Luiz Vilela
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Não esperaria mais, que elas podiam voar. Havia seis pousadas agora, juntas. Apontaria numa: às vezes podia errar e acertar na outra perto. Colocou a pedra no couro. Fez a pontaria. O coração começou a bater depressa, contou até dez, apontou, apontou, e deu a estilingada. No primeiro instante viu confundidos as pancadas de seu coração e o voo assustado das andorinhas ‒ e então gritou “acertei!” “acertei!” vendo uma andorinha despencando rente ao poste. Quis logo correr a ela, mas estancou lembrando-se de repente que talvez ela não estivesse morta, pelo jeito de cair ainda parecia viva, teria de se aproximar com cuidado, senão ela poderia fugir. Vira bem onde ela caíra: no monte de capim seco ao redor do poste. Ele acertara e ela estava lá, talvez morta, talvez viva ainda. Pôs outra pedra no estilingue e aproximou-se. Ao curvar-se sobre o capim viu atônito a andorinha voar e deu a estilingada a esmo; viu-a voando rasteiro rente à parede do armazém, e correu a procurar outra pedra que só achou ao fim de alguns minutos; colocou-a no estilingue e correu para a andorinha.
Podia agora vê-la inteiramente: ela estava encolhida no chão, no ângulo formado pelo armazém e uma pilha de tijolos velhos; era uma andorinha de asas muito pretas e luzidias. Não parecia que ia tornar a voar: uma de suas asas estava estirada sobre o chão, e a cabecinha levemente erguida. Ela estava deitada, estava caída, como se não pudesse firmar-se. Pensou que ela talvez estivesse apenas tonta; talvez a pedra só tivesse atingido de raspão e ela fosse voar a qualquer instante. E se ele errasse a próxima pedrada, ela podia assustar-se e desta vez voar para o céu, para longe ‒ e ele teria perdido tudo, perdido a grande sorte que tivera naquela tarde, acertando pela primeira vez.
Mas era engraçado: vendo o pássaro ali no chão, à sua frente, pertinho, não tinha vontade de dar a estilingada. Era muito diferente vê-lo em cima do fio, o peito erguido, a cabecinha destacando-se contra o azul do céu. Ali embaixo, caído no chão, encolhido contra a parede escura e suja do armazém, tão fácil de acertar, ele não tinha mais aquela vontade violenta de dar a estilingada. E era engraçado também como ele estava calmo, como seu coração não estava batendo doidamente.
Caminhou devagar para ela, o estilingue em punho, esperando apenas o primeiro movimento dela para desferir a pedrada. Mas ela não se movia. Talvez não estivesse apenas tonta; talvez estivesse ferida, tão ferida que não podia mover-se. Chegou bem perto: ela encolheu-se um pouco mais contra a parede, mas não fez ameaça de voar; havia qualquer coisa: ela não voaria. Afrouxou o estilingue e ficou olhando. Percebeu o medo no olhinho que piscava, sentiu-se poderoso e cruel diante da insignificância e fragilidade do pássaro. Estava ali sem fuga, sem voo, sem distância, sem erro, o que seria seu primeiro pássaro ‒ por que não dava logo a pedrada mortal? Por que não o matava?
Agachando-se, estendeu a mão devagar para não assustá-la, e então segurou-a: ela não se debateu: e antes que abrisse os dedos para olhar, sentiu a umidade e compreendeu que era sangue: a pedra havia acertado de cheio. E então teve raiva; teve raiva de si mesmo, do domingo, e do que fizera; teve raiva; teve raiva de sua astúcia, sua espera, sua alegria, e agora sua impotência: sabia que a andorinha ia morrer, sabia que ela ia morrer e que não podia fazer nada.
Do livro “O Violino e outro Contos”, de Luiz Vilela

Passei pela mesma triste e dolorosa experiência quando menino. "Pendurei" meu estilingue e nunca mais o utilizei. Texto pungente!
ResponderExcluirE eu, amigo Deraldo, nunca consegui acertar em nenhum passarinho, graças a Deus!
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