terça-feira, 26 de agosto de 2025

A ressurreição de Cartola

 

Era madrugada, em meados dos anos 1950; chovia fino e a cidade parecia suspensa. Os carros dormiam ao longo da calçada e, no pátio da Garagem Oceânica, em Ipanema, a espuma recém-enxaguada corria em fios, levando poeira e graxa. No botequim ao lado, um homem magro aquecia a xícara entre as duas mãos, como quem protege uma brasa acesa; macacão encharcado, cheiro de gasolina e sabão, as unhas escuras de serviço e frio. Não era um mendigo; era um trabalhador invisível. Muitos já o davam por morto; Sérgio Porto, cronista do Rio e voz de rádio, também quase o perdera da memória. Entrou, estacou, e o espanto veio antes das palavras: “Você não é o Cartola da Mangueira?”. Como ele contaria depois, a xícara tremeu, os olhos aceitaram de volta o próprio nome. Naquela mesa barata, entre gasolina e maresia, a madrugada mudou de eixo; dali em diante, a cidade recobrou a memória, e um país, sem saber, começava a recuperar a voz que lhe faltava. 

Antes dessa madrugada, houve outra paisagem: Catete e Laranjeiras, o violão que o pai colocou no colo do menino registrado Angenor, com um “n” a mais; depois, o morro. O orçamento curto apertava a casa; a cidade se fechava para quem nela crescia. Na construção civil, o cimento caía da laje como neve áspera; para proteger o cabelo, o rapaz adotou um chapéu-coco, e os colegas viram nele uma cartolinha que virou nome. No alto, a gravidade era festa e disciplina; o Bloco dos Arengueiros dava corpo às rodas e, ao lado de parceiros como Carlos Cachaça, o samba encontrava endereço. Em 1928, nasceu a Estação Primeira de Mangueira, verde e rosa, herança de ranchos e promessa de avenida, e, ali, Cartola começou a circular de boca em boca, de barraco em barraco, até que o seu nome coubesse inteiro na cidade. 

Revista Bula

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