Durante os trinta anos em que lecionei, mais do que dar aulas, dei exemplos de vida. Lecionei em duas escolas públicas e uma particular simultaneamente. Dizia que havia três formas de uma pessoa vencer e, conseqüentemente, ganhar dinheiro na vida: uma, apostando na loteria e ganhando sozinho um prêmio fantástico; outra, descobrir que era o único herdeiro de tio rico e desconhecido, como acontece muito nas novelas; e, por último, estudar. Perguntava aos alunos qual era a hipótese mais lógica. A resposta todos vocês já sabem.
À medida que eu ia envelhecendo, ia encontrando meus ex-alunos, ia encontrando ganhadores e perdedores. Encontrei alunos nas mais variadas profissões liberais. A maioria ganhando muito mais do que eu, e em profissões muito mais importantes do que a minha. Isso me deixava imensamente feliz. Mas um exemplo deixou-me surpreendido.
Numa aula noturna de uma Escola Municipal, alguém bateu na minha porta. Interrompi a aula e fui atender. Deparei, na minha frente, com um jovem vestido com uma farda verde-oliva, com as insígnias de terceiro sargento do Exército, perfilado, dando-me continência, visivelmente emocionado. Olhei-o e recordei-me de quem se tratava:
- Não pode ser, logo você, Airton! Como você conseguiu isso?
- Por um filme que o senhor passou na sala de audiovisual.
- Que filme, cara, não estou lembrando...
- “A Força do Destino”. Esse filme mudou a minha vida.
Lembrei, então, do filme que, inclusive em mim, deixou grandes impressões.
Nos
anos 80, eu fui um professor pioneiro, nas escolas municipais, a utilizar o
videocassete em sala de aula. Eu havia comprado um vídeo Betamax, julgando ser
o melhor e que logo saiu de estoque por ter uma tecnologia Sony exclusiva, e
uma televisão de
- Eu não tenho nada! Eu não tenho ninguém! Eu não tenho para onde ir!
Recebe mais uma chance e se torna oficial.
Quando o aluno Airton começou a me dar problemas em sala de aula, consultei a sua ficha de avaliação psicológica, e vi que ele tinha um pai autoritário e violento, que lhe aplicava algumas surras constantemente. No filme, ele se viu na figura do personagem e de sua família, percebendo que a vida poderia lhe dar uma chance, e ele tinha que aproveitá-la.
Terminou o primeiro grau. Foi estudar na Escola Técnica Parobé, uma das melhores de Porto Alegre. Quando foi servir, já havia praