Campereada
Paulo Mendes
Vi mulheres campeiras andando a cavalo pelos corredores, a pé, conduzindo carroções de quatro rodas, e carretas toldadas. Andavam de calças largas, bombachas velhas arremangadas, camisas puídas, carregando os filhos do jeito que podiam. Da maneira que dava. Nada mais e nada menos do que isso. Sobreviviam. Enxerguei suas mãos grossas e calosas, os sulcos que riscavam no rosto desenhos de dor e sofrimentos. Tinham a pele morena, indiática, os cabelos negros escorregadios, geralmente atados por um trapo. Na cabeça umas boinas, chapéus furados, desses que encontravam abandonados pelos galpões. Soube de seus sonhos frustrados, muitos despedaçados, estilhaçados, vários juntados e, mesmo assim, não davam nem a metade de um
Conheci mulheres colonas, de chapéus de palha na cabeça, olhar perdido nas serras, também com mãos calejadas, com olhos de vidro fosco, onde as lágrimas nem tinham mais onde morar. Eram mulheres duras, que carpiam, plantavam, seguravam arados, colhiam e esperavam. Aguardavam por dias melhores, por melhores colheitas, esperavam em vão por maridos e companheiros que nunca mais voltaram. Mulheres de pele branca que enrugou debaixo das soalheiras de janeiro, de sol a sol temperando as tristezas que brotavam debaixo dos parreirais, das lavouras de arroz, os braços tapados por cicatrizes de arames farpados, sinais da lida bruta, dos dias e das noites que se sucediam.
Vi mulheres negras carregando trouxas nos ombros ou nas cabeças, de cabelos quase raspados, trabalhando como seus ancestrais arrancados da África. Eu vi mulheres guaranis vendendo cestas de vime ao lado das rodovias, mães com seus pequenos rebentos ao lado, quase nus, vivendo à míngua, eles os verdadeiros donos da terra, vilipendiados, corridos a mango e espada das aldeias, dos Sete Povos, de todo o lado. Vislumbrei, de relance, seus olhares acabrunhados, como a pedir desculpas, solicitando apenas compaixão. Vi suas pinturas na cara, ouvi seus gritos, e enxerguei seus curumins seguirem destinos iguais.
Vi mulheres gaudérias, gringas, pretas e indígenas. Vi todas elas, as nossas mães, as formadoras do Rio Grande, e garanto-lhes, temos para com elas uma dívida histórica e impagável. Ao contrário dos livros, das lendas contadas nas casas das cidades, ns escolas e nos centros de tradicionalismo, essas mães choraram e ainda choram pelo descaso e desprezo aos humildes, os que não têm voz, dinheiro, e, às vezes, nem um rancho para morar.
Sofro
todos os dias quando ainda as vejo, as queridas e sofredoras mulheres gaúchas,
de tantas peles e mais outro tanto de olhos de tons variados, as que trabalham,
suam e esperam. Mulheres do campo, dos corredores sem fim do Pampa, moradoras
dos descampados que choram porque não podem dar um futuro digno a seus filhos. Eu
as conheci, as desafortunadas mulheres que sofriam agressões físicas e
psicológicas e, mesmo assim, seguiam.
Mães das periferias de pequenas, médias e grandes cidades, mães das estradas, mães que se acotovelam em coletivos e trens desde a madrugada, trabalham o dia inteiro em casas alheias e quando chegam em seus casebres, já é noite de novo, estão exaustas até para beijar os filhos. Tenham piedade delas, leitores e leitoras. São trabalhadoras, são guerreiras e são merecedoras de nosso respeito eterno.
Crônica do Correio do Povo, 8 de março de 2026.

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