terça-feira, 31 de agosto de 2021

Para que serve o bar?*

 

Para que serve o bar? Os mais conservadores responderão, não sem certo tom de censura, que serve para beber. Trata-se de uma redução. Na verdade, as pessoas vão ao bar para se encontrar. Elas querem ver outras pessoas, conversa com outras pessoas, talvez até, se tudo der certo, amar outras pessoas. 

Então, o bar é basicamente um lugar de confraternização, um lugar para o exercício da amizade, do amor, do companheirismo. Em resumo, um lugar do bem. É claro que podem ocorrer desavenças no bar, brigas sérias e casos de polícia. Claro. Os seres humanos são assim, quando se reúnem, porque estão sempre disputando espaço. No entanto, a ideia do bar é o congraçamento, e não a disputa. 

(...) 

****** 

* Parte da crônica “O melhor bar da história de Porto Alegre”, de David Coimbra, em Zero Hora, agosto de 2021.

Filhos

 Luís Fernando Veríssimo

Ilustração: Ricardo Machado 

A felicidade era não saber. 

As crianças eram felizes porque não sabiam. 

Tem a história daquele pai que concebeu dois filhos, Adão e Eva. Naquele tempo, não precisava mãe. O pai fez o que pôde pelas crianças. Elas tinham tudo, nunca lhes faltou alimento ou agasalho. Se queriam um cachorro ou um macaco para brincar, o pai fazia. Se queriam uma pizza, o pai criava, ou mandava buscar. Se queriam saber como era o mundo lá fora, o pai dizia que não precisavam saber. Eles não eram felizes não sabendo nada, ou só sabendo o que o pai sabia por eles? A felicidade era não saber. As crianças eram felizes porque não sabiam. 

Adão ainda era acomodado, mas a Evinha… Um dia, o pai a pegou descascando uma banana. Nem ele sabia o que a banana tinha por dentro, mas a danada da menina descobriu e, antes que ele pudesse dizer “Dessa fruta não co…”, ela já tinha comido. E gostado. Foi então que ele decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área dos hortifrutigranjeiros, e determinar quais frutas do jardim podiam e não podiam ser comidas, e escolheu uma fruta como a mais proibida, pois se comesse dela a menina saberia. Saberia o quê? O pai não especificou. Só disse que o que ela saberia seria terrível, e que depois não se queixasse. 

Eva comeu da fruta mais proibida, claro, e o pai foi tomado de grande tristeza. E disse a Eva que agora ela sabia o que não precisava saber, e que nunca mais seria a mesma. – O que eu sei de tão terrível que não sabia antes? – perguntou Eva, ainda mastigando a fruta proibida. – Que você pode desobedecer. Que você pode escolher, e pensar com a própria cabeça, e me desafiar. E então o pai disse a frase mais triste que um pai pode dizer a um filho: 

– Que você não é mais uma criança. 

E Eva cresceu diante dos olhos do pai, e no momento seguinte já estava dizendo que queria morar sozinha, e fazer bolsa de inglês em Nova York, e saber como era o mundo lá fora. E Deus disse que ela podia ir, e que levasse o palerma do Adão com ela. E que os dois jamais voltassem e pedissem sua ignorância de volta. 

* Texto original de abril de 2017/Acervo do autor:

Do jornal Extra Classe, junho de 2021.

domingo, 29 de agosto de 2021

Você é especial?

 

(...) 

Há maneiras mais eficientes de descobrir se alguém é, de fato, especial. 

Ouça o que ela diz. 

Observe como se comporta. 

Que respeito tem pelos outros. 

O quanto é sensível ao sofrimento alheio. 

Como trata aqueles que a estão servindo. 

O quanto se interessa por quem não lhe é útil. 

O que a emociona. 

Em que medida se compromete com a verdade. 

O quanto se dedica à escuta. 

O tom de voz com que se comunica. 

Em que ela contribui para a sociedade. 

Qual sua predisposição em evoluir, em acompanhar as mudanças do seu tempo. 

O quanto evita causar desassossego. 

Se estende a mão quando lhe pedem ajuda. 

Como lida com crianças e idosos. 

Qual a importância que dá para a beleza de uma escultura, para a emoção provocada por uma música. 

Se consegue compreender que miséria e vício não são escolhas, se sente compaixão por quem padece pela desigualdade social. 

Prestando bem atenção, você conseguirá perceber se essa pessoa tem valores e intenções confiáveis, ou se é uma egoísta a serviço da própria vaidade e da ambição por poder. Seja qual for o resultado da sua análise, você não terá a mínima ideia se ela é religiosa ou não. 

A pessoa que fala em Deus, que cita Deus, que se agarra em Deus, pode ser um ser humano extremamente bom e justo. Mas, para confirmamos, falta todo o resto. 

Martha Medeiros, de sua crônica “Não basta falar em Deus”,

no Caderno Donna, de Zero Hora, agosto de 2021)

Nunca discuta com burros!

 (Fábula)

O burro disse ao tigre: 

− A grama é azul! 

O tigre respondeu: 

− Não, a grama é verde! 

A discussão aqueceu, e os dois decidiram submetê-lo a uma arbitragem, e, para isso, concorreram perante o leão, o Rei da Selva. Já antes de chegar à clareira da floresta, onde o leão estava sentado em seu trono, o burro começou a gritar: 

− Sua Alteza, é verdade que a grama é azul? 

O leão respondeu: 

− Certo, a grama é azul. 

O burro se apressou e continuou: 

− O tigre discorda de mim e me contradiz e me incomoda, por favor, castigue-o. 

O rei então declarou: 

− O tigre será punido com cinco anos de silêncio. 

O burro pulou alegremente e seguiu seu caminho, contente e repetindo: 

− A grama é azul... 

O tigre aceitou sua punição, mas antes perguntou ao leão: 

− Vossa Majestade, por que me castigou? Afinal a relva é verde. 

O leão respondeu: 

− Na verdade, a grama é verde. 

O tigre perguntou: 

− Então, por que você me pune? 

O leão respondeu: 

− Isso não tem nada a ver com a pergunta de ser a grama é azul ou verde. O castigo acontece porque não é possível que uma criatura corajosa e inteligente como você perca tempo discutindo com um burro, e ainda por cima venha me incomodar com essa pergunta. 

A pior perda de tempo é discutir com o tolo que não se importa com a verdade ou com a realidade, mas apenas com a vitória de suas crenças e ilusões. 

