Paulo Mendes
Passada a Semana Farroupilha os dias de acampamento, das noites de acordeón e guitarras, milongas e chamamés, é hora de entendermos a identidade gauchesca construída com muitos sacrifícios. Não fomos forjados numa semana, num mês ou num ano. São séculos de edificação diária, de determinação e perseverança.
Se neste setembro (de 2026) nos debruçamos sobre o povo guarani e a ele dedicamos tantas homenagens, que sigamos reverenciando os povos originários, os verdadeiros donos da terra, que foram trucidados, os charruas, os caigangues, todos eles, hoje vivendo esmolando pelas calçadas das grandes cidades. Muitos ainda questionando alguns poucos programas sociais a eles destinados.
Os valores e os sentimentos tão difundidos e exaustivamente cultuados nos folguedos de setembro, como amizade, honra, companheirismo, fidalguia, respeito, alegria e tantos outros deveriam ser continuados e celebrados sempre e não somente numa época festiva. Quem sabe, aproveitamos para lermos mais sobre nosso Estado, fazendo uma lista de livros e escritores, poetas, por exemplo.
Podemos começar lendo ou relendo desde “Antônio Chimango”, de Ramiro Barcellos, seguindo por João Simões Neto, Apparício Silva Rillo, Aureliano de Figueiredo Pinto e terminando em nomes atuais como Alcy Cheuiche, Tabajara Ruas e Sérgio Metz.
As peleias diárias seguem, assim como as nossas demandas como seres preocupados e interessados na cultura gaúcha, além dos nossos usos e costumes. É necessário termos sempre em mente que devemos ter disciplina, para que possamos com nosso corpo e com nossa mente ampliar nossa capacidade de sermos respeitados. Assim, gente próxima de nós dará mais atenção ao que fizermos ou dissermos sobre qualquer assunto.
Lembro de uma frase do escritor Ricardo Güiraldes, no famoso “Don Segundo Sombra”, em que o argentino diz que o gaúcho se carrega na alma. É exatamente isso, o sentimento “gaucho” não reverbera nas pilchas que usamos, mas na nossa postura sempre na defesa consciente de nosso passado, tendo discernimento e, além de tudo, muito respeito pelas demais culturas de todos os povos. Não somos melhores e nem piores do que ninguém, apenas somos diferentes.
Que venham novos dias e surjam novos horizontes. Seguiremos aqui neste meridiano, sentindo a friagens dos invernos implacáveis, os calorões dos janeiros suarentos. Esta é nossa vida, nosso chão e nosso destino. Estaremos preparados para novos combates.
Crônica “Campereada” do jornal Correio do Povo,
de 27.09.2026.

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