sábado, 9 de maio de 2026

Buenas e me espalho!

“Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!” é uma frase famosa do personagem Capitão Rodrigo Cambará, da obra “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo. A expressão gaúcha indica uma chegada destemida, sugerindo que o personagem se adapta à situação, lidando com os desafios conforme o tamanho da necessidade.

Imagem do blog de Leonardo Melgarejo

Principais referências sobre a frase: 

● Origem Literária: A fala marca a chegada de Rodrigo Cambará na venda do Nicolau em Santa Fé, demonstrando sua personalidade audaciosa e corajosa. 

● Significado: É uma expressão de autoconfiança e atitude, comum na cultura do Rio Grande do Sul para descrever alguém que chega marcando presença. 

● Cultura Gaúcha: A frase é frequentemente usada para denotar o estilo regionalista e foi popularizada também por um grupo de música regional gaúcha chamado “Buenas e M'espalho”, formado por artistas como Shana Müller e Cristiano Quevedo. 

A frase “Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho” refere-se ao uso da faca ou sabre, onde “dou de prancha! significa bater com o lado plano da lâmina e “dou de talho” significa usar o fio da lâmina para cortar. 

Trecho do livro 

Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido: - Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! Havia por ali uns dois ou três homens, que o miraram de soslaio sem dizer palavra. Mas dum canto da sala ergueu-se um moço moreno, que puxou a faca, olhou para Rodrigo e exclamou: 

‒ Pois dê! 

Os outros homens afastaram-se como para deixar a arena livre, e Nicolau, atrás do balcão, começou a gritar: 

‒ Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora! 

Rodrigo, porém, sorria, imóvel, de pernas abertas, rebenque pendente do pulso, mãos na cintura, olhando para o outro com um ar que era ao mesmo tempo de desafio e simpatia. 

‒ Incomodou-se comigo? ‒ perguntou, jovial, examinando o rapaz de alto a baixo. 

‒ Não sou de briga, mas não costumo aguentar desaforo. 

‒ Oôi bicho bom! 

Os olhos de Rodrigo tinham uma expressão cômica. 

‒ Essa sai ou não sai? ‒ perguntou alguém do lado de fora, vendo que Rodrigo não desembainhava a adaga. 

O recém-chegado voltou a cabeça e respondeu calmo: 

‒ Não sai. Estou cansado de pelear. Não quero puxar arma pelo menos por um mês. ‒ Voltou-se para o homem moreno e, num tom sério e conciliador, disse: 

‒ Guarde a arma, amigo. 

O outro, entretanto, continuou de cenho fechado e faca em punho. Era um tipo indiático, de grossas sobrancelhas negras e zigomas salientes. 

‒ Vamos, companheiro ‒ insistiu Rodrigo. ‒ Um homem não briga debalde. Eu não quis ofender ninguém. Foi uma maneira de falar... 

Depois de alguma relutância o outro guardou a arma, meio desajeitado, e Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo: 

‒ Aperte os ossos. 

O caboclo teve uma breve hesitação, mas por fim, sempre sério, apertou a mão que Rodrigo lhe oferecia. 

‒Agora vamos tomar um trago ‒ convidou este último. 

‒ Mas eu pago ‒ disse o outro. 

Tinha lábios grossos, dum pardo avermelhado e ressequido. 

‒ O convite é meu. 

‒ Mas eu pago ‒ repetiu o caboclo. 

‒ Está bem. Não vamos brigar por isso. 

Aproximaram-se do balcão. 

‒ Duas caninhas! ‒ pediu Rodrigo. 

(...)

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