domingo, 11 de janeiro de 2026

O direito de fantasiar

 Fabrício Carpinejar

O bullying que sofreu Maria, de São Valentim (RS), acabou sendo planetário. Virou linchamento.  

Tudo porque ama um ator: Brad Pitt, que a arrebatou com sua atuação no filme Entrevista com o Vampiro. 

Tudo porque inventou de dizer que estava no aeroporto esperando o sessentão sex symbol desembarcar, e cismou em manter essa narrativa para o filho de 12 anos, mesmo diante da Brigada Militar, na noite de 24 de dezembro. Quis fantasiar até as últimas consequências e correu riscos ao fazê-lo em voz alta, com testemunhas, o que levantou a suspeita de um estelionato amoroso: imagine Brad Pitt em Erechim? 

Não estava louca, mas feliz ao experimentar, por um momento, a sua excentricidade inofensiva. Talvez tenha contado equivocadamente com a empatia dos outros, com a hipótese de que não seria levada a sério, exceto pelo filho. 

Não havia maldade. Buscou se dar de presente de Natal essa aventura gratuita.  

De repente, Maria viu sua vida desmoronar. Segundo seus relatos, a depressão e a ansiedade se agravaram. Amargou afastamento familiar, chegando inclusive a ser bloqueada por uma das filhas. Perdeu sua paz e sua privacidade. 

Foi vítima da ausência de imaginação de nossa época, do quanto o mundo das redes sociais não exibe a mínima compaixão com quem sonha de olhos abertos. 

Foi imediatamente rotulada como ingênua, como alguém que supostamente caiu em um golpe de inteligência artificial.  

O que era uma homenagem logo migrou para o falso testemunho. 

Há um tanto de etarismo no preconceito contra Maria. Se fosse uma adolescente apaixonada por uma estrela de Hollywood, aspirando ao altar impossível, ninguém criticaria. A questão é que ela tem 54 anos e já não poderia mais fugir da realidade. Precisa ser exata, condenada à racionalidade extrema. 

Eu gostaria que, com a globalização do incidente, Brad Pitt ficasse sensibilizado e oferecesse uma lição: viesse a Erechim para passar um dia com sua fã, tirasse uma selfie no pórtico da cidade, passeasse pelo Parque do Arvoredo, almoçasse na Churrascaria Alto Uruguai. 

Só para assistir aos vampiros cuspindo de volta o sangue que sugaram do pescoço de Maria. 

Publicado em gzh digital

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