domingo, 30 de dezembro de 2018

Uma história brasileira


Corruptv

Mentor Neto*


Todas as quartas-feiras, o programa vai ao ar em todo o Brasil.

O apresentador é o jornalista Luiz Sobral.

Antes da televisão, Sobral se notabilizou por seu blog, financiado pelo BNDES.

– Boa noite, amigos! Começa agora o “Conheça seu Corrupto”. O programa semanal de entrevistas e debates que conta tudo o que está acontecendo nos bastidores − dos bastidores − da política. Aqui você conhece de perto os nossos mais consagrados corruptos.

Como sempre, você pode fazer perguntas pelo Twitter. E fique tranquilo porque seu nome não será divulgado − pisca para a câmera.

Nossos convidados de hoje são o senador Assédio Neto, o jurista Tarso de Souza e o doleiro Ricardo Goldberg.

A presença do senador naquela noite é especial, pois o programa coincide com a sessão do STF em que estão votando um pedido do Ministério Público contra ele.

Sobral abre o debate:

– Senador, preocupado com o resultado do STF?

O senador se ajeita na poltrona e cruza a perna para transmitir tranquilidade.

– Sobral − muito obrigado pelo convite − claro que não, querido! Quando recebi os oito milhões, cuidei de encobrir muito bem qualquer prova. Guardei tudo na casa do vizinho do cunhado do meu primo.

Sobral olha para a câmera, fascinado com a genialidade do senador.

– É o que eu sempre digo: quem não deve não teme, Sobral. E, com aquela dinheirama toda, eu não devo para ninguém, não é verdade?

Todos riem, divertidos com o savoir-faire do senador.

– Sobral, me permite um aparte? − pede o jurista Souza − Existe uma outra coisa que deve ser levada em consideração nesse caso. A Lei no Brasil é muito rígida no que se refere à corrupção. Hoje, o STF está julgando se deve analisar a análise dos Embargos Adstringentes Iniciais do Tribunal de Primeiras Solicitações do pedido de análise do habeas corpus, entende? Até atingir o senador, vão uns 20 anos. E, se ele se reeleger, aí é coisa pra mais de 30 graças ao foro privilegiado! No Brasil, temos muitas instâncias que impedem que um corrupto seja confundido com um cidadão honesto por engano, percebe?

O jornalista volta-se para o doleiro.

– E você, Ricardo, que foi condenado. Conte aqui para nós como foi sua experiência no presídio de Trancoso.

– Ah, Sobral… não gosto nem de me lembrar. As prisões no Brasil são desumanas, viu? Para você ter uma ideia, minha cela era tão apertada que a TV tinha que ser essas de 50 polegadas.

– Que absurdo! − todos reagem.

– E não tinha nem History Channel! Eu me trancava na sauna praticamente o dia todo. Perdi mais de 3 kg nos oito dias em que fiquei preso.

– Olha aí, STF. Isso sim é um problema que precisa ser resolvido. Onde estamos? Na Turquia? − o senador cobra irritado.

O programa já se encaminhava para o final quando Sobral alerta:

– E olha aí. Acabo de receber aqui a informação que o STF chegou e acaba de negar o pedido de análise da análise do habeas corpus.

O doleiro faz high five com o senador.

Sobral, com o dedo no ponto eletrônico, continua:

– Opa! Mas olha aí… estão me dizendo aqui que o tribunal também pede que o senador devolva… o… o…

– O dinheiro? A fazenda? O jatinho? − o senador pergunta ansioso.

– Não! O celular que o ministro Girair, do STF, esqueceu na sua casa.

(Da IstoÉ, abril de 2018)

* Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olívia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico.


O colégio no Alegrete

Nico Fagundes*


Isto foi em outros tempos. Agora não:** agora a Prefeitura do Alegrete tem na Secretaria de Educação gente buenaça, como aquela moça Suely, descendente direta do grande herói maragato que foi o general Vasco Alves Pereira.

Mas há muito tempo um oficial foi transferido para o Alegrete e botou os filhos num colégio, ainda no tempo da palmatória e do reguaço. Eu mesmo, que não sou tão velho assim, levei muito beliscão torcido, régua pela cabeça, puxão de cabelo de professora e quando chegava em casa ainda o velho Euclides, meu pai − que tinha dito para a professora nos puxar o matambre! − ainda nos passava o laço, outra vez... Tempo brabos! Mas que a gente aprendia, ah, aprendia! Abaixo de pau, mas aprendia.
  
Pois o tal oficial, quando foi receber o boletim dos filhos, estranhou aquelas letras LB, LE, B, M, UB.

O índio velho aguentou no osso do peito, mas no fim do ano quis saber se afinal de contas os filhos tinham passado, ou não, e em que matérias tinham se saído bem. E aí ficou sabendo:

LB → Louco de Bueno.

LE → Louco de Especial.

B → Buenaço.

M → Macanudo (que era melhor nota, equivalente a 10).

UB → Uma Bosta (esse rodava!...).

Do livro “causos de Galpão”, de Antonio Augusto Fagundes (Nico)


* Natural de Alegrete, Rio Grande do Sul, nasceu em 4 de novembro de 1934, o historiador, folclorista, compositor, ator e advogado. Antonio Augusto Fagundes, ou Nico como era popularmente conhecido, faleceu em junho de 2015, com 80 anos. Ainda jovem, foi cronista e repórter na Gazeta do Alegrete e na Rádio Alegrete, onde apresentou programas humorísticos e gauchescos. Em Porto Alegre, trabalhou no jornal A Hora e na TV Piratini. Apresentou por vários anos o programa Galpão Crioulo, na RBS-TV. Nico é autor da letra do Canto Alegretense, uma das músicas mais conhecidas do RS. Ele se formou em Direito, fez uma especialização em História do Rio Grande do Sul e concluiu um Mestrado em Antropologia Social. Pesquisou a formação, a identidade e os costumes do Estado e transformou o que descobriu em livros e canções.

** Ano de 1985.


sábado, 29 de dezembro de 2018

O Julgamento de Frineia



Frineia em frente ao Areópago, 1861, Jean-Léon Gérôme.

Julgamento de Frineia

→ Acusada de profanar os Mistérios de Elêusis foi defendida pelo orador Hipérides, um de seus amantes. O discurso de acusação, de acordo com Diodoro Periegetes, citado por Ateneu XIII. 591, foi escrito por Anaxímenes de Lâmpsaco. Quando Hipérides percebeu que o veredito seria desfavorável, rasgou o manto da bela Frineia exibindo seus seios, conseguindo com isso a mudança no julgamento dos juízes que a absolveram. Outra versão diz que ela mesma tirou suas roupas. A mudança no julgamento dos juízes não foi simplesmente porque eles ficaram fascinados pela beleza de seu corpo nu, mas sim porque, naquela época, a beleza física era muitas vezes vista como um aspecto da divindade ou um sinal de favor divino.


