segunda-feira, 10 de março de 2025

Amor proibido

Desaforos geniais 

Fernando Sagatiba

Amor proibido 

Cartola 

Não estou aqui pra julgar ninguém e está muito longe de mim fazer especulações sobre o que não tenho conhecimento, mas, vá lá… Preciso fazer um exercício de divagação acerca de uma das frases mais sutis que já ouvi numa canção. Digo, sutil porque ela é um tremendo de um desaforo, um desabafo, mas com um veneno potente inversamente proporcional à doçura da melodia.

Começam as conjecturas 

Amor Proibido, de Cartola, é daquelas canções que não dão muita evasiva, é um relacionamento que acaba pela descoberta, do próprio – ou melhor, do personagem que ‘conta a história’ na música – e parece ter sido enganado por uma mulher que, pelo jeito, se refestelou em seus amassos enquanto fazia o mesmo com algum camarada do poeta de Mangueira. Ponto. Agora, se ele errou inocente, se isso esconde um cinismo de colocar a culpa na mulher tentadora e o escambau, eu não sei, vamos nos ater ao que ele diz e não ao que ele pode ter dito, ok? E é nessa hora que eu chego à cereja do bolo. 

A poesia que ofende pela beleza 

O rapaz vai se lamuriando por ter sido enganado, magoado e usado, diz que sempre vai lembrar da besteira que foi levado a cometer até explicar com palavras mais etéreas como se sentiu. Observe o trecho que segue: 

“Fácil demais
Fui presa,
Servi de pasto
Em tua mesa”
 

Depois, ele complementa: 

“Mas fique certa que jamais
Terás o meu amor,
Porque não tens pudor.”
 

Ou seja, “pasto” e “pudor”… Caras, palmas pro Cartola, ele soube chamar uma mulher dissimulada de vaca e sem vergonha de uma forma tão bonita que parece até que não lhe doeu, mas serviu de propósito para destilar sua acidez em mais uma canção, com o talento que lhe era peculiar em falar bonito. 

Raiz do Samba 

Samba é muito mais que um gênero musical. É história e cultura popular brasileira.

A letra completa 

Sabes que vou partir
Com os olhos rasos d'água
E o coração ferido,

Quando lembrar de ti,
Me lembrarei também
Deste amor proibido.
 

Fácil demais, fui presa,
Servi de pasto em tua mesa,
Mas fique certa que jamais
Terás o meu amor,
Porque não tem pudor.
 

Faço tudo para evitar o mal,
Sou pelo mal perseguido.
Só o que faltava era esta,
Fui trair meu grande amigo,
Mas vou limpar a mente
Sei que errei, errei inocente.
 

Minha análise final

O personagem dessa música trai o amigo se vitimizando dizendo que “foi presa e ainda serviu de pasto” à mulher adúltera, e que se errou, errou inocente, não tendo culpa nenhuma pelo fato acontecido. Depois da conquista e ter realizado o seu intento, de transar com a mulher do amigo, esta não terá o seu amor, porque não tem pudor. E que ainda fugia do mal, as mulheres, e era pelo mal perseguido, por isso traiu seu grande “muy amigo”. É dose!

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