segunda-feira, 17 de março de 2025

A manha da aranha

 Ivan Carvalho 

(Cronista)

Vou te bater, meu considerado, que a vida do ex-apenado não é mole não. Não é feito mastigá água, que isto qualquer um faz. Arrumá um bate-fundo de carteira assinada é cobra de colete. 

Como faz? Tu te vira, meu mano. Agora tô com este carrinho aí catando papelão e garrafa pet. Dá pra boia do dia, que morar a gente mora no mundo mesmo. Eu e estes dois cuscos que grudaram em mim com a graça de Deus Nosso Senhor, porque são a minha companhia e a minha alegria. 

Já fiz de um tudo na vida. Logo que te cospem do Central, os carinhas vêm em cima tipo mosca querendo te levar pro crime: tráfico, assalto, mão grande, etc. Até botam um cano da tua mão e patati e patatá. Te prometem mundos e fundos, mas a real é que tu vai sê boi de piranha e, certinho como a chuva cai pra baixo, o primeiro a vê o sol quadrado, se no caso de algum erro. É a lei da bandidagem, tem os manda-chuva e os mocorongos. Se tu é muquifa, como eu, leva a parte da merreca e ainda te entregam de bandeja nos acertos com a rataria, que os caras têm que mostrar serviço, prendê alguém, né? 

Eu entrei nessa uns tempos e caí fora, nem sei te contá como. As pinta me azucrinaram o que deu e até me prometeram metê num microondas da pirelli. Mas me safei pelos buracos da cidade e esqueceram de mim, que onde some um trouxa logo aparece outro. Me mocozei na casa dum aparentado em Viamão. Capinava numa horta que ele tinha, prá não dizê que eu tava encostado. Mas o bicho morava com uma zinha fuleira e brigona, tipo uma ariranha, que não ia com a minha lata, assim, de gracinha. Porque eu tinha puxado cana, tava na cara. Só sei que o cara me veio com uma conversa cheia de bico. Saquei o drama e dei o pira, que se a gente fica onde não te querem é chato e perigoso. 

Arrumei um bico de ajudante numa birosca na Degolada. O dono tinha três boquinhas daquelas e passagem pelo Partenon também. De modo que tava tudo em casa. Ficava ali servindo martelo de cana malhada pra vagabundo e dormindo numa cama-de-gaita no fundo. Não era bom nem ruim. Mas ia levando e podia tá lá até hoje se não fosse o enrosco. Em vila, onde tem pila, por menor que seja, tem confusão. Neguinho tem olho maior que a cara e não pode ver ninguém com o boi na sombra que já qué. Toma, estraçalha, dá de mão. Aí que o dono da minha birosca comprou briga com um infeliz que também tinha umas três ou quatro destas na vila. E ficaram se jurando que um ia tomar do outro e perrepepé e bico de pato. 

Esse tal outro, que tinha o apelido de Pança, era um acordado muito do perigoso,  numa noite juntou uma curriola e meteu fogo nas três biroscas do meu patrão. Eu tava dormindo no fundo e escapei por pouco. Passei cinco dias nos queimados do HPS pelado e no ar fresco. Sai de lá pior que uma múmia de tanta atadura. 

O dono da birosca se pirulitou da Degolada com medo que o Pança jantasse ele. E eu na rua, todo queimado, chamando urubu de periquito. Nesta época, tenho até vergonha, comia o que catava no lixo e dormia embaixo do viaduto da Protásio. Comi o pão que o capeta amassou com o rabo. Mas fui melhorando e só me sobrou esta cicatriz feia aqui no braço. Até saí no lucro, se dá pra dizê assim. 

O cara que dormia do meu lado no viaduto tinha um carrinho e juntava coisas pra vender. Era o rico da ratatuia. Um dia, não acordou de manhã. Bateu a caçuleta. Acho que de tanta canha. Me adonei do carrinho dele, que era certo que alguém ia se adiantar e melhor que fosse eu. Peguei e dei o pira do viaduto, na manha da aranha, pra evitar bateção de boca. Hoje, arrumei até um nome bonito pra este batente: faço Coleta Seletiva. Vendo prum galpão de reciclagem. 

Nas minhas andanças me apareceram estes dois abençoados peludos que não me largam por nada. Só eles gostam de mim e vamo junto até o fim de quem for primeiro. 

Bom, meu mano, já falei até demais e quem não junta não vende. Obrigado pela ceva e pela atenção. Vamo nessa. 

Pretinho e Lobo, comigo! 


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