Frineia, 1867. Museu Nacional, Varsóvia, pintura de Artur Grotteger

Frineia, a que chorava sorrindo

Por David Coimbra*

(...)

→ Fortuna, sucesso, beleza e fama, tudo isso possuía Frineia. Transformando-a, evidentemente, em alvo ideal para a inveja do próximo. Donde um certo Eutias, a quem Frineia deve ter repudiado, acusou-a de impiedade. Acusação grave − a pena era de morte. O advogado Hipérides, conhecido causídico grego, ofereceu-se para defendê-la. Não por acaso: Hipérides também se refestelava nos coxins e almofadas de Frineia. Mas, a despeito de toda a habilidade de oratória do causídico, os jurados pareciam inclinados a condená-la.

→ Hipérides estava desesperado, não sabia mais o que fazer. Foi então que, in extremis, convocou Frineia para postar-se em frente aos jurados. Ela foi, linda e obediente. Aí, num gesto brusco, de um único puxão, arrancou a túnica da ré, deixando-a nua como uma coelhinha da Playboy. Os jurados eram duzentos homens. Diante daquele espetáculo, disseram, em grego:

− Ooooohhhhhhh...

→ Ao que Hipérides indagou aos julgadores se eles acreditavam que aquela perfeição seria capaz de cometer um único ato merecedor de censura. Os jurados, sem fôlego, responderam que não, de jeito nenhum, absolveram-na e agradeceram ao advogado pelo show. Frineia saiu do tribunal em triunfo, a fama de sua beleza espalhou-se por todas as ilhas gregas e a tornou mais rica. (...)

→ Esse episódio inspirou nosso poeta Olavo Bilac, (...) que gostava muito de mulher, pode ser classificado como o Vinicius de Moraes do século XIX. Entusiasmado com a história de Frineia, ele escreveu o seguinte poema em seu livro Sarças de fogo.

Mnezarete, a divina, a pálida Frineia,
Comparece ante a austera e rígida assembleia
Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira
Aquela formosura original, que inspira
E dá vida ao genial cinzel de Praxíteles,
De Hipérides à voz e à palheta de Apeles.

Quando os vinhos, na orgia, os convivas exaltam
E das roupas, enfim, livres os corpos saltam,
Nenhuma hetera sabe a primorosa taça,
Transbordante de Cós, erguer com maior graça,
Nem mostrar, a sorrir, com mais gentil meneio,
Mais formoso quadril, nem mais nevado seio.

Estremecem no altar, ao contemplá-la, os deuses,
Nua, entre aclamações, nos festivais de Elêusis...
Basta um rápido olhar provocante e lascivo:
Quem na fronte o sentiu curva a fronte, cativo...
Nada iguala o poder de suas mãos pequenas:
Basta um gesto, − e a seus pés roja-se humilde Atenas...

Vai ser julgada. Um véu, tornando inda mais bela
Sua oculta nudez, mal os encantos vela,
Mal a nudez oculta e sensual disfarça.
cai-lhe, espáduas abaixo, a cabeleira esparsa...
Queda-se a multidão. Ergue-se Eutias. Fala,
E incita o tribunal severo a condená-la:

“Elêusis profanou! É falsa e dissoluta,
Leva ao lar a cizânia e as famílias enluta!
Dos deuses zomba! É ímpia! é má!” (E o pranto ardente
Corre nas faces dela, em fios, lentamente...)
“Por onde os passos move a corrupção se espraia,
E estende-se a discórdia! Heliastes! condenai-a!”

Vacila o tribunal, ouvindo a voz que o doma...
Mas, de pronto, entre a turba Hipérides assoma,
Defende-lhe a inocência, exclama, exora, pede,
Suplica, ordena, exige... O Areópago não cede.
“Pois condenai-a agora!” E à ré, que treme, a branca
Túnica despedaça, e o véu, que a encobre, arranca...

Pasmam subitamente os juízes deslumbrados,
− Leões pelo calmo olhar de um domador curvados:
Nua e branca, de pé, patente à luz do dia
Todo o corpo ideal, Frineia aparecia
Diante da multidão atônita e surpresa,
No triunfo imortal da Carne e da Beleza.

*Do livro “Jogo de Damas – Uma história de grandes mulheres, grandes homens e grandes fatos que determinaram a supremacia feminina”, da L&PM.


Antônio Parreiras - Frineia, 1909

P.S. O interessante é que uma das estátuas de Frineia que sobreviveram repousa agora recatadamente no Vaticano.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Pivete*



Chico Buarque e Francis Hime
  
No sinal fechado,
Ele vende chiclete,
Capricha na flanela
E se chama Pelé.

Pinta na janela,
Batalha algum trocado,
Aponta um canivete
E até...
Dobra a Carioca, olerê,
Desce a Frei Caneca, olará,
Se manda pra Tijuca,
Sobe o Borel.

Meio se maloca,
Agita numa boca,
Descola uma mutuca
E um papel.
Sonha aquela mina, olerê,
Prancha, parafina, olará,
Dorme gente fina,
Acorda pinel.

Zanza na sarjeta,
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané.
Arromba uma porta,
Faz ligação direta,
Engata uma primeira
E até...
Dobra a Carioca, olerê,
Desce a Frei Caneca, olará,
Se manda pra Tijuca
Na contramão.
Dança para-lama,
Já era para-choque,
Agora ele se chama
Emersão.
Sobe no passeio, olerê,
Pega no Recreio, olará,
Não se liga em freio,
Nem direção.

No sinal fechado,
Ele transa chiclete,
E se chama pivete
E pinta na janela,
Capricha na flanela,
Descola uma bereta,
Batalha na sarjeta,
E tem as pernas tortas...

