira que o peixe pode entrar, ainda que com dificuldade, mas não pode sair. O mundo da palavra escrita é assim, entrar é difícil; diferente da imagem e da voz na TV, diferente da voz do rádio, a letra é um símbolo. Precisa ser decodificada, o que não raro causa frustração. Observe um garoto recém-alfabetizado lendo anúncios num automóvel andando, ou assistindo a filme legendado: mal ele consegue decifrar as primeiras sílabas, pronto, lá se foi a mensagem. Mas essa dificuldade inicial é compensada pela sensação de poder que ela se segue. Depois que você aprendeu a ler, você é um iniciado. Você passa a fazer parte de uma confraria, cujos membros, na maior parte das vezes, nem se conhecem. Porque esse é outro aspecto peculiar no hábito de ler; é difícil compartilhá-lo. As pessoas que estão numa biblioteca diferente dos espectadores de um cinema, não estão sintonizados no mesmo canal emocional. Ler é um vício solitário.
Fui um leitor voraz. Devo à minha mãe, que era professora e uma notável alimentadora, motivo pelo qual se sentia obrigada a nutrir duplamente ‒ material e espiritualmente ‒ o seu filho. E contente ficou quando descobriu que, distraído pela leitura, eu devorava um sanduíche sem perceber. Livros e sanduíches foram assim desaparecendo no que era um sumidouro inesgotável.
Havia também os livros que líamos no colégio. Mas o que fazia maior sucesso entre os alunos era um grosso volume, do qual não me lembro nem o título, nem o autor, nem o assunto, nada. Só lembro que era um livro já amarelado, com as páginas gastas; alguém o trazia para as aulas de educação física. Desta obra recordo de uma passagem ‒ e por ela se pode definir o tema dominante ‒ que falava da grutinha do prazer da heroína.
A grutinha do prazer. Até hoje esta imagem me persegue, não por seu refinamento ‒ está mais para o grotesco do que para o literário ‒ mas pela conotação de sensual mistério. A grutinha do prazer. Equivalente erótico da caverna de Ali-Babá, que abre-te sésamo nos permitiria nela penetrar?
A leitura, sem dívida. A leitura, este vício solitário, que permite à imaginação amar as mais belas princesas e chegar às mais longínquas regiões do pensamento. Um filme poderia ser mais realista; mas um filme não incendiaria a imaginação como faz esta simples expressão, “grutinha do prazer”.
O livro é a grutinha do prazer, é a casa do afeto, é o templo da sabedoria, é o palácio da emoção. O livro é muito a vida, assim como a vida e muito os livros que lemos. É que recordamos com saudades e prazer, quando retornamos ao esconderijo de nossos secretos prazeres.

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