Jamais perca tempo em discussões que não fazem sentido... Há pessoas que, por muitas evidências e provas que lhes apresentamos, não estão na capacidade de compreender, e outras estão cegas pelo ego, ódio e ressentimento, e a única coisa que desejam ter é razão mesmo que não a tenham. 

Quando a ignorância grita, a inteligência cala. 

Sua paz e tranquilidade valem muito mais.

sábado, 28 de agosto de 2021

Distraídos

 

O homem não notou um colega passar e cumprimentá-lo. Fato típico dos novos tempos. Os olhos quase não piscam diante das telas. Vivemos tanto ali dentro que até fica difícil acreditarmos na existência longe do mundo virtual. Fazemos compras, pagamos contas, visitamos lugares tridimensionais, descobrimos amores idealizados e, de súbito, percebemos que o dia passou lá fora. Aí surge uma vontade de salvarmos o que ainda é pele, movimento, ar livre. Planejamos viagens, decidimos apreciar a natureza, prometemos manter distância das mensagens de trabalho. Contraditoriamente passamos a postar fotos nas redes sociais, não só no intento de registrar instantes, mas também na ânsia de sermos vistos, aprovados e até mesmo invejados. É como se a realidade despida de dispositivos já não nos impressionasse por si só. Adentramos no sistema binário que nos projeta da melhor forma possível, corrige falhas, esconde a dor, traz novidades alheias, distrai. Faço parte dessa aldeia digital (quem não?) e agora me pergunto: será que na minha frente já passaram grandes amigos e eu deixei de estender um sincero sorriso? É de se pensar. 

Alina Souza 

(No Correio do Povo, agosto de 2021) 

A história de “Castelhana”

Larga tudo e vem ler a história 

“Castelhana”, 

de Elton Saldanha e Rui Biriva 

Texto de William Mansque

(...) 

Composta por Elton Saldanha e Rui Biriva, Castelhana é um clássico da música regionalista gaúcha. A música estourou com a primeira versão do grupo Os Nativos, em 1994, e depois foi regravada por nomes como os Serranos, Wilson Paim, Gaúcho da Fronteira, além dos próprios autores da faixa. A letra da canção é inspirada em uma história que Elton viveu com uma moça argentina. 

Em 1993, o historiador e folclorista Antonio Augusto Fagundes era comandante dos Cavaleiros da Paz, confraria que realiza percursos a cavalo levando a cultura gaúcha empunhando a bandeira branca da paz. Nico convidou Elton a fazer uma travessia de continente: de Cidreira a Valparaíso, no Chile. “Do Atlântico ao Pacífico”. Para isso, solicitou ao compositor que realizasse primeiro esse percurso de carro, estudando as dificuldades que poderiam ser encontradas pelo caminho. Partiram Elton, Leopoldo Rassier e o coronel Menna Quevedo em um Monza. 

No território argentino, eles se perderam no município de San Francisco, em Córdoba. Sem saber como chegar à cidade que dá nome à província homônima, eles pararam para pedir informação a uma jovem, que estava na frente de uma escola. Segundo Elton, “uma morena muito bonita”. A argentina explicou o caminho e, em seguida, pediu uma carona até sua casa. Ela se chamava Malena, assim como o clássico do tango composto por Homero Manzi e Lucio Demare. 

Ao chegarem à casa de Malena, os viajantes depararam com uma família humilde e numerosa − o músico recorda que ela tinha sete irmãs. Lá, a família foi gentil e hospitaleira, repartindo o jantar. Eles seguiram viagem, mas Elton garantiu que os visitariam no mês seguinte durante a cavalgada. 

Quando os cavaleiros retornaram a San Francisco, lá estava Malena e sua família os aguardando. Porém, Elton conta que a viagem foi badalada, e muitas autoridades locais também os esperavam no município. Sobrou pouco tempo para conversar com Malena. 

Elton voltou para casa com a imagem daquela jovem simpática e hospitaleira que o esperou em San Francisco. Na época, Rui Biriva era seu vizinho de prédio no Menino Deus, em Porto Alegre. Após se reencontrarem e a conversa ser posta em dia, Rui pegou o violão e mostrou uma melodia. Elton reagiu efusivamente. 

− Bah, que bonito isso aí, Rui. Vamos fazer essa música agora! − empolgou-se Elton. − Eu poderia homenagear uma moça que conheci em San Francisco − sugeriu. 

Rui acatou a ideia e perguntou ao vizinho qual era o nome da homenageada. Elton percebeu que poderia ser complicada a questão do nome, afinal, já existia um tango famoso com o nome de Malena. Então, decidiu-se que o título seria Castelhana. 

− Foi uma explosão marcante. Uma forma diferente de se fazer música, pois é uma mistura de milonga habanera com vanera. É uma levada bem dançante, bem para cima e popular. Até hoje o pessoal canta por aí a Castelhana − destaca Elton. 

(...) 

Os Nativos, grupo de amigos de Elton e Rui, receberam a música e gravaram a primeira versão de Castelhana. No ano seguinte, a faixa se tornou um fenômeno da música regional. 

Segundo o compositor, a canção é um agradecimento pelo carinho espontâneo e voluntário, um tributo à receptividade. Elton nunca mais reencontrou Malena, mas não descarta agradecê-la um dia. 

− Gostaria de um dia voltar, ir a uma rádio local e dizer que essa música é em homenagem a uma moça da região chamada Malena. Quem sabe eu possa agradecer ao vivo quem inspirou a canção. 

(Em Zero Hora, agosto de 2021) 

Castelhana 

Compositores: Elton Saldanha / Rui Biriva 

Eu hoje me vou pra fronteira,
Pois queira ou não queira,
Vou ver meu amor.

Esperei toda a semana
Pra ver a castelhana,
Minha linda flor.
Tá frio na minha cidade,

A bem da verdade está frio demais.
Ao sul do meu coração,
Quero tempo bom,
Só você me traz.
Ao sul do meu coração,
Quero tempo bom,
Só você me traz.
 

Larga tudo e vem comigo,
Vamos encarar o perigo.
Larga tudo e vem comigo,
Vamos encarar o perigo.
 

Castelhana, se você me ama.
Me ama,
Me ama,

Me ama,
Me diz.
Castelhana, se você me ama,
Me ama,
Me ama,

Me ama.
A gente pode ser feliz.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Gramática em cordel

 A nova ortografia do português

Carlinhos Cordel

Este cordel vai falar
Da nossa ortografia,
Que nos causa muita dúvida
E bastante agonia,
Na hora de escrever
Palavras do dia-a-dia.