* (...) Pivete composta em parceria com Francis Hime, miniestória do cotidiano de um menor de idade que vive na rua, e já se encontra completamente mergulhado na marginalidade, pela droga e pela violência:

(Ele) batalha algum trocado
Aponta um canivete
(...) Agita uma boca
Descola uma mutuca
(...) Dorme gente fina
Acorda pinel
Zanza na sarjeta
(...) Descola uma bereta

Pivete é a miniestória do cotidiano de um menor de idade que vive na rua, e já se encontra completamente mergulhado na marginalidade, pela droga e pela violência. A total despersonalização do garoto é sugerida pela elipse do sujeito de todos os verbos do texto. A linguagem empregada é a gíria dos marginais: “mutuca” (pacotinho de maconha), “pinel” (adoidado), etc... E quando o autor descreve o roubo de um carro pelo pivete, ficção e realidade se confundem, o autor se torna personagem:

(...) Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até.

Comentário crítico de Cristina Duarte no livro:
“Vivendo a muque. Malandros, pivetes e ladrões
 no cancioneiro de Chico Buarque”

P.S. Escute essa canção na voz do próprio letrista: Chico Buarque, ela está na internet...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Brincadeira


Luís Fernando Veríssimo

 

Começou como uma brincadeira. Telefonou para um conhecido e disse:

− Eu sei de tudo.

Depois de um silêncio, o outro disse:

− Como é que você soube?
− Não interessa. Sei de tudo.
− Me faz um favor. Não espalha.
− Vou pensar.
− Por amor de Deus.
− Está bem. Mas olhe lá, hein?

Descobriu que tinha poder sobre as pessoas.

− Sei de tudo.
− Co-como?
− Sei de tudo.
− Tudo o quê?
− Você sabe.
− Mas é impossível. Como é que você descobriu?

A reação das pessoas variava. Algumas perguntavam em seguida:

− Alguém mais sabe?
− Outras se tornavam agressivas:
− Está bem, você sabe. E daí?
− Daí nada. Só queria que você soubesse que eu sei.
− Se você contar para alguém, eu...
− Depende de você.
− De mim, como?
− Se você andar na linha, eu não conto.
− Certo.

Uma vez, parecia ter encontrado um inocente.

− Eu sei de tudo.
− Tudo o quê?
− Você sabe.
− Não sei. O que é que você sabe?
− Não se faça de inocente.
− Mas eu realmente não sei.
− Vem com essa.
− Você não sabe de nada.
− Ah, quer dizer que existe alguma coisa pra saber, mas eu é que não sei o que é?
− Não existe nada.
− Olha que eu vou espalhar...
− Pode espalhar que é mentira.
− Como é que você sabe o que eu vou espalhar?
− Qualquer coisa que você espalhar será mentira.
− Está bem. Vou espalhar.

Mas dali a pouco veio um telefonema.

− Escute. Estive pensando melhor. Não espalha nada sobre aquilo.
− Aquilo o quê?
− Você sabe.

Passou a ser temido e respeitado. Volta e meia alguém se aproximava dele e sussurrava:

− Você contou pra alguém?
− Ainda não.
− Puxa. Obrigado.

Com o tempo, ganhou uma reputação. Era de confiança. Um dia, foi procurado por um amigo com uma oferta de emprego. O salário era enorme.

− Por que eu? – quis saber.
− A posição é de muita responsabilidade – disse o amigo. – Recomendei você.
− Por quê?
− Pela sua discrição.

Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo sobre todos, mas nunca abria a boca para falar de ninguém. Além de bem-informado, um gentleman. Até que recebeu um telefonema. Uma voz misteriosa que disse:

− Sei de tudo.
− Co-como?
− Sei de tudo.
− Tudo o quê?
− Você sabe.

Resolveu desaparecer. Mudou-se de cidade. Os amigos estranharam o seu desaparecimento repentino. Investigaram. O que ele estaria tramando? Finalmente foi descoberto numa praia distante. Os vizinhos contam que uma noite vieram muitos carros e cercaram a casa. Várias pessoas entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os vizinhos contam que a voz que se ouvia era a dele, gritando:

− Era brincadeira! Era brincadeira!

Foi descoberto de manhã, assassinado. O crime nunca foi desvendado. Mas as pessoas que o conheciam não têm dúvidas sobre o motivo.

Sabia demais.

(Do livro “As Mentiras que os Homens Contam”)

Você sabia que...



Seu nascimento foi através de Outros?

Seus primeiros banhos foram dados por Outros?

Seu nome foi dado por Outros?

Você foi educado por Outros?

A sua renda, ainda que indiretamente, vem por meio de Outros?

Se você quer se divertir, ou faz uma viagem, ir a um show, cinema, teatro, restaurante, estádio, são os outros que lhe servirão.

Quando você adoece é cuidado por outros.

O respeito a si é dado por Outros?

Seu último banho será dado por Outros?

O seu funeral será realizado por Outros?

E os pertences e propriedades serão herdados por Outros?

Então, questiono-me por que motivo alguns de nós deixa o nosso Ego, nosso Tempo, nossa Carreira, nosso Dinheiro e nossas Crenças nos levarem a menosprezar o valor dos Outros.

Está na hora de nos tornarmos mais amorosos, mais humildes e vivermos pacificamente com os Outros.

Porque nesta ida precisamos uns dos outros em todo o Tempo.

Tenhamos gratidão com o próximo!

Cada um de nós é o Outro do Outro.

Vamos cuidar uns dos outros!

Lembre-se:

Em tudo, eu e você precisamos Um do Outro!


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Travessias

O lobo, a cabra e a couve.


Um lobo, uma cabra e uma couve têm de atravessar um rio num barco que transporta um de cada vez, incluindo o barqueiro. Como é que o barqueiro os levará para o outro lado de forma que a cabra não coma a couve e o lobo não coma a cabra?

Como é evidente neste problema, o lobo não pode ser deixado sozinho com a cabra, nem a cabra com a couve.

A primeira versão escrita deste problema é atribuída a Alcuino de York (Problema 18 de  Propositiones ad Acuendos Juvenes, século IX).

Na sua resolução, Alcuino começa por transportar a cabra, depois volta para transportar o lobo para a outra margem, trazendo a cabra de volta, depois leva a couve, voltando por fim para vir buscar a cabra.

A raposa, o ganso e o cesto de milho.

Um fazendeiro tinha de atravessar o rio com uma raposa, um ganso e um cesto de milho. O seu barco só podia transportar um objeto além do homem. Quantas viagens é que ele fez?

Começa transportando o ganso, depois volta para transportar a raposa para outra margem, trazendo de volta o ganso, depois leva o cesto de milho, voltando para trazer o ganso.

O pai e duas filhas.

Um senhor de 80 kg e duas filhas com 40 kg precisam atravessar uma ilha com um barco. Só que tem um problema, o barco só suporta 80 Kg. Como farão para atravessar?

Ele deve mandar as duas filhas, depois um filha deve voltar com o barco; agora ele vai, manda a outra filha voltar também, e por fim irão as duas filhas juntas.

Três soldados e Dois rapazes

Três soldados têm de atravessar um rio que não tem ponte. Dois rapazes concordaram em ajudar os soldados, mas o barco é tão pequeno que só dá para um soldado ou para os dois rapazes. Um soldado e um rapaz não podem estar no barco ao mesmo tempo. Dado que nenhum dos soldados sabe nadar, parece que nestas circunstâncias apenas um soldado conseguirá atravessar o rio. No entanto, os três soldados acabam por conseguir atravessar o rio e devolvem o barco aos rapazes.










Solução:

1) Os dois rapazes levam o barco até o outro lado do rio, um rapaz fica na margem oposta, e o outro volta para trazer o barco para os soldados.

2) Aí um soldado, o primeiro, atravessa o rio sozinho; e o outro rapaz traz o barco de volta.

3) Os dois rapazes atravessam novamente o rio. Um fica na outra margem, e o outro traz o barco de volta.

4) Atravessa o segundo soldado. O rapaz do outro lado traz o barco de volta.

5) Voltam os dois rapazes, repetindo a mesma operação. Um fica e outro traz o barco de volta para a travessia do terceiro e último soldado, que entrega o barco para o rapaz, que volta para a margem onde estava atracado o barco.

Raul Pompeia



Depressivo, escritor se matou após controvérsia política.

Raul Pompeia teve sua carreira de escritor e jornalista interrompida por causa de um discurso inflamado que fez no cemitério São João Batista, em Botafogo, no sepultamento do ex-presidente Floriano Peixoto, a quem ele apoiava como político, afinal tinha cargo de confiança no governo e era época de eleição. O candidato eleito foi prudente de Moraes, que, por sinal, nada gostou e demitiu Pompeia das funções de Diretor da Biblioteca Nacional e de professor de Mitologia da Escola Nacional de Belas Artes.

Isso o deixou impaciente, mais ainda com os ataques pessoais dos colegas e a recusa deles de publicar seus escritos para explicar o porquê do discurso no cemitério. Atuante nos debates de seu tempo, defensor do abolicionismo e da República, Pompeia era de pavio curto. Ele já tinha uma doença chamada depressão. Quando ficava depressivo, sua mãe o tratava.

No dia de Natal de 1895, chegou em casa e falou para ela: “Mãe, as provas estão corrigidas e pagas”. Eram as provas de “O Ateneu”, que havia vendido no ano anterior aos livreiros Alves e Cia. A mãe e as irmãs perguntavam o que tinha acontecido, ele só respondia que estava tudo bem. Todas o vigiavam e rezavam o tempo inteiro, e ele mergulhado naquela crise terrível de neurastenia. Pompeia recolheu-se em seguida ao quarto com sacada que dava para a rua. Decidido, escreveu algumas linhas que lacrou num envelope para ser entregue à redação de A Notícia:

“À ilustrada redação d′A Notícia.

Cumpro o dever de comunicar que, não havendo sido publicado o segundo artigo da minha colaboração, aceita, aliás, em termos benévolos, considero como sem efeito essa aceitação e agradeço a inserção do 25 de dezembro de 1895. RAUL Pompeia.”

Tomou então a pena e rascunhou em meia folha de papel um curto bilhete, complemento do anterior, para reforçar as razões de seu gesto, a destacar o ponto central da enorme confusão de ideias que lhe rondava a mente.

“À Notícia e ao Brasil declaro que sou um homem de honra”. Depois de datar e assinar, recostou-se a um divã e deu um tiro no peito. Eram 13h. Uma vez, dissera: “As horas da Vida são doze. Mas uma hora existe que não incluímos nos reguladores da existência: é a hora da morte.”

José Mário dos Santos*

*Diretor do centro Cultural Raul Pompeia, de Angra dos Reis (RJ), e organizador de um livro com as duas novelas escritas pelo autor, “Uma Tragédia no Amazonas” (1880) e “As Joias da Coroa” (1882), a ser lançada em breve.

(No Caderno de Sábado do Correio do Povo, dezembro de 2018)

Raul Pompeia


Por Daniele Fernanda Feliz Moreira*

→ Raul d’Ávila Pompeia foi um escritor brasileiro autor de uma das maiores obras do Realismo brasileiro, “O Ateneu” 1888. Filho de família abastada, pai magistrado e mãe dona de casa herdeira de ricos comerciantes portugueses, Raul Pompeia nasceu em 1863, em Angra dos Reis, e mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro em 1867, onde é matriculado em um colégio interno, concluindo depois os estudos secundários no Colégio Imperial Pedro II. Foi ainda como estudante do Pedro II, em 1880, com apenas 17 anos, que publicou seu primeiro romance, “Uma Tragédia no Amazonas”.

→ Concluídos os estudos secundários, Raul segue para São Paulo, para cursar Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, instituição onde também havia se formado seu pai. É inicialmente bem recebido por entre os professores, contudo passa a enfrentar problemas no curso por conta de seus posicionamentos políticos contundentes em defesa da abolição da escravatura e da causa republicana.

→ Divergiu de colegas republicanos paulistas em virtude de estes não apoiarem também a abolição da escravatura. Alguns professores se incomodavam com o temperamento de Pompeia, tido como impávido, e criticavam as ideias propagadas por ele e por colegas de forma direta e sem rodeios. Pompeia e outros colegas foram reprovados no terceiro ano do curso. Os alunos receberam apoio da imprensa da época, pediram reexame e conseguiram aprovação com nota mínima, mas foi novamente reprovado no ano seguinte, agora juntamente a outros 94 estudantes, partindo, então, para terminar o curso na Faculdade de Direito de Recife.

→ Após concluído o curso, Pompeia não chegou a exercer a profissão de advogado e passou a escrever para vários jornais da época. Entre estes, o jornal Gazeta de Notícias, veículo pelo qual viria mais tarde a publicar “O Ateneu”, uma crônica que lhe consagrou por entre a crítica da época.

→ Após a queda do Império, com o início da ditadura de Floriano Peixoto, Pompeia é nomeado presidente da Academia de Belas Artes. O governo de Floriano Peixoto, contudo, enfrentava fortes resistências, por entre as quais figuravam vários nomes de amigos próximos de Raul Pompeia, fato que levou ao rompimento de diversas dessas relações de amizade. Após a saída de Floriano Peixoto, com a entrada de Prudente de Morais, Pompeia é desligado do cargo que ocupava como diretor da Biblioteca Nacional, após um inflamado discurso em que saía em defesa de Floriano Peixoto. Os vários atritos políticos com os amigos, por entre os quais, Olavo Bilac e Luís Murat, este amigo dos tempos da faculdade em São Paulo, levaram Pompeia ao suicídio em 1895, no escritório da casa onde residia com sua mãe, deixando um bilhete em que se lia “Ao Jornal A Notícia, e ao Brasil, declaro que sou um homem de honra”.

