Desaforos geniais
Fernando Sagatiba
Amor proibido
Cartola
Não
estou aqui pra julgar ninguém e está muito longe de mim fazer especulações
sobre o que não tenho conhecimento, mas, vá lá… Preciso fazer um exercício de
divagação acerca de uma das frases mais sutis que já ouvi numa canção. Digo,
sutil porque ela é um tremendo de um desaforo, um desabafo, mas com um veneno
potente inversamente proporcional à doçura da melodia.
Começam as conjecturas
Amor Proibido, de Cartola, é daquelas canções que não dão muita evasiva, é um relacionamento que acaba pela descoberta, do próprio – ou melhor, do personagem que ‘conta a história’ na música – e parece ter sido enganado por uma mulher que, pelo jeito, se refestelou em seus amassos enquanto fazia o mesmo com algum camarada do poeta de Mangueira. Ponto. Agora, se ele errou inocente, se isso esconde um cinismo de colocar a culpa na mulher tentadora e o escambau, eu não sei, vamos nos ater ao que ele diz e não ao que ele pode ter dito, ok? E é nessa hora que eu chego à cereja do bolo.
A poesia que ofende pela beleza
O rapaz vai se lamuriando por ter sido enganado, magoado e usado, diz que sempre vai lembrar da besteira que foi levado a cometer até explicar com palavras mais etéreas como se sentiu. Observe o trecho que segue:
“Fácil demais
Fui presa,
Servi de pasto
Em tua mesa”
Depois, ele complementa:
“Mas fique certa que jamais
Terás o meu amor,
Porque não tens pudor.”
Ou seja, “pasto” e “pudor”… Caras, palmas pro Cartola, ele soube chamar uma mulher dissimulada de vaca e sem vergonha de uma forma tão bonita que parece até que não lhe doeu, mas serviu de propósito para destilar sua acidez em mais uma canção, com o talento que lhe era peculiar em falar bonito.
Raiz do Samba
Samba é muito mais que
um gênero musical. É história e cultura popular brasileira.
A letra completa
Sabes que vou partir
Com os olhos rasos d'água
E o coração ferido,
Quando lembrar de ti,
Me lembrarei também
Deste amor proibido.
Fácil demais, fui presa,
Servi de pasto em tua mesa,
Mas fique certa que jamais
Terás o meu amor,
Porque não tem pudor.
Faço tudo para evitar o mal,
Sou pelo mal perseguido.
Só o que faltava era esta,
Fui trair meu grande amigo,
Mas vou limpar a mente
Sei que errei, errei inocente.
Minha análise final
O
personagem dessa música trai o amigo se vitimizando dizendo que “foi presa e
ainda serviu de pasto” à mulher adúltera, e que se errou, errou inocente, não
tendo culpa nenhuma pelo fato acontecido. Depois da conquista e ter realizado o
seu intento, de transar com a mulher do amigo, esta não terá o seu amor, porque
não tem pudor. E que ainda fugia do mal, as mulheres, e era pelo mal
perseguido, por isso traiu seu grande “muy amigo”. É dose!


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