Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa.
Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde,
esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom
ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A
notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém
os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o
canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os
amigos. Uma hora da noite e eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua
presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do
tempero na salada − o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às
suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão
na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós
sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha
para casa, Senhora, por favor.
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Dalton
Trevisan. “Mistérios de Curitiba”,
5ª edição ‒ Rio de Janeiro: Record, 1996.

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