*Mestre em Ciências Humanas (CEFETRJ, 2014); Especialista em Linguística, Letras e Artes (CEFETRJ, 2013); Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFRJ, 2011).



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Trapezista

Luis Fernando Veríssimo


Querida, eu juro que não era eu. Que coisa ridícula! Se você estivesse aqui – Alô? Alô? – olha, se você estivesse aqui ia ver a minha cara, inocente como o Diabo. O quê? Mas como, ironia? “Como o Diabo” é força de expressão, que diabo. Você acha que eu ia brincar numa hora desta? Alô! Eu juro, pelo que há de mais sagrado, pelo túmulo de minha mãe, pela nossa conta no banco, pela cabeça dos nossos filhos, que não era eu naquela foto de carnaval no Cascalho que saiu na Folha da Manhã. O quê? Alô! Alô! Como é que eu sei qual é a foto? Mas você não acaba de dizer… Ah, você não chegou a dizer… ah, você não chegou a dizer qual era o jornal. Bom, bem. Você não vai acreditar mas acontece que eu também vi a foto. Não desliga! Eu também vi a foto e tive a mesma reação. Que sujeito parecido comigo, pensei. Podia ser gêmeo. Agora, querida, nunca, em nenhum momento, está ouvindo? Em nenhum momento me passou pela cabeça a ideia de que você fosse pensar – querida, eu estou até começando a achar graça −, que você fosse pensar que aquele era eu. Por amor de Deus. Pra começo de conversa, você pode me imaginar de pareô vermelho e colar havaiano, pulando no Cascalho com uma bandida em cada braço? Não, faça-me o favor. E a cara das bandidas! Francamente, já que você não confia na minha fidelidade, que confiasse no meu bom gosto, poxa! O quê? Querida, eu não disse “pareô vermelho”. Tenho a mais absoluta, a mais tranquila, a mais inabalável certeza que eu disse apenas “pareô”. Como é que eu podia saber que era vermelho se a fotografia não era em cores, certo? Alô? Alô? Não desliga! Não… Olha, se você desligar está tudo acabado. Tudo acabado. Você não precisa nem voltar da praia. Fica aí com as crianças e funda uma colônia de pescadores. Não, estou falando sério. Perdi a paciência. Afinal, se você não confia em mim não adianta nada a gente continuar. Um casamento deve se… se… como é mesmo a palavra?… se alicerçar na confiança mútua. O casamento é como um número de trapézio, um precisa confiar no outro até de olhos fechados. É isso mesmo. E sabe de outra coisa? Eu não precisava ficar na cidade durante o carnaval. Foi tudo mentira. Eu não tinha trabalho acumulado no escritório coisíssima nenhuma. Eu fiquei sabe para quê? Para testar você. Ficar na cidade foi como dar um salto mortal, sem rede, só para saber se você me pegaria no ar. Um teste do nosso amor. E você falhou. Você me decepcionou. Não vou nem gritar por socorro. Não, não me interrompa. Desculpas não adiantam mais. O próximo som que você ouvir será do meu corpo se estatelando, com o baque surdo da desilusão, no duro chão da realidade. Alô? Eu disse que o próximo som... que… O quê? Você não estava ouvindo nada? Qual foi a última coisa que você ouviu, coração? Pois sim, eu não falei – tenho certeza absoluta que não falei – em “pareô vermelho”. Sei lá que cor era o pareô daquele cretino na foto. Você precisa acreditar em mim, querida. O casamento é como um número de… Sim. Não. Claro. Como? Não. Certo. Quando você voltar pode perguntar para o… Você quer que eu jure? De novo? Pois eu juro. Passei sábado, domingo, segunda e terça no escritório. Não vi carnaval nem pela janela. Só vim em casa tomar um banho e comer um sanduíche e vou logo voltar para lá. Como? Você telefonou para o escritório? Meu bem, é claro que a telefonista não estava trabalhando, não é, bem? Ha, ha, você é demais. Olha, querida? Alô? Sábado eu estou aí. Um beijo nas crianças. Socorro. Eu disse, um beijo.

(Do livro “As Mentiras que os Homens Contam”)

Gafieira Elite



→ Instalada no mesmo local desde sua fundação, a Gafieira Elite − que viveu seu apogeu com memoráveis bailes orquestrados, serviu de cenário para filmagens e para iniciar amizades − continua animando as noites cariocas e diversificando sua programação, para atrair cada vez mais as novas gerações.

→ Inaugurada com o nome de Elite Club em julho de 1930 pelo proprietário, o português Júlio Simões, logo passou a receber a visita dos mais importantes personagens do mundo artístico. Certa vez, chegou à entrada um jornalista meio embriagado e vestido de maneira inadequada. Ao ser interpelado, ficou irritado e exclamou que “Aquilo era um lugar de gafe, e não um clube de dança!”. O caso acabou sendo citado no jornal e foi a deixa para Seu Júlio rebatizar a casa de Gafieira Elite. Por volta dos anos 50, a Gafieira foi vendida a Juan Page e continua com a mesma família até hoje, sendo gerenciada atualmente por Ester Page.

→ Os bailes da Elite eram sempre animados por grandes orquestras, havia concurso de Musa ou Rainha da Gafieira, dançarinos profissionais davam show na pista e grandes cantores lá se apresentaram, legitimando o sucesso da casa. Para controlar a animação do eclético público, foi criado um estatuto com regras de comportamento que incluíam desde o modo de se vestir aos acalorados beijos na boca. As normas eram tão importantes que o tema serviu de inspiração para Billy Blanco compor a música “Estatuto da Gafieira”. Com o passar dos tempos, algumas regras tiveram que ser abolidas − como entrar de tênis, por exemplo − mas os beijos muito quentes ainda são evitados.

→ Outra adaptação foi feita na programação da casa, que mantém os bailes tradicionais apenas no primeiro e terceiro domingos de cada mês, na chamada Domingueira da Paulinha. Nos outros dias, a juventude lota a pista com festas temáticas e animadas até o dia seguinte clarear. A garotada adora saber que está curtindo o lugar que seus avós frequentavam.