A palavra ortografia
Tem uma origem grega.
Vem do radical “grafia
E de “orto”, com certeza.
Significa escrever correto
E com muita beleza.

Para se escrever correto,
Preste bastante atenção
Nas regrinhas ortográficas.
Use-as com toda razão,
Pesquise no dicionário
E o tenha sempre à mão.

O H não representa
Nenhum som, nenhum fonema.
É apenas uma letra
Que causa muito dilema.
Vem da etimologia,
Escrevê-la é um problema.

Usamos a letra H
Para formar interjeição,
Como: Ah! Ih! Oh! e Hum!
Expressando emoção.
Cuidado para não errar!
Use sempre a razão.

No início de palavras,
Cuja tradição escrita,
Ou a etimologia

Deixa a regra mais bonita.

Escrevemos com H
Honesto, herói, habita.
Hábil, hálito, haver,
Hibernar, habitação,
Hambúrguer, habilidade,
Harmonia, hesitação,
Haras, harém e hebreu.
Cuidado! Não erre mais não!

No interior dos vocábulos
Não se usa o H.
Exceto em alguns dígrafos
CH e LH,
Archote, malha e ninho,
Não esqueça o NH.

Palavras como cachaça,
Cachimbo, manha, mochila,
Malha, batalha e aranha.
Chave, espantalho, matilha
Apresentam sempre um dígrafo
Para complicar a escrita.

Emprega-se a letra S
Nos sufixos Oso/Osa,
Que indicam abundância:
Horroroso e cheirosa,
Fabulosa e amoroso,
Formoso, também dengosa.

Nos sufixos Ês e Esa,
Também no sufixo Isa,
Como as palavras: francês
Milanesa e poetisa,
Marquês, chinês e duquesa,
Baronesa e profetisa.

Sempre depois de um ditongo,
A letra S se insere:
Coisa, faisão, mausoléu.
Perceba e não mais erre:
Cleusa, Sousa e maisena
É com S que se escreve.

As formas do verbo pôr,
Também do verbo querer,
Escrevem-se com um S:
Pus, pusesse, pode crer.
Quis, quisesse e quiser,
Você não pode esquecer.

Sempre se escreve com S
Asa, surpresa, alisar,
Através, brasa e crise,
Deusa e catalisar,
Empresa, gás, gasolina,
Atrasar, uso e visar.

Emprega-se a letra Z
Nos sufixos Ez e Eza
Que formam substantivos
Abstratos como: beleza,
Insensatez, altivez,
Magreza, também grandeza.

Deve se escrever com Z
Todo sufixo Izar
Formador de alguns verbos
Como hospitalizar,
Mas cuidado, há exceção:
Analisar, pesquisar.

Sempre se escreve com Z:
Amizade, luz, voraz,
Arroz, atriz, baliza,
Desprezo, feroz, cartaz,
Giz, lazer, profetizar,
Rodízio, xadrez, rapaz.

Nas terminações abaixo,
Ágio, Égio, Ígio, Ógio,
Emprega-se a letra G.
Como em pedágio e relógio.
E na terminação Úgio
Refúgio e necrológio.

Quando o substantivo
É terminado em Gem,
Você escreve com G:
Coragem, vagem, vertigem
Cuidado: há exceções
Pajem, lajem e lambujem.

Também se escrevem com G
Geada, gíria, gengiva,
Herege, ligeiro, monge,
Tigela, agir, ogiva,
Tangerina, gengibre
Gesto, gigante e giba.

Sempre se escreve com J
Palavras lá do tupi:
Jiboia, pajé, canjica,
Tijuca, jaborandi,
Jequitibá, jerimum,
Jaçanã e jabuti.

Também se escreve com J
Berinjela, jiló, laje,
Sarjeta, varejista,
Gorjeta, canjica, traje,
Jenipapo, jeito, loja,
Encorajar e viaje.

Sempre depois dum ditongo,
O X a gente escreve:
Ameixa, queixo e faixa
É assim que se procede.
Caixa, paixão e peixada.
Cuidado! Nunca mais erre!

Depois da sílaba EN,
No início da palavra,
Também da sílaba ME,
A letra X é usada:
Enxoval, mexerica
Mexicano e enxada.

Cuidado, há exceção
Com as palavras citadas:
Encher e seus derivados:
Enchimento, encharcada;
Mecha e seus derivados
Se liga, rapaziada.

Sempre se escreve com X:
Bexiga, coaxar,
Luxo, xarope, faxina,
Engraxate, relaxar,
Puxar, xampu, xerife,
Xícara, luxo e xingar.

Devemos sempre escrever
Com as letras CH:
Bochecha, broche, churrasco,
Cartucheira, chutar,
Cochicho, colcha, fachada,
Salsicha, piche e rachar.

Palavras de origem árabe,
Do tupi ou africana,
Como açúcar, araçá,
Caçula e muçulmana,
Se escreve com C cedilha (Ç)
Paçoca e suçuarana.

Logo após algum ditongo,
Como na palavra feição,
Escrevemos a cedilha (Ç)
Louça, touça, eleição,
Afeição, beiço, ouça,
Iguaçu e Conceição.

Escrevemos SS
Nas palavras demissão,
Assassino, assessor,
Impressora, agressão,
Expresso, cessão, cessante,
Opressor e depressão.

A letra X apresenta
Os sons CH e S
Xarope, sexto e texto
CS, Z, SS
Sexo, exame e auxílio,
Quem aprende não esquece.

Seja qual for a tua dúvida
Procura no dicionário,
Ele te ajudará,
Te deixará informado
E sem dúvidas ortográficas,
Até logo e muito obrigado.

(Do blog Recanto das Letras)

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O Rio Grande do Sul a um passo da guerra civil

 Em agosto de 1961, o Palácio Piratini foi transformado em trincheira contra o golpe, em uma insurreição liderada pelo então governador Leonel Brizola. 

Por Gilson Camargo / Publicado em 24 de agosto de 2011

Insurgente: Brizola liderou movimento pela posse do vice-presidente

Foto: Gil Pinheiro / Fatos & Fotos / Reprodução 

A mobilização, batizada de Campanha da Legalidade, alusão ao texto constitucional que determina a posse do vice no caso de renúncia ou impedimento do presidente, começou no movimento estudantil, no Colégio Julho de Castilhos, o Julinho, no dia 25 de agosto, e assumiu a proporção de uma guerra civil. Apesar das tensões e do teatro de guerra, nenhum tiro chegou a ser disparado, pois a repercussão do Movimento – transmitido pelas 104 emissoras da Cadeia de Rádios da Legalidade – levou a cúpula militar do país a recuar, em setembro, aceitando a posse de Jango. Os poderes do presidente, no entanto, foram limitados por um inusitado sistema Parlamentarista – que seria derrubado com o golpe de 1964. 

