A coisa aqui tá preta
Chico Buarque por Quinho
Meus caros amigos era o nome do disco. “Meus caro amigo” era a canção. Nascida de uma provocação ‒ enquanto o disco ganhava um título no plural, a canção foi batizada no singular ‒, a composição tinha por principal característica levar um recado direto a um amigo que estava exilado. Morando em Portugal, Augusto Boal pouco recebia notícias do Brasil e ‒ por isso mesmo – cobrou certa vez de Chico que lhe enviasse mais informações. O pedido foi atendido.
Registrada numa fita cassete, a gravação chegou a Boal através de sua mãe, que foi a portadora e responsável pela entrega. Assim, “Meu caro amigo” foi ouvida em Portugal pela primeira vez durante um almoço na casa de Boal, em Lisboa, no bairro Campo Pequeno, onde o diretor teatral reuniu familiares e também amigos que se encontravam no exílio, dentre eles Darcy Ribeiro e Paulo Freire. “Falávamos de tristezas, e ouvimos um canto de esperança”, recordou o teatrólogo, anos depois, em depoimento para o livro Chico Buarque do Brasil.
Choro acelerado marcado pela flauta de Altamiro Carrilho, a letra de “Meu caro amigo” começava com Chico pedindo desculpas ao destinatário por não poder lhe visitar ao mesmo tempo que justificava que sua intenção não era provocar ou atiçar velhas saudades. Reclamando da impessoalidade de um telefonema e desconfiando da lisura dos Correios ‒ naquela época, as cartas também eram censuradas ‒, Chico explicava que a melhor maneira de se comunicar seria mesmo tendo o disco como veículo: “Se me permite/ Vou tentar lhe remeter/ Notícias frescas nesse disco”.
Do livro “O que não tem censura nem nunca terá”,
de Márcio Pinheiro.
Meu caro amigo, me perdoe, por favor,
Se eu não lhe faço uma visita.
Mas como agora apareceu um portador,
Mando notícias nessa fita.
Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol.
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.
Muita mutreta pra levar a situação,
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça,
Que a gente vai tomando e também sem a cachaça,
Ninguém segura esse rojão.
Meu caro amigo, eu não pretendo provocar,
Nem atiçar suas saudades.
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades.
Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol.
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.
É pirueta pra cavar o ganha-pão,
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro,
Que a gente vai fumando e também sem um cigarro,
Ninguém segura esse rojão.
Meu caro amigo, eu quis até telefonar,
Mas a tarifa não tem graça.
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa.
Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol,
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho,
E a gente vai se amando que também sem um carinho,
Ninguém segura esse rojão.
Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever,
Mas o correio andou arisco.
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco.
Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol,
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.
A Marieta manda um beijo para os seus.
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças.
O Francis aproveita pra também mandar lembranças,
A todo o pessoal, adeus!

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