→ Seja através dos mais jovens ou dos mais idosos, como muitos casais que voltam aos bailes para reviver as lembranças do lugar onde se conheceram, a Gafieira Elite vai continuar exercendo sua eterna vocação, proporcionando ao seu cativo público momentos inesquecíveis de pura diversão.


(do Blog Guia Cultural do Centro Histórico do Rio de Janeiro)

Atualmente, com sua charmosa decadência, o local tem um perfil jovem, alternativo e descontraído. As festas sazonais que acontecem nos finais de semana tem como repertório a música brasileira dançante, como Novos Baianos, Mutantes, Chico Science & Nação Zumbi, entre outros. Os preços são acessíveis, inclusive, no bar, que vende três garrafas de cerveja por R$10.

Pelo palco da Gafieira passou muita gente consagrada da música brasileira. Entre tantos, Orquestra Raul de Barros, Orquestra Maestro cipó, Orquestra Tabajara, Caetano Veloso, João Bosco, Beth Carvalho, Billy Blanco, Elba Ramalho e muito, muito mais.


Orquestra Tabajara

Baile no Elite*

João Nogueira e Nei Lopes

Fui a um baile no Elite, atendendo a um convite
Do Manoel Garçom (Meu Deus do Céu, que baile bom!).
Que coisa bacana, já no Campo de Santana
Ouvir o velho e bom som: trombone, sax e pistom.
O traje era esporte, que o calor estava forte,
Mas eu fui de jaquetão, para causar boa impressão.
Naquele tempo era o requinte o linho S-120,
E eu não gostava de blusão (É uma questão de opinião).

Passei pela portaria, subi a velha escadaria
E penetrei no salão. (Quase morri do coração!)**
Quando dei de cara com a Orquestra Tabajara,
E o popular Jamelão, cantando só samba-canção.
Norato e Norega, Macaxeira e Zé Bodega
Nas palhetas e metais (E tinha muitos outros mais.)
No clarinete, o Severino solava um choro tão divino
Desses que já não tem mais (E ele era ainda bem rapaz...).

Refeito dessa surpresa, me aboletei na mesa,
Que eu tinha já reservado (Até paguei adiantado).
Manoel, que é dos nossos, trouxe um pires de tremoços,
Uma cerveja e um traçado (Pra eu não pegar um resfriado).
Tomei minha Brahma, levantei, tirei a dama,
E iniciei meu bailado (No puladinho e no cruzado).
Até Trajano e Mário Jorge, que são caras que não fogem,
Foram se embora humilhados (Eu tava mesmo endiabrado!).

Quando o astro-rei já raiava e a Tabajara caprichava
Seus acordes finais (Para tristeza dos casais).
Toquei a pequena, feito artista de cinema,
Em cenas sentimentais (À luz de um abajur lilás).
Num quarto sem forro, perto do pronto-socorro,
Uma sirene me acordou (Em estado desesperador!).
Me levantei, lavei o rosto, quase morto de desgosto,
Pois foi um sonho e se acabou
(Seu Nélson Motta deu a nota
que hoje o som é rock and roll.)***
(O papo e pop e o hip-hop já chegou e dominou.)****
A Tabajara é muito cara e o velho tempo já passou...).


→ Gafieira Elite continua recebendo muitas presenças ilustres e tem Alcione como madrinha da Casa. O palco do local se chama João Nogueira. Para atrair os jovens, o espaço vem recebendo festas alternativas, mantendo a boemia carioca viva.

*Esta música está na Internet na voz de vários intérpretes, principalmente na voz dos autores: João Nogueira e Nei Lopes.

**Este breque não existe na gravação de João Nogueira, só na de Nei Lopes.

***Este breque existe na gravação de João Nogueira.

**** Este breque existe na gravação de Nei Lopes.

Gafieira Elite

Casa de dança de salão funciona desde 1930 em sobrado histórico e tem ambiente bem animado, música e cervejas.
Endereço: Rua Frei Caneca, 4 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20211-030
Horário: abre sexta-feira às 23 horas
Telefone: (21) 98181-8030 e (21) 3902-9364


sábado, 22 de dezembro de 2018

Canção do Exílio às Avessas



Em 1992, quando o país inteiro pintou a cara de verde e amarelo pra exigir a saída do Collor da Presidência, o Jô Soares Onze e meia foi chamado de “sucursal noturna do impeachment”. O despudor, a arrogância, a ostentação e as atividades ilícitas do período Collor foram acompanhados também na minha coluna de humor da Veja. Alguns desses textos foram aproveitados no livro Humor nos tempos do Collor (o título é uma brincadeira com O amor nos tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez), uma antologia de textos do Millôr, do Veríssimo e meu sobre o período, publicada pela L&PM..

Collor ficara particularmente irritado com a paródia do poema “Canção do exílio”, do Gonçalves Dias, que fiz na minha coluna, brincando com a sua morada em Brasília, a Casa da Dinda. O título era “Canção do exílio às avessas”:

(Texto do livro “O Livro de Jô uma autobiografia desautorizada,
Volume 2, de Jô Soares e Matinas Suziki Jr.)

Canção do Exílio às Avessas*

Jô Soares

Minha Dinda tem cascatas
Onde canta o curió
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Minha Dinda tem coqueiros
Da Ilha de Marajó
As aves, aqui, gorjeiam
Não fazem cocoricó.

O meu céu tem mais estrelas
Minha várzea tem mais cores.
Este bosque reduzido
deve ter custado horrores.
E depois de tanta planta,
Orquídea, fruta e cipó,
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Minha Dinda tem piscina,
Heliporto e tem jardim
feito pela Brasil's Garden:
Não foram pagos por mim.
Em cismar sozinho à noite
sem gravata e paletó
Olho aquelas cachoeiras
Onde canta o curió.

No meio daquelas plantas
Eu jamais me sinto só.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Pois no meu jardim tem lagos
Onde canta o curió
E as aves que lá gorjeiam
São tão pobres que dão dó.

Minha Dinda tem primores
De floresta tropical.
Tudo ali foi transplantado,
Nem parece natural.
Olho a jabuticabeira
dos tempos da minha avó.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Até os lagos das carpas
São de água mineral.
Da janela do meu quarto
Redescubro o Pantanal.
Também adoro as palmeiras
Onde canta o curió.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Finalmente, aqui na Dinda,
Sou tratado a pão-de-ló.
Só faltava envolver tudo
Numa nuvem de ouro em pó.
E depois de ser cuidado
Pelo PC, com xodó,
Não permita Deus que eu tenha
De acabar no xilindró.