Cunhado de Brizola, Jango retornava de uma viagem à China quando Jânio Quadros renunciou. Acuado pela oposição em maioria e acusado de tentativa de golpe pelo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, o histriônico Quadros imaginou um retorno ao poder nos braços do povo. Sua identificação com a esquerda – condecorou Che Guevara, o que irritou conservadores – e o fato de Jango ser do PTB, herdeiro do populista Getúlio Vargas, foram pretextos de sobra para o veto dos militares à posse do vice. A tentativa de golpe deflagrou o Movimento da Legalidade, “… uma rebelião para restaurar a lei e a ordem, que tinham sido desfeitas pelo poder político-militar em Brasília”, conforme definição do jornalista Flávio Tavares, coordenador da equipe que redigiu nos porões do Palácio a edição extra do jornal Última Hora que lançou o movimento. 

Armas velhas e enferrujadas

No interior do estado, caminhões e trens foram confiscados para o transporte de soldados da Brigada Militar para a capital depois que o III Exército recebeu ordens do ministro da Guerra, Odílio Denys, para bombardear a sede do governo gaúcho e “eliminar o governador e quem estiver com ele”. Entrincheirado no Palácio, onde foram montadas barricadas com sacos de areia e brigadianos armados de metralhadoras ficaram de prontidão nas torres do prédio, Brizola montou um estúdio de rádio após confiscar equipamentos da Rádio Guaíba. Com transmissões dramáticas, nas quais declarava a disposição de defender com a própria vida a posse de Jango e a Constituição, o governador comoveu milhares de populares, que se deslocaram para as imediações do Palácio e permaneceram em vigília. “Não nos submeteremos a nenhum golpe, a morte é melhor que a vida sem dignidade”, desafiava pelos microfones madrugada adentro. 

A ordem era revidar no caso de uma investida militar. Revólveres calibre 38 confiscados de uma fábrica de armas de São Leopoldo foram distribuídos à população e aos jornalistas, e velhas metralhadoras encontrada pela Brigada Militar no Palácio passaram a ser ostentadas. O armamento fora contrabandeado da Tchecoslováquia pelo general Flores da Cunha, que governara o estado de 1930 a 1937. De tão velhas e enferrujadas, as armas disparavam um cada três ou quatro tiros, relata a jornalista Dione Kuhn no livro Brizola – da Legalidade ao Exílio (2004). “Recebi um revólver com uma argola para atar nos tentos e três balas. Em que baita guerra estava metido!”, ironiza Antônio Carlos Porto em depoimento a Joaquim Felizardo no livro “A Legalidade – Último levante gaúcho” (1988). Os jatos equipados com bombas, no entanto, nem chegaram a decolar da Base Aérea de Canoas, onde foram sabotados por soldados e oficiais. Um destacamento de blindados chegou a ser deslocado do bairro Serraria, mas também recuou. O general João Machado Lopes, comandante do III Exército, não só desacatou a ordem para atacar o Palácio como aderiu ao Movimento. 

O papel dos estudantes 

O advogado Natale Ferrari, 77 anos, tinha 25 quando começaram a chegar a Porto Alegre as primeiras informações sobre o veto dos militares à posse de Jango – prenunciando a crise. Líder estudantil, ele havia presidido o Grêmio do Colégio Julho de Castilhos em 1959 e 1960, mas não concorreu em 1961, pois decidira ser advogado. Foi chamado em casa para uma assembleia que definiria a mobilização dos estudantes. “O movimento estudantil do Julinho tinha uma força enorme, muita influência política. Quando cheguei, havia um mar de estudantes. Subi numa plataforma e disse: ‘vamos fazer o que sempre fizemos, vamos para as ruas, vamos tomar as providências para manter a legalidade’”, relata. A passeata começou com 2 mil estudantes e já somava mais de 10 mil quando chegou em frente à Prefeitura. No trajeto, alunos da Ufrgs e populares se juntaram. “Procuramos o prefeito Loureiro Chaves, que tinha prestígio na época, muito mais que o Brizola. Mas ele recuou diante da massa. Disse que devíamos esperar. Foi uma decepção”. Com a recusa de Loureiro, que depois se refugiaria na Cúria Metropolitana com Paulo Brossard e outros desafetos de Brizola, o Movimento seguiu para o Palácio Farroupilha. De uma das janelas do prédio, Ferrari fez um discurso em defesa da Constituição, sendo recebido por Brizola. “Eu estava sobre o parapeito de uma janela e senti que os vidros se abriram às minhas costas. Uma mão me tocou no ombro e me virei. Era o Brizola. Ele falou baixinho: ‘tu estás indo muito bem, continua’. Em seguida tomou a palavra e fez um discurso emocionante, assumindo o controle daquela massa e do Movimento da Legalidade. Isso já era tarde da noite de 25 de agosto. A Legalidade, portanto, nasceu no Julinho. Essa mobilização começou com os estudantes”, enfatiza. 

A história em imagens

Jango, Brizola e o general Lopes, que desobedeceu ordens e aderiu

Foto: Acervo Museu Hipólito José da Costa / reprodução 

O repórter fotográfico e professor da Unisc, Cláudio Fachel, 52 anos, autor do livro Fotojornalismo, Legalidade e Última Hora (Ed. Medianiz, 136 páginas), destaca que o trabalho dos repórteres fotográficos foi decisivo, pois a censura aos meios de comunicação e o discurso anticomunista vigente dificultavam a comunicação. “Numa perspectiva histórica, os fotógrafos da Legalidade foram heróis porque desconstruíram esse discurso através da crueza das imagens, mostrando sem cortes o contexto do Movimento, a importância de resistir ao golpe e fazer valer a Constituição”, analisa Fachel. Para o jornalista Carlos Bastos, 77 anos, que cobriu o episódio como repórter de política do jornal Última Hora, a Legalidade foi o último levante dos gaúchos e talvez a mais significativa demonstração do poder de mobilização popular que o rádio tinha à época. “Um episódio tão forte, tão apaixonante, que nenhum jornalista conseguiu manter a isenção, inclusive os mais de 400 repórteres credenciados pelo Palácio, na sua maioria correspondentes internacionais, que transmitiam boletins emocionados a todo momento”, recorda Bastos. 

