quinta-feira, 25 de junho de 2026

Saldo negativo

 Fernando Correia Pina*

Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu

que amputar uma perna, a frio, de um africano. 

Passa mais fome um francês com três refeições por dia

que um sudanês com um rato por semana. 

É muito mais doente um alemão com gripe

que um indiano com lepra. 

Sofre muito mais uma americana com caspa

que uma iraquiana sem leite para os filhos. 

É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga

que roubar o pão da boca de um tailandês. 

É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça

que queimar uma floresta inteira no Brasil. 

É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana

que o drama de mil desempregados em Espanha. 

É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco

que a de água potável em dez aldeias do Sudão. 

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda

que a de insulina nas Honduras. 

É mais revoltante um português sem celular

que um moçambicano sem livros para estudar. 

É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu

que a demolição de um lar na Palestina. 

Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa

que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês. 

E isto não são versos; isto são débitos

numa conta sem provisão do Ocidente. 

******* 

* Fernando Correia Pina, poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha. Portalegre tem cerca de 16 mil almas. Pina é um barnabé municipal lotado no Arquivo Histórico local.) 

O texto utiliza hipérboles e imagens chocantes para fazer uma dura crítica social, destacando como o mundo globalizado e a mídia ocidental tratam com muito mais comoção e revolta os pequenos problemas do chamado “Primeiro Mundo” do que as graves tragédias humanitárias e desigualdades que atingem os países periféricos e o Sul Global.

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