(Do livro “Humor nos tempos do Collor)

* Canção do Exílio As Avessas é uma paródia de Jô Soares, usando como texto base a Canção do Exílio de Gonçalves Dias. Esse texto é um dos inúmeros textos parodísticos criados a partir do texto do poeta maranhense.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

As irmãs Batista



→ Dircinha e Linda Batista são casos exemplares de artistas que brilham em determinada época e, depois, são atropelados pelo tempo. Depois de fazerem sucesso entre os anos 1930 e 1950, sucumbiram às mudanças ocorridas no cenário musical na década de 1960. Mas não só: também sofreram com problemas psiquiátricos graves. A história das cantoras é lembrada neste episódio da série “A mulher na música brasileira”.


A cena era chocante e assustadora. No centro da sala, uma mulher gorda, o corpo coberto de feridas, os cabelos desgrenhados, dizia palavrões e ameaçava com uma espécie de borduna a todos que se aproximavam. Próximo, outra mulher vestida com trapos, ria histericamente e dizia palavras desconexas. A um canto, encolhida e catatônica, uma terceira mulher extremamente magra permanecia calada, o olhar perdido. As três mulheres eram irmãs − e pelo menos duas tinham sido famosas: as cantoras Dircinha (63 anos) e Linda Batista (66), e Odete (70), a mais velha.

O apartamento 301 do prédio nº 625 da rua Barata Ribeiro, em Copacabana, estava semidestruído, tacos estavam soltos, as paredes rabiscadas e descascadas, janela quebradas, móveis arrebentados. Com dificuldades, o cantor José Ricardo, o delgado Rui Dourado e soldados do Corpo de Bombeiros conseguiram levar as irmãs até uma ambulância do Inamps, que as conduziu ao Hospital Psiquiátrico Pinel. Do Pinel, Linda foi levada às pressas para a Unidade de Terapia Intensiva da Clínica Rio-Cor. A agitação e a agressividade que a dominavam eram agravadas pela arritmia e pelo diabetes. Seu estado foi considerado crítico pelos médicos que a atenderam. Dircinha e Odete foram levadas para a Casa de Saúde Doutor Eiras. Ambas estavam devastadas pela arteriosclerose e pela desnutrição em grau elevado.

Quem poderia imaginar que ali estavam duas das maiores cantoras brasileiras? Duas cantoras que desfrutaram de fama, riqueza e prestígio, que se tornaram as preferidas de Getúlio Vargas. Que cantaram e interpretaram grandes e inesquecíveis sucessos, até hoje lembrados. Como chegaram àquele ponto?

(Do livro “As Divas da Rádio Nacional”, de Ronaldo Conde Aguiar)


Linda Batista - 1952

→ Florinda Grandino de Oliveira (São Paulo, 14 de junho de 1919 − Rio de Janeiro, 17 de abril de 1988), mais conhecida como Linda Batista, foi uma cantora e compositora brasileira. Era filha de Batista Júnior e irmã de Dircinha Batista.

→ Faleceu em 17 de abril de 1988, vítima de embolia pulmonar, na cidade do Rio de Janeiro.


A família Batista: Batista Júnior e seus bonecos,
e suas filhas: Dircinha, à esquerda e Linda, à direita.


À direita, no microfone, Dircinha Batista.

→ Dirce Grandino de Oliveira, conhecida como Dircinha Batista, à direita, no microfone, (São Paulo, 7 de abril de 1922 − Rio de Janeiro, 18 de junho de 1999) foi uma atriz e cantora brasileira.

→ Vítima de parada cardíaca, a cantora Dircinha Batista morreu às 2h30 de ontem, 18 de junho de 1999, no hospital São Lucas, em Copacabana, na zona sul do Rio. A cantora, que tinha 77 anos e sofria de uma grave disfunção cardíaca, deu entrada na Unidade Coronariana do hospital por volta da 1h, com edema pulmonar agudo e insuficiência respiratória.

P.S. A coleção Irmãs Batista foi doada ao MIS-RJ, em 1988, por Hermínio Bello de Carvalho e é composta por troféus, discos, documentos iconográficos e textuais, entre roteiros, letras de músicas, além de revistas e álbuns com recortes de jornais sobre suas trajetórias artísticas.


Getúlio Vargas, Hermínio Bello de Carvalho e Linda Batista


Ingresso no portão celestial



O Céu estava ficando muito congestionado, então Deus decidiu modificar as normas para ingresso no portão celestial. A nova lei consistia no seguinte: para ser admitido no Céu, o dia da sua morte deveria ter sido um dia realmente terrível. A lei entraria em vigor à meia-noite do dia seguinte.

Sendo assim, a meia-noite e 1 minuto do dia seguinte chega a primeira pessoa nos portões do Céu. O anjo encarregado do portão, lembrando-se da nova lei, prontamente perguntou ao homem:

 Antes de você entrar, eu preciso que me conte como foi o dia em que você morreu.

 Sem problemas, disse o homem. Há algum tempo eu vinha desconfiando que minha mulher estivesse tendo um caso. Eu acreditava que todos os dias na hora do almoço ela trazia seu amante pro nosso apartamento que ficava no 25° andar de um prédio e fazia sexo com ele. Então ontem eu estava indo pra casa para pegá-los. Bem, cheguei lá e entrei rapidamente, começando a procurar o tal rapaz. Minha esposa estava seminua e gritando comigo enquanto eu dava uma busca por todo o apartamento. Mas não conseguia encontrá-lo de jeito nenhum! Quando eu estava quase para desistir, olhei para a sacada do apartamento e percebi que havia uns dedos dependurados. O diabo do rapaz achava que poderia se esconder de mim! Então, eu corri lá para sacada e bati nos seus dedos até que ele largou e caiu lá de cima. Mas você não pode imaginar sua sorte, pois ele caiu em cima de alguns galhos que amorteceram sua queda e ele não morreu. Num acesso de raiva eu entrei no apartamento e peguei a coisa mais pesada que tivesse pra jogar em cima dele. Desliguei a geladeira da tomada e com raiva a atirei lá do 25° andar bem em cima dele. A emoção do momento foi tão grande que em seguida eu tive um ataque do coração e morri quase que instantaneamente.

O anjo sentou e pensou por alguns instantes. Tecnicamente o rapaz teve realmente um péssimo dia e o crime dele foi passional, então o anjo disse:

 OK, senhor, bem-vindo ao Reino dos Céus! − e deixou-o entrar.

