quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O cachorro fantasma

 Mário Corso

Os primeiros dias de Ana em Porto Alegre foram difíceis. Precisava se adaptar à faculdade e à cidade ao mesmo tempo. Seu consolo, e único elo com o passado, era Tarzan ‒ um cachorro minúsculo, mas esperto e devotado a sua dona. Seu latido era tão fraco que nem para ser esganiçado servia. Faziam dez anos que viviam em harmonia, embora ele detestasse os namorados de Ana. 

Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Tarzan estava jurado de morte, na verdade, de expulsão. O condomínio não permitia cães. Hoje a história espanta, mas estávamos nos anos 1980, no tempo que linguiça ainda tinha trema, e a tolerância com animais de estimação era outra. 

A maioria dos moradores do prédio até tinha uma simpatia pelo Tarzan, mas a subsíndica estava numa cruzada, e o síndico tinha que seguir a convenção. A queixa era os latidos anêmicos quando pessoas passavam perto da porta. A pressão foi tanta que Ana chamou os pais para levar o cachorro. 

Ana tinha pouca chance de ir ver sua família e o Tarzan. O Alegrete não fica na esquina, mas a 492 quilômetros daqui. Nem para seu aniversário conseguiu ir. 

Uma semana depois da data, Ana recebeu pelo correio uma fita cassete com mensagens de aniversário dos parentes e amigos. No final uma brincadeira, a última mensagem era latidos do Tarzan. 

Ana ouviu a fita várias vezes, sempre emocionada. No outro dia, constrangido, o sindico bate na porta. A Dona Mercedes, a subsíndica, reclamou outra vez dos latidos do Tarzan. 

Ana deu-se conta do que aconteceu, mas não comentou nada. Fez o síndico entrar e ver que não havia cachorro. Na cabeça, bolava a vingança que o destino lhe entregou de graça. 

Dona Mercedes era de hábitos. Cedo de manhã, levava o lixo para fora. Controlando pelo olho mágico, Ana aproveitava a passagem dela, de ida e de volta, para reproduzir os latidos do Tarzan. 

Passados uns dias, o síndico veio com Dona Mercedes para mostrar a ela que não havia nem Tarzan, nem outro cão. Acrescentou que só ela no prédio escutava os tais latidos. 

Ana aproveitou a ocasião para, com uma mentira, dar o golpe final. 

‒ Dona Mercedes, só se a senhora é sensitiva para ouvir o Tarzan. Ele morreu de tristeza logo que foi embora. 

Crônica inserida no jornal Zero Hora de 23.09.2026.

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