domingo, 31 de agosto de 2025

O Homem Trocado

 Por Luis Fernando Veríssimo

Ilustração: Ricardo Machado

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem. 

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo. 

– Eu estava com medo desta operação… 

– Por quê? Não havia risco nenhum. 

– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos… E conta que os enganos começaram com seu nascimento. 

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês. 

– E o meu nome? Outro engano. 

– Seu nome não é Lírio? 

– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… Os enganos se sucediam. 

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista. 

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil. 

– O senhor não faz chamadas interurbanas? 

– Eu não tenho telefone! 

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes. 

– Por quê? 

– Ela me enganava. 

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite. 

– Se você diz que a operação foi bem… 

A enfermeira parou de sorrir. 

– Apendicite? – perguntou, hesitante. 

– É. A operação era para tirar o apêndice. 

– Não era para trocar de sexo? 

(Do jornal Extra Classe)

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