“Buenas
e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!” é uma
frase famosa do personagem Capitão Rodrigo Cambará, da obra “O Tempo e o Vento”,
de Érico Veríssimo. A expressão gaúcha indica uma chegada destemida, sugerindo
que o personagem se adapta à situação, lidando com os desafios conforme o
tamanho da necessidade.
Imagem do blog de Leonardo Melgarejo
Principais referências sobre a frase:
● Origem Literária: A fala marca a chegada de Rodrigo Cambará na venda do Nicolau em Santa Fé, demonstrando sua personalidade audaciosa e corajosa.
● Significado: É uma expressão de autoconfiança e atitude, comum na cultura do Rio Grande do Sul para descrever alguém que chega marcando presença.
● Cultura Gaúcha: A frase é frequentemente usada para denotar o estilo regionalista e foi popularizada também por um grupo de música regional gaúcha chamado “Buenas e M'espalho”, formado por artistas como Shana Müller e Cristiano Quevedo.
A frase “Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho” refere-se ao uso da faca ou sabre, onde “dou de prancha! significa bater com o lado plano da lâmina e “dou de talho” significa usar o fio da lâmina para cortar.
Trecho do livro
Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido: - Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! Havia por ali uns dois ou três homens, que o miraram de soslaio sem dizer palavra. Mas dum canto da sala ergueu-se um moço moreno, que puxou a faca, olhou para Rodrigo e exclamou:
‒ Pois dê!
Os outros homens afastaram-se como para deixar a arena livre, e Nicolau, atrás do balcão, começou a gritar:
‒ Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora!
Rodrigo, porém, sorria, imóvel, de pernas abertas, rebenque pendente do pulso, mãos na cintura, olhando para o outro com um ar que era ao mesmo tempo de desafio e simpatia.
‒ Incomodou-se comigo? ‒ perguntou, jovial, examinando o rapaz de alto a baixo.
‒ Não sou de briga, mas não costumo aguentar desaforo.
‒ Oôi bicho bom!
Os olhos de Rodrigo tinham uma expressão cômica.
‒ Essa sai ou não sai? ‒ perguntou alguém do lado de fora, vendo que Rodrigo não desembainhava a adaga.
O recém-chegado voltou a cabeça e respondeu calmo:
‒ Não sai. Estou cansado de pelear. Não quero puxar arma pelo menos por um mês. ‒ Voltou-se para o homem moreno e, num tom sério e conciliador, disse:
‒ Guarde a arma, amigo.
O outro, entretanto, continuou de cenho fechado e faca em punho. Era um tipo indiático, de grossas sobrancelhas negras e zigomas salientes.
‒ Vamos, companheiro ‒ insistiu Rodrigo. ‒ Um homem não briga debalde. Eu não quis ofender ninguém. Foi uma maneira de falar...
Depois de alguma relutância o outro guardou a arma, meio desajeitado, e Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo:
‒ Aperte os ossos.
O caboclo teve uma breve hesitação, mas por fim, sempre sério, apertou a mão que Rodrigo lhe oferecia.
‒Agora vamos tomar um trago ‒ convidou este último.
‒ Mas eu pago ‒ disse o outro.
Tinha lábios grossos, dum pardo avermelhado e ressequido.
‒ O convite é meu.
‒ Mas eu pago ‒ repetiu o caboclo.
‒ Está bem. Não vamos brigar por isso.
Aproximaram-se do balcão.
‒ Duas caninhas! ‒ pediu Rodrigo.
(...)

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