(Do jornal Extra Classe, 24 de agosto de 2011)

Grito pela democracia nas ondas do rádio

“Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul! Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste palácio, numa demonstração de protesto contra esta loucura e este desatino. Venham, e se eles quiserem cometer esta chacina, retirem-se, mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. 

Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Poderei ser morto. Eu, a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa. Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta Nação. 

Aqui resistiremos até o fim. A morte é melhor do que a vida sem honra, sem dignidade e sem glória. Aqui ficaremos até o fim. Podem atirar. Que decolem os jatos! Que atirem os armamentos que tiverem comprado à custa da fome e do sacrifício do povo! Joguem estas armas contra este povo. Já fomos dominados pelos trustes e monopólios norte-americanos. Estaremos aqui para morrer, se necessário. Um dia, nossos filhos e irmãos farão a independência do nosso povo! 

Um abraço, meu povo querido! Se não puder falar mais, será porque não me foi possível! Todos sabem o que estou fazendo! Adeus, meu Rio Grande querido! Pode ser este, realmente, o nosso adeus! Mas aqui estaremos para cumprir o nosso dever.” 

******* 

Assim termina o discurso de Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, no dia 28 de agosto de 1961, na campanha da Legalidade. Movimento liderado por Brizola que assegurou a posse do vice-presidente João Goulart, o Jango, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

As vantagens de caminhar pela cidade

 

Jeferson Tenório

Anos atrás, quando eu era estagiário em um escritório e tinha de resolver os problemas que precisam ir para rua (banco, correio, fóruns, entregar contratos em empresas), eu começava a perceber a relação entre caminhar e pensar. Não importava se havia sol, frio ou chuva, parecia-me que estar fora do escritório era sempre melhor. No entanto, aos vinte e poucos anos, você não vê a cidade por onde anda. Ou melhor, você não sabe ver. A arte de ver a cidade enquanto se caminha é uma conquista pelo tempo. O modo como você anda define o modo como você é na vida. 

Lembro que no auge da pandemia, quando estávamos quase em lockdown, quando sair nos parecia tão aterrorizador, quando não tínhamos perspectiva nenhuma, quando não tínhamos vacina, não tínhamos ideia do que vinha pela frente, o que mantinha minha sanidade era dar uma volta na quadra duas vezes por semana. Naqueles breves 20 minutos, eu me libertava da ideia de morte que nos rondava. Caminhar me devolvia a dignidade. Eu saía partido de casa, no entanto, quando regressava, eu estava inteiro e regenerado de humanidade. 

Hoje, quando caminho, às vezes, estou tão dentro de mim, que torço para que nada interrompa aquele momento. Torço para não encontrar ninguém conhecido. Que ninguém me peça informação. A solidão da caminhada é uma condição para quem cria. Transformo calçadas, ruas e avenidas em meu espaço de trabalho. Converso mentalmente com minhas personagens e invento um mundo para mim. 

Em minha caminhada moderna, com fones nos ouvidos, uma seleção de músicas instrumentais no Spotify, sem um rumo pré-definido, finjo perder-me e me pergunto: quantos problemas não foram resolvidos entre as ruas Felipe Camarão e a João Telles? Quantos insights tive ao caminhar na Rua dos Andradas, dissolvido na multidão, quantas epifanias, quantas ideias de romances e de textos brotaram dessa simbiose entre as ruas e aquele que caminha? Para enfim chegar à única conclusão possível, a um único pensamento honesto e verdadeiro de quem anda e observa: a cidade sou eu. 

(Em Zero Hora, agosto de 2021)

Uma oração São Francisco de Assis

 

Quando não há nada mais a ser dito, silencia.

Quando não há mais nada a ser feito, permitas apenas ser, apenas estar e fica na companhia do teu coração e este indicará o momento apropriado para agires.

Quando a lentidão dos dias acomodar tua vontade, enlaçando-te com os nós da intranquilidade, descansa e refaz tua energia.

Não há pressa, a prioridade é que tu encontres novamente a tua essência para que tenhas presente em ti a alegria de ser e estar.

Quando o vazio instalar-se em teu peito, dando-te a sensação de angústia e esgotamento, repara tua atenção e encontra em ti mesmo a compreensão para este estado.

É necessário descobrirmo-nos em tais estados, para que estes não se transformem no desconhecido, no incontrolável.

Tudo pode ser mudado, existe sempre uma nova escolha para qualquer opção errada que tenhas feito.

Quando ouvires do teu coração que não há nenhuma necessidade em te preocupares com a vida, saibas que ele apenas quer que compreendas que nada é tão sério a ponto de te perderes para sempre da tua divindade, ficando condenado a não ver mais a luz que é tua por natureza.

Não te preocupes, se estiveres atento a ti mesmo verás que a sabedoria milenar está contigo, conduzindo-te momento a momento àquilo que realmente necessitas viver.

Confia e vai em teu caminho de paz.

Nada é mais gratificante que ver alguém submergindo da escuridão apenas por haver acreditado na existência da luz.

Ela sempre esteve presente…

Era só abrir os olhos…

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Saudades eternas

 Saudades da gonorreia! 

Mário Prata

Todos meus amigos de infância estão fazendo cinquenta anos.* Em fevereiro (11.02.1996) sou eu. A cada mês, uma festa de derrubar cinquentões. Em cada encontro, as saudades dos bons tempos da brilhantina e do halitol. Em cada porre, a lembrança de dias e de coisas que não voltam mais (que frase horrível, meu Deus!). 

Por exemplo: a galocha. Acho que os mais jovens nem sabem o que significa tão esdrúxula e extravagante palavra. Tratava-se de um artefato de borracha que se colocava por cima dos sapatos, em dias de chuva, para se sair. Quando o sujeito chegava na casa, tinha um móvel onde ele colocava a galocha. Aliás, neste mesmo móvel ele depositava o guarda-chuva e o chapéu. Todo mundo usava chapéus. Três fábricas disputavam a cabeça dos brasileiros. A Ramenzoni, a Prada e a Cury. Onde andam? Era um móvel bonito o porta-chapéus. Todo mundo gostava de atirar o chapéu de longe para vez se acertava no ganchinho trabalhado em ferro bruto. Acho que nem em antiquários se tem mais essa preciosidade. Onde andam o sereno e a garoa? 

