Fernando Correia Pina*
Dói muito mais arrancar um
cabelo de um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês
com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.
É muito mais doente um alemão
com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma
americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.
É mais perverso cancelar o
cartão de crédito de um belga
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um
papel ao chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.
É muito mais intolerável o
xador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de
papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.
É mais inconcebível a
escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um
português sem celular
que um moçambicano sem livros para estudar.
É mais triste uma laranjeira
seca num kibutz hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.
Traumatiza mais a falta de
uma Barbie de uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês.
E isto não são versos; isto
são débitos
numa conta sem provisão do Ocidente.
*******
* Fernando Correia Pina, poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha. Portalegre tem cerca de 16 mil almas. Pina é um barnabé municipal lotado no Arquivo Histórico local.)
O texto utiliza hipérboles e imagens chocantes para fazer uma dura crítica social, destacando como o mundo globalizado e a mídia ocidental tratam com muito mais comoção e revolta os pequenos problemas do chamado “Primeiro Mundo” do que as graves tragédias humanitárias e desigualdades que atingem os países periféricos e o Sul Global.

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