Poucos segundos depois, chegou o próximo da fila.

 Ok, eis as regras: antes de deixá-lo entrar, preciso ouvir a respeito do dia de sua morte.

 Claro. Respondeu o homem. Eu estava na sacada do meu apartamento no 26° andar fazendo meus exercícios diários quando escorreguei e cai pela lateral da sacada! Por sorte, no entanto, eu fui capaz de me segurar na sacada imediatamente abaixo da minha. Qual não foi a minha surpresa quando apareceu um homem maluco e ficou batendo nos meus dedos até que eu soltasse e obviamente caísse lá de cima. Eu caí em cima de algumas árvores e galhos que amorteceram minha queda, de modo que eu não morri de imediato. Quando eu estava lá, de rosto pra cima, incapaz de me mover e gemendo de dor eu vi o homem empurrar uma geladeira pela sacada e ela caiu exatamente em cima de mim e me matou.

O anjo quieto e rindo para si mesmo enquanto o homem terminava sua história pensou e disse:

 Muito bem, bem-vindo ao Reino dos Céus! − e deixou o homem entrar.

Poucos segundos depois, o terceiro homem da fila chega ao portão.

 Conte-me como foi o dia em que você morreu.

 Tá legal, mas você não vai acreditar: Eu estava pelado dentro de uma geladeira...


“O efeito Churchill”



Uma vida imensa também se escreve por linhas tortas. Sir Winston Churchill bebia diariamente desde o café da manhã (um de seus cardápios no breakfast: ovos, linguiça, bacon, café, seguido de uísque com soda e um charuto), era glutão (achava o jantar a hora mais importante do dia), fumava charutos o dia e a noite inteiros, a vida toda se sentiu rejeitado pelo pai e pela mãe, não praticava esportes (jogou polo a cavalo, mas não de forma assídua, e, diferentemente da maioria dos ingleses, detestava futebol), travou batalhas imensas sob a pior das tensões (uma guerra mundial cujo destino estava em suas mãos), viajou incansavelmente durante a Segunda Guerra (180 mil quilômetros pelo mar e pelo ar entre setembro de 1939 e outubro de 1943, por rotas totalmente inseguras, podendo ser abatido a qualquer momento), carregava nos ombros curvos a responsabilidade pela vida de outras pessoas como poucos carregaram na história e... morreu com 90 anos. Seu caso é considerado na medicina como “O efeito Churchill”.

Foi um dos raros políticos a permanecer cinquenta anos na Câmara dos Comuns. Como Hitler, gostava de acordar tarde. Trabalhava até as três ou quatro da manhã e tirava uma soneca depois do almoço. Muitos diziam que uma de suas principais armas era a concentração absoluta no trabalho. Ditava seus artigos, livros e discursos. Pronunciou 5,2 milhões de palavras em seus discursos e escreveu 13 milhões de palavras em livros e artigos. Foi o campeão em lutar com as palavras − contra tanques, bombardeiros e granadas. Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1953.


Churchill talvez tenha sido o maior bebedor de champanhe da história. E se não foi o maior pelo menos foi quem disse mais frases memoráveis sobre a bebida:

“Eu bebo champanhe em todas as refeições e, entre elas, baldes de claret com soda.” (O claret cup é um drinque tradicional inglês.)

“Do que eles precisam? De charutos, champanhe e de uma cama de casal.” (Sobre os presentes para o casamento de seu filho Randolph.)

“Nós vivemos de maneira frugal − mas com um bom abastecimento das coisas essenciais da vida: banho quente, champanhe gelada, ervilhas novas e conhaques velhos.”

“Eu não poderia viver sem champanhe: nas vitórias, eu mereço, nas derrotas, eu preciso.”

(...)


Gostei muito do livro O fator Churchill, escrito pelo ex-prefeito de Londres Boris Johnson. Ele conta que havia um ministro homossexual no Partido Conservador com uma conduta pouca condizente com o chamado decoro do cargo. Um dia a polícia o flagrou transando com um soldado da guarda do rei (aqueles da troca da guarda em frente ao palácio, usam o dólmã vermelho e longo chapéu cilíndrico preto e peludo) em praça pública (no Hyde Park), em pleno rigor do inverno. A imprensa escandalosa londrina já tinha a história e foi difícil abafar o caso. O Chief Whip (líder da bancada) não teve saída senão ir relatar o caso a Churchill. O primeiro-ministro o ouviu atentamente, pensou um pouco, deu uma baforada no charuto e então perguntou:

− Ouvi corretamente o senhor me dizer que esse fulano foi flagrado com um soldado do regimento?

− Sim, senhor primeiro-ministro.

− Em um banco de praça?

− Sim, senhor primeiro-ministro.

− Às três da manhã?

− Correto, senhor ministro.

− Neste mau tempo? Meu bom Deus, isso dá na gente um orgulho danado de ser inglês!


Uma das histórias mais famosas da Segunda Guerra Mundial dizia que, numa das vezes em que Winston Churchill ficou hospedado na Casa Branca, estava enrolado na toalha depois do banho, quando o presidente americano Roosevelt entrou inadvertidamente no banheiro. Churchill deixou a toalha cair aos seus pés dizendo:

− Como o senhor vê, nada tenho a lhe esconder...


... Churchill tomou duas atitudes na Segunda Guerra que mostram a dimensão época de sua figura. A primeira foi ter apelado (e sido amplamente atendido) para os donos de barcos civis ajudarem na retirada das tropas de Dunquerque, no litoral norte da França. Parece cena de mitologia grega. A segunda atitude foi quando, depois dos ultimatos para o comandante francês se render na base francesa de Mers-el-Kébir, ter tido a coragem de bombardear os navios (aliados) da França a fim de evitar sua integração à esquadra alemã. Parece até provação bíblica. É preciso ter muita convicção de seus atos para, mesmo na guerra, tomar uma decisão terrível como essa. É como se ele tivesse se atirado de um desfiladeiro, sem proteção, para o julgamento futuro da história. Acabada a Segunda Guerra, Churchill disse que uma “cortina de ferro” (foi o primeiro a usar a expressão) baixava sobre a Europa e previu a Guerra Fria. Talvez ninguém tenha feito mais pela causa da democracia. Ela entrou humilhada na Segunda Guerra e, ao final, saiu mais fortalecida do que nunca como valor universal, em grande parte por causa de Winston Churchill.

(Do livro “O Livro de Jô uma autobiografia desautorizada
Volume 2, de Jô Soares e Matinas Suzuki Jr.)