A lanterna é outra coisa que sumiu. Toda casa tinha, pelo menos, três lanternas. Uma grande, na sala, em caso de escuridão causada pela Light (e eu com a Light?, era uma expressão da época), uma menor no quarto e, é claro, uma no porta-luvas do carro. E por falar em porta-luvas, quem é que já colocou um par de luvas lá? Me lembro que o amigo e hoje imortal Sábato Magaldi, na época crítico de teatro, usava uma lanterninha acoplada à sua caneta para escrever no escurinho do teatro. Quando ele acendia aquela bendita, atores tremiam no palco. Era elegante dar uma lanterna de presente, naqueles tempos. 

Mas nem tudo era perfeito. Naquele tempo, as obturações caiam sem mais nem menos. Hoje não caem mais. Melhoraram os dentes ou a tecnologia? Era comum, numa refeição, alguém dizer: ih, a minha obturação caiu! Era imediatamente guardada no lenço para se levar ao dentista no dia seguinte. 

Sim, naquele tempo todo mundo usava lenço no bolso de trás da calça. E mais, alguns com as iniciais bordadas por prendadas e desocupadas avós. Você que está me lendo agora, tem um lenço aí? Não se assoam mais narizes como antigamente? Ou todo mundo faz como jogador de futebol, que diante de milhares de espectadores, mandam brasa lá dentro do campo com a categoria de quem bate uma bela falta? Parece que eles entram em campo só para isso. Sempre fico preocupado quando um jogador vai ao chão. Vai se melecar na meleca do outro. 

Meleca que me lembra goma arábica (embora fosse fabricada no Brasil). E quando não se tinha a goma arábica, a gente fazia a cola em casa com maizena para se colar as figurinhas difíceis. 

Saia-se de casa com um pente Flamengo (que entortava todo) e era chique pentear os cabelos no meio das festas, sem olhar nos espelhos. Pente num bolso e cabo-de-aço na cintura para enfrentar a turma adversária. E quem é que não tinha um bom canivete no bolso? Daqueles que se apertava um botãozinho e a lâmina pulava para fora nos luares do interior. Os mais maldosozinhos ainda usavam um soco inglês, de aço. Aquilo matava. Mas ainda se era elegante para se usar uma cigarreira quando a moçoila pedia um cigarro Continental sem filtro. 

Quando se resfriava um escalda-pés resolvia tudo. Inclusive nos textos do Machado e do Eça pendurados nas estantes de mogno escuro. 

E a sunga, então? A sunga era fundamental para não se dar vexame depois de dançar com as virgens namoradas. Para não se sair todo curvo, uma boa sunga servia. Tinha um anúncio de uma delas com um gorila de sunga. Se segurava o do gorila, imaginem os nossos, ainda tão adolescentes e inexperientes. 

Mas o que sumiu mesmo foi a gonorreia, que tanta tragédia nos trazia. Como contar para o nosso pai, que se estava com aquilo? Pergunte ao seu pai que ele lhe explica a gonorreia. Garanto que já teve pelo menos umazinha. 

Outro dia li no muro do cemitério da Consolação: Saudades da Gonorreia! 

E fiquei com saudades de mim mesmo. 

No filme, o discurso emocionante!

 

O cineasta Silvio Tendler, em agosto de 1981, levou – de improviso – sua equipe de filmagem ao Parque Lage, no Rio de Janeiro, para filmar o enterro de Glauber Rocha. As imagens, durante anos proibidas pela mãe de Glauber, atualmente podem ser vistas no documentário “Glauber, Labirinto do Brasil” (2003). Exibem-se nas cenas momentos de comoção. A certa altura, surge em meio ao cortejo o antropólogo Darcy Ribeiro, amigo de Glauber, que dá início a um discurso emocionado, à beira do caixão. Sua voz se ergue e se embarga e choram os demais ao seu redor:

Darcy Ribeiro 

“Sua breve vida. Sem pele, com a carne exposta. Capaz de gozo decerto, não é, Glauber? Mas mais capaz de dor, da nossa dor. Uma vez, eu não vou esquecer nunca, Glauber passou a manhã abraçado comigo chorando, chorando, chorando convulsivamente. Eu custei a entender, ninguém entendia, que Glauber chorava a dor que nós devíamos chorar, a dor de todos os brasileiros. O Glauber chorava as crianças com fome, o Glauber chorava esse país que não deu certo, o Glauber chorava a brutalidade, o Glauber chorava a estupidez, a mediocridade, a tortura e não suportava, chorava, chorava, chorava... Os filmes do Glauber são isso, é um lamento, é um grito, é um berro. Esta é a herança que fica de Glauber. O que fica de Glauber para nós: a herança de sua indignação, ele foi o mais indignado de nós, indignado com o mundo tal qual é, assim, indignado porque mais que nós também Glauber podia ser o mundo que podia ser... que vai ser, Glauber! Que há de ser! Glauber viveu entre a esperança e o desespero, como um pêndulo, louco.” 

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P.S. Há documentário realizado por Silvio Tendler chamado “Glauber Labirinto do Brasil”, no qual Darcy Ribeiro faz eloquente discurso em homenagem ao amigo morto, julguei apressadamente que, talvez, se tratasse do tradicional exagero que costuma acompanhar uma perda definitiva. Darcy dizia ser Glauber o “mais indignado” de toda uma geração, um sujeito que oscilava “entre a esperança e o desespero” porque o Brasil nunca realizava nossas imensas possibilidades. 

(Trecho de um texto de Nildo Ouriques)

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Ara, que susto danado!

 

Um caminhão velho, desses de carregá tranquera, foi buscar na cidade um caixão de defunto pra ser usado por um dito cujo que tinha falecido lá praquelas redondezas. Lá vinha o caminhão com o caixão (sem o defunto, que ainda tava na casa de moradia). 

Eis que, ao passar por um capiau, o motorista é interpelado na tentativa do referido capiau cavar com isso uma bêra, que é praquelas bandas uma carona. 

Capiau: 

- Oh, moço! Será que o sinhô pode me dar uma bêra até o Lageado?

Motorista: 

- Pode trepá lá em cima, coió. E óia: lá na carroceria tem um caixão de defunto, mas não se preocupe porque ele tá vazio. 

Capiau (trepando): 

- Brigado, moço. 

De repente, começa a chuviscar. O tar capiau tinha tomado remédio quente e não podia levar aquele chuvisqueiro na cachola. Abriu a tampa do caixão de defunto vazio e se agasalhou lá dentro dele, de um jeito até bem que gostoso. Fechou o caixão com a tampa, sem medo de nada. 

Acontece que, conforme o caminhão passava na estrada, outros capiaus também pediam bêra, chegando a juntar uns 20 no caminhão. Achavam naturalmente que ali tinha um defunto fresco, pois o motorista ia sempre avisando: 

- Óia. Pode subi, mas num liga praquele lá de riba, não. 

