Ivan Carvalho
Darci e Dorci bem que poderiam ter nomes trocados. Existem várias mulheres chamadas Darci e tive, certa vez, um vizinho chamado Dorci. Mas isto não vem ao caso. O fato é que eram casados há muitos anos. Uma quarta feira ele pegou uma bacia d'água, colocou meio copo de Pinho Sol e lavou os pés no capricho. Depois fez a barba, encharcou-se de Aqua Velva, vestiu-se. Pegou a lambreta e saiu. Dorci ficou embasbacada com aquilo. Nunca vira o marido desinfetar os pés em mais de 15 anos.
Foi correndo na concunhada, que morava duas casas à esquerda, e relatou o ocorrido. Odete, este o nome dela, amarrou os cabelos com uma borrachinha de dinheiro, fez um certo suspense de quem é calejada no ramo e sentenciou:
‒ Mulher, minha filha, mulher...
‒ Mas tu achas mesmo?
‒ Clarineta! Ninguém lava os pés com pinho sol por nada. Conheço a peça, é como o traste do irmão. Nunca lavou nem com sabão Rola! Tem piranha nesse rio.
Dorci voltou para casa cheia de certeza. Desde que o marido comprara aquela lambreta de segunda mão, andava cismada. O que dá de um quarentão, baixinho e de nariz pontudo, virar lambreteiro?
O Brasil fervilhava naquele 1º de abril. Brizola gritava no rádio que o Jango estava chegando. Mas Dorci só pensava nos pés lavados com pinho sol e numa maneira de revidar a traição.
Darci, segundo consta, voltou e levou, de entrada, uma vassourada na nuca. A lambreta foi agraciada com um litro de querosene e um fósforo. Queimou enquanto Darci gritava e pulava como um índio de filme, procurando um balde. Odete não deixou Dante, o irmão e cunhado, ajudar.
1964 foi, literalmente, fogo! A propósito, Jango nunca voltou.

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