quinta-feira, 16 de maio de 2024

Quando a água subiu

 Ana Helena Lopes

O entrevistador, microfone na mão, encontrou-se com ela. As roupas de doação aquecendo o corpo. O colchão arrumadinho, até uma pelúcia fazendo companhia para a menina. 

‒ O que eu estava fazendo? Eu tinha acabado de dar banho na menina. Estava pegando os ingredientes pra fazer um bolo. A menina tem medo da chuva, Cazé também. Então, quando chove forte, eu faço bolo pra ela e cafuné nele. Pra acalmar o coração deles, num é? 

Não, Cazé não é o pai da menina, não. Esse sumiu por aí. Cazé é meu cachorro. Nos encontramos na rua perto do serviço. Ele tremelicando de frio, eu, de solidão. Isso já faz mais tempo que a menina. 

Então eu estava lendo o livro de receitas da minha avó quando a água subiu. Foi rápido... como foi! Eu subi na cadeira com a menina num braço, o Cazé no outro. 

Agora eu vou chorar, o senhor me perdoe. É que o Cazé é grande... Em pouco tempo, a cadeira já estava nadando ao nosso lado. Eu segurei tão forte, mas uma hora meu braço se soltou do Cazé. Ele foi sendo levado pra longe com o olho arregalado. Eu, agarrada na menina, berrando o nome dele. 

Eu falo dele no presente, o senhor sabe... ainda tenho um fio de esperança que um barquinho vá chegar com ele dentro. 

Tem noite, aqui no abrigo, que eu acordo com febre, chamando pelo Cazé. A menina nem se assusta mais, ela faz carinho no meu rosto e diz: “Mamãe, o Cazé foi com Deus, lembra?”. Ela jura que viu Deus tirando o Cazé da água e levando ele pro céu. 

Aí eu ponho ela dentro do meu abraço e choro até secar. Mas, olha, vou ser sincera com o senhor, se eu pudesse botava ela de novo dentro de mim. Porque quando chega a madrugada, a gente sente medo de tudo. Eu quase nem prego o olho. Ontem mesmo vi um homem rondando a infância da minha menina. E ele dorme no colchão aqui ao lado... 

Nos primeiros dias, eu chorava tão alto... Agora eu choro pra dentro. E meu o coração quase morre afogado. 

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Conto em homenagem a tantas mães, a tantas meninas e a tantos Cazés que viram a água levando seus sonhos durante as enchentes no Rio Grande do Sul, em maio de dois mil e vinte e quatro.

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