Eis que a chuva dá uma parada boa. Nessa hora, o capiau que ia dentro do tal caixão abre num impacto a tampa e, sentando-se num gesto brusco, pergunta a todos: 

- Cumé, moçada? Já parô de chovê? 

Nem é preciso dizer o que aconteceu. Foi capiau pra tudo quanto era lado, com o caminhão em movimento. 

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Adaptado de Contando Causos, de Rolando Boldrin, (Nova Alexandria, 2001).

domingo, 22 de agosto de 2021

A dona de casa

 

Uma dona de casa, num vilarejo, ao atender o sino que serve de campainha, ao abrir a porta da frente da casa, se depara com um homem jogando esterco de cavalo em seu tapete da sala.

A mulher, apavorada, pergunta:

− O senhor está maluco? O que pensa que está fazendo em meu tapete?

O comerciante não deixando a mulher falar mais nada responde:

− Boa tarde! Eu estou ao vivo oferecendo meu produto, e ao vivo eu provo para a senhora que nossos aspiradores “Eletrolux” são os melhores e os mais eficientes do mercado, tanto que eu estou agora fazendo um desafio: Se eu não limpar esses estercos em seu tapete em poucos segundos, eu prometo que irei comê-los!

A mulher retirou-se para a cozinha sem falar nada.

O comerciante curioso perguntou:

− A senhora vai aonde? Não quer ver a eficiência do meu produto?

A mulher responde:

− Vou pegar uma colher, pois aqui em casa não há energia elétrica!

Sabedoria antiga dos advogados

 

Amit era um alto funcionário da corte do Rei Akbar. Há muito tempo, nutria um desejo incontrolável de lamber os voluptuosos seios da rainha até se fartar. Todas as vezes que tentou, porém, deu-se mal. 

Um dia, ele revelou seu desejo a Birbal, principal conselheiro e Advogado da Região, e pediu que ele fizesse algo para ajudá-lo. Birbal, depois de muito pensar, concordou, sob a condição de Amit lhe pagar mil moedas de ouro. Amit aceitou o acordo. 

No dia seguinte, Birbal preparou um líquido que causava comichões e derramou no sutiã da rainha, que o deixara fora enquanto tomava banho. Logo a coceira começou e aumentou de intensidade, deixando o rei preocupado. Estavam sendo feitas consultas a médicos, quando Birbal disse que apenas uma saliva especial, se aplicada por quatro horas, curaria o mal. Birbal também disse que essa saliva só poderia ser encontrada na boca de Amit. 

O Rei Akbar ficou muito feliz e então chamou Amit que, pelas quatro horas seguintes, fartou-se em lamber à vontade os suculentos e deliciosos peitões da rainha. Lambendo, mordendo, apertando e passando a mão, ele fez o que sempre desejou. 

Satisfeito, ele se encontrou com o advogado Birbal. Com seu desejo plenamente realizado e sua libido satisfeita, Amit se recusou a pagar ao advogado e, ainda por cima, o escorraçou e zombou de sua cara. Amit sabia que, naturalmente, Birbal nunca poderia contar o fato ao rei. Mas Amit havia subestimado o Advogado Birbal. 

No dia seguinte, por vingança, Birbal colocou o mesmo líquido na cueca do rei. 

Moral da História: 

Você pode ficar devendo pro mundo inteiro, até pro capeta, mas nunca, nunca mesmo, pense em dever para Advogados.

sábado, 21 de agosto de 2021

Nada será como antes

 Fraga

Nada será como antes: sabe aquele pessimismo de estimação, sob medida ou flexível, no piloto automático ou no improviso, o velho e bom pessimismo de tocaia na realidade, sempre pronto pro bote em cima dum fato novo? Sisqueça. Daqui pra frente todo pessimismo será insuficiente. 

Nada será como antes: ah, kibon que eram os abraços apertados, os apertos de mão pra valer, os tapinhas nas costas e até a troca de perdigotos amigáveis. Irresistíveis os convites pruma reunião caseira com trocentas pessoas num espaço onde mal cabem 10 ou 15. E, claro, saudades do uso indiscriminado da palavra saudável. 

Nada será como antes: lavar as mãos por lavar, apenas curtir o frescor frio da água no verão ou sua quentura no inverno. Não se pegar suspirando por uma torneira de álcool gel junto à porta de entrada. Nem ter com as compras um encontro compulsório de gelólatras anônimos. Álcool gel, gênero de primeiríssima necessidade, quem diria. 

Nada será como antes: nunca mais entrar num ônibus com naturalidade, pedir licença pra sentar e puxar conversa ou dar trela. Jamais voltar a se firmar nos corrimões pra se segurar. Nem dar um passinho a mais naquele corredor apinhado de corpos suarentos e deseducados. E exaltar, pro resto das nossas vidas, a plaquinha do fale ao motorista somente o indispensável, e exigir dele a recíproca. 

Nada será como antes: e enaltecer elevadores vazios à sua espera, rezar por salas de espera desabitadas, torcer por bancos de praça sem ninguém, e praças sem nenhuma alma. Vibrar por ter se condicionado faz tempo a atravessar pro outro lado da rua ao se deparar com um desmascarado na sua direção. Idolatrar até o fim dos tempos a expressão distanciamento social. 

Nada será como antes: adeus, escurinho do cinema, telona amada, o lugar costumeiro entre as poltronas, o cinema favorito e a ida até lá. Mal vindos os streaming e seus catálogos limitados e medianos, mal vindas as telas dos televisores e as telinhas dos computadores a reduzir a farelos pixelados o impacto de qualquer filme. Maldito o conformismo da mente a palmos dos astros e desgraçada seja essa acomodação dos quadris no sofazão de casa. 

Nada será como antes. Sofrer por não se arriscar a participar de manifestações públicas a favor da ciência e da paz ou contra a idiotice e a violência. Se atormentar por não se atrever a aderir ou conclamar ida às ruas pra derrubar o deprimente da república. Sentir-se cagão pela impotência maior que a do pau. Amargar a expectativa de que a eternidade é isso que taí. 

Nada será como antes. E acho que nenhuma musa inspiradora vai me trazer algum assunto que não seja pandêmico, vacinântico, bozonamista, miliciânico, negaciômaco ou cpidínico etc. Argh! 

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(Do jornal Extra Classe, junho de 2021)

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Historinhas de almanaques

 

“Lembre-se sempre de que o dinheiro não é tudo na vida, mas lembre-se também de arranjar bastante dele antes de dizer essa tolice.”

