quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Quem chora e quem partiu

 

Imagem da Revista Prosa Verso e Arte

As viúvas da canção: 

As “Marias e Clarices” mencionadas na música “O bêbado e a equilibrista” são referências diretas a Maria Fiel e Clarice Herzog, viúvas de homens assassinados pela ditadura militar brasileira.  

Maria Fiel era a esposa de Manuel Fiel Filho, um operário metalúrgico que foi preso e torturado até a morte em janeiro de 1976, nas dependências do DOI-CODI em São Paulo. 

Clarice Herzog era a esposa de Vladimir Herzog, um jornalista e professor que foi assassinado nas mesmas dependências do DOI-CODI, em outubro de 1975.  

A letra da canção, escrita por Aldir Blanc e musicada por João Bosco, e imortalizada na voz de Elis Regina, usa essas duas figuras como símbolos de todas as esposas, mães e viúvas que sofreram com a perseguição e as mortes arbitrárias do regime militar, clamando por justiça e anistia em um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. A música tornou-se um verdadeiro hino da anistia no país.  

O irmão mais famoso do Henfil era Betinho (Herbert José de Sousa), um sociólogo e ativista de direitos humanos, celebrado pela música “O bêbado e a equilibrista”, que o citava como “irmão do Henfil” em seu retorno do exílio. 

Quem teve que partir: 

(num rabo de foguete) 

Caetano Veloso: Um dos líderes do movimento Tropicalista, foi preso em dezembro de 1968, poucos dias após a decretação do AI-5. Após ser solto, recebeu a “sugestão” dos militares de deixar o país e exilou-se em Londres, onde permaneceu até 1972. 

Gilberto Gil: Amigo e parceiro de Caetano no Tropicalismo e na militância, foi preso na mesma época e pelo mesmo período. Exilou-se com Caetano em Londres. 

Chico Buarque: Outro ícone da Música Popular Brasileira (MPB) e da resistência cultural teve muitas de suas peças e músicas censuradas. Exilou-se em Roma, na Itália, onde fez shows para poucas pessoas durante o período. 

Oscar Niemeyer: O renomado arquiteto, devido às suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro, também foi forçado a se exilar, vivendo em Paris e trabalhando em diversos projetos internacionais durante o regime militar. 

Taiguara: Considerado o compositor brasileiro mais censurado na história da MPB, teve quase todas as suas músicas proibidas e também precisou se exilar para continuar sua carreira.  

O irmão do Henfil, Herbert José de Souza, o Betinho (1935-1997), foi um sociólogo e ativista brasileiro, símbolo da luta por direitos humanos e contra a fome, fundou o Ibase e liderou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, mobilizando milhões por cidadania e solidariedade, mesmo enfrentando hemofilia e AIDS, contraída em transfusões. Sua trajetória incluiu militância na Ação Popular (AP), exílio durante a ditadura militar, e um forte compromisso com políticas públicas e a ética na política.

Outros nomes importantes, como Milton Nascimento e Rita Lee, também sofreram intensa perseguição e censura, mas conseguiram driblar o regime de maneiras diferentes, embora com grandes dificuldades pessoais e profissionais. O exílio foi uma realidade para milhares de brasileiros que se opunham ao regime autoritário. 

O bêbado e a equilibrista 

Aldir Blanc e João Bosco 

Caía a tarde feito um viaduto,
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos.

A lua, tal qual a dona dum bordel,
Pedia a cada estrela fria,
Um brilho de aluguel.

E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas,
Que sufoco louco!

O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil.
 

Meu Brasil que sonha
Com a volta do irmão do Henfil,

Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
.
Chora a nossa pátria mãe gentil,
Choram Marias e Clarices

No solo do Brasil. 

Mas sei que uma dor assim pungente,

Não há de ser inutilmente,
A esperança dança
Na corda bamba de sombrinha,
E, em cada passo dessa linha,
Pode se machucar.
 

Azar,

A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar...

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