quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O discurso do velhinho

 

Essa também se passa numa pequena cidade do interior gaúcho, numa época de eleições municipais. Um senhor, pequeno comerciante da comunidade, sorridente e simpático, começa, timidamente, o seu discurso para uma pequena plateia de curiosos na pacata pracinha da cidade: 

‒ Meus senhores, minhas senhoras, povo desta comunidade! 

Alguém, no meio do pequeno grupo, grita só de sacanagem: 

‒ Cala a boca, velho! 

O senhor para de falar, encara a pequena plateia e diz alto e convicto de suas palavras: 

‒ Meu futuro correligionário, ser velho é uma condição que vai além da idade cronológica, envolvendo construções sociais, psicológicas e biológicas, entendeu? Mas como eu ia dizendo... 

Mais uma vez, um desocupado grita bem alto: 

‒ Não incomoda, ancião! 

‒ Meu jovem, ser ancião abrange tanto a ideia de maturidade e sabedoria ligada à idade avançada quanto o papel de liderança espiritual e comunitária, vê se aprende esta lição. Volto ao meu discurso, meus senhores e minhas senhoras... 

Novamente, um gaiato grita no meio das poucas pessoas presentes no local: 

‒ Cala a boca, decrépito! 

O velhinho responde, encarando a galera: 

‒ Meu amigo, se ser decrépito é referir-se ao estado de decadência física, mental ou estrutural extrema, geralmente causado pelo envelhecimento avançado ou por profundo desgaste natural, eu não sou nada disso. Falei! 

O velho candidato começa a ficar impaciente e nervoso. Seu rosto já está ficando vermelho de raiva. Então, ele recomeça a sua fala: 

‒ Mas como eu ia dizendo, se não for mais uma vez interrompido, meus senhores e minhas senhoras! 

Quando um sacana resolve pegar pesado com o velhinho: 

‒ Cala a boca, velho brocha! 

O idoso encara a plateia, olha bem para o sacana e descarrega sua cólera, agora sem medir as suas palavras: 

‒ Velho brocha! Brocha é a puta que o pariu!

Nenhum comentário:

Postar um comentário