“Diga-me e eu esquecerei.

Mostre-me e pode ser que eu me lembre.

Mas envolva-me no assunto e eu compreenderei.” 

Provérbio chinês

O homem perguntou a Deus:

- Oh, Senhor, que sois todo-poderoso, que é que significa para Vós um bilhão de dólares?

 - Nem um centavo, respondeu Deus.

- E que é que são 100 mil séculos?

- Menos de um segundo.

- Então, Deus, dai-me um centavo, implorou o homem.

- Claro, espere um segundo. 

É certo e sabido que... 

Por mais quartos que tenha um motel, o sujeito que liga o motor do carro às cinco da manhã é sempre o que está estacionado debaixo da sua janela. 

No banco, no correio ou supermercado, há uma lei universal que você ignora, e o azar é seu: quanto mais curta é a fila, mais devagar ela anda. 

* * * * * * * 

Histórias Portuguesas 

- Conhaques? Uísque? Licores? Cigarros? – perguntou o severo inspetor da alfândega ao passageiro português, assim que este desceu do avião vindo de Lisboa.

- Obrigado, o senhor é muito gentil, disse o passageiro, mas acho que vou aceitar um cafezinho.

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Um jovem executivo português, em sua primeira vista ao Brasil, instalou-se em seu quarto de hotel, chamou o room service e pediu que lhe mandassem um refrigerante. O empregado respondeu solicitamente:

- Pois não, senhor.

O hóspede não entendeu:

- Como, pois não? Pois se estou a pagar!

E o empregado insistiu:

- Pois não, senhor.

O absurdo diálogo se estendeu ainda por algum tempo até que o executivo se deu conta de que, estranhamente, os brasileiros usam pois não para dizer sim, e pois sim para não! 

Negociação 

São necessárias seis pilhas para lidar com advogados:

Uma pilha de documentos;

Duas pilhas de paciência;

E três pilhas de dinheiro.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Uma bela música religiosa

 

I Will Follow Him 

I will follow Him
Follow Him wherever He may go,
And near Him, I always will be
For nothing can keep me away,
He is my destiny.
 

I will follow Him,
Ever since He touched my heart i
 knew,

There isn't an ocean too deep,
A mountain so high it can keep,
Keep me away, away from His love.

I love Him, I love Him, I love Him,
And where He goes,
I'll follow, I'll follow, I'll follow.

I will follow Him,
Follow Him wherever He may go,
There isn't an ocean too deep,
A mountain so high it can keep,
Keep me away,

We will follow Him,
Follow Him wherever He may go,
There isn't an ocean too deep,
A mountain so high it can keep,
Keep us away, away from His love...

I love Him (Oh yes I love Him)
I'll follow (I'm gonna follow) true love

(He'll always be my true love)
Forever (from now until forever)

I love Him, I love Him, I love Him,
And where He goes,
I'll follow, I'll follow, I'll follow,
He'll always be my true love,
My true love, my true love,
From now until forever,
Forever, forever...

There isn't an ocean too deep,
A mountain so high it can keep,
Keep us away, away from His love...

Tradução

Eu O seguirei 

Eu O seguirei

O seguiremos onde quer que Ele possa ir

E perto d’Ele, eu sempre estarei

E nada pode me manter distante

Ele é meu destino 

Eu O seguirei

Desde quando Ele tocou meu coração eu soube

Não há oceano profundo demais

Ou montanha tão alta que possa me manter

Me manter longe, longe de Seu amor 

Eu O amo, eu O amo, eu O amo

E onde Ele for

Eu seguirei, eu seguirei, eu seguirei 

Eu O seguirei

O seguiremos onde quer que Ele possa ir

Não há oceano profundo demais

Ou montanha tão alta que possa me manter

Me manter longe, longe de Seu amor 

Nós O seguiremos

O seguiremos onde quer que Ele possa ir

Não há oceano profundo demais

Ou montanha tão alta que possa me manter

Me manter longe, longe de Seu amor 

Eu O amo (Oh sim eu O amo)

Eu seguirei (Eu vou seguir) verdadeiro amor.

(Ele sempre será meu verdadeiro amor)

Sempre. (De agora até sempre) 

Eu O amo, eu O amo, eu O amo

E onde Ele for

Eu seguirei, eu seguirei, eu seguirei

Ele sempre será meu verdadeiro amor

Meu verdadeiro amor, meu verdadeiro amor

De agora até sempre

Sempre, sempre 

Não há oceano profundo demais

Ou montanha tão alta que possa me manter

Me manter longe, longe de Seu amor

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Música final do filme “Mudança de Hábito”, com Whoopi Goldberg;

A interpretação desta música, tirada do filme, está na internet.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Oliveira Silveira*

 

Eis o homem. Natural de Rosário do Sul, poeta e ativista do movimento negro, Oliveira Silveira completarias 80 anos de idade ontem (16.08.2021). A morte, porém, interrompeu a sua trajetória brilhante em 1° de janeiro de 2009. Entre as façanhas de Oliveira Silveira, está o fato de ter ajudado, e muito, a consagrar o 20 de novembro como dia da Consciência Negra. Formado em Letras, membro do Grupo Palmares, foi um combatente incansável e criativo. Poeta de grande qualidade estética, construtor de imagens fortes e precisas, retratou como poucos a história da opressão dos negros pelos brancos no Brasil. 

Poema sobre Palmares

Nos pés tenho ainda correntes,

nas mãos ainda levo algemas

e no pescoço gargalheira,

na alma um pouco de banzo

mas antes que ele me tome,

quebro tudo, me sumo na noite

da cor de minha pele,

me embrenho no mato

dos pelos do corpo,

nado no rio longo

do sangue,

voo nas asas negras

da alma,

regrido na floresta

dos séculos,

encontro meus irmãos,

é Palmar,

estou salvo! 

(...) 

O muro 

eu bato contra o muro

duro

esfolo minhas mãos no muro

tento longe o salto e pulo

dou nas paredes do muro

duro

não desisto de forçá-lo

hei de encontrar um furo

por onde ultrapassá-lo 

Poeta da resistência, da liberdade e do sofrimento, Oliveira Silveira foi marcante. Eu, que vivo fazendo perguntas ingênuas, pergunto: como foi que um cara desses não parou na Academia Brasileira de Letras? Aliás, faço outra pergunta: até quando a casa de Machado de Assis será dominada por senhores brancos, alguns sem obra literária? 

*Parte da coluna de Juremir Machado da Silva, no Correio do Povo, agosto de 2021