sexta-feira, 3 de maio de 2024

Quando foi que a gente desaprendeu a sonhar?

 Mia Couto

Quando foi que a gente anuviou o olhar e parou de contar estrelas, plantar roseiras, ver borboletas no jardim? 

Quando foi que a gente se engessou e não soube mais desenhar na areia, rabiscar o chão, as paredes, pintar primaveras? 

Quando foi que a nossa voz se calou, o nosso canto adormeceu e a gente soltou a mão, saiu da ciranda, encerrou a brincadeira? 

Onde foi que a gente se perdeu? Em quais esquinas a gente se perdeu? 

Onde ficaram os dias de chuva, a cerca florida, a terra molhada, o namoro no portão? 

Onde se esconderam os suspiros, a canção que vinha de longe, os verões intermináveis? 

Quando foi que a gente desaprendeu a sonhar? 

E fechou a janela. 

E escureceu a paisagem. 

E esqueceu como é que se escreve sau-da-de. 

Quando foi que a gente deixou de viver, desaprendeu a respirar, se aprisionou nas urgências, na pressa dos dias? 

Quando foi que a gente deixou de viver? Viver de verdade?

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Mia Couto, pseudônimo de António Emílio Leite Couto, nasceu em Beira, cidade de Moçambique, em 1955. Filho de portugueses, estudou medicina, praticou o jornalismo e foi militante da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), tendo trabalhado para o governo à época da guerra civil (1976-1992). Formou-se em biologia, atividade que exerce ainda hoje, além de dedicar-se a estudos de impacto ambiental em Moçambique. Estreou na literatura com o livro de poesia Raiz de orvalho, em 1983 e, três anos depois, lançou seu primeiro livro de contos, Vozes anoitecidas. Desde então, frequenta diversos gêneros da prosa ‒ de romances, contos e novelas, a histórias infanto-juvenis e crônicas. Considerado um dos escritores moçambicanos mais conhecidos internacionalmente, tem seus livros traduzidos para o alemão, francês, inglês, italiano e catalão. Em 1999, conquistou o Prêmio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da obra e, no ano passado, o Prêmio União Latina de Literaturas Românicas. Entre seus títulos mais consagrados estão Terra sonâmbula (1992), selecionado pelo júri da Feira Internacional do Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século 20, com o qual obteve o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995, O último voo do flamingo (2000), com o qual obteve o Prêmio Mário António de ficção, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002), tornado filme pelo português José Carlos Oliveira e O outro pé da sereia (2006), pelo qual recebeu o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, na 12ª Jornada de Literatura em Passo Fundo (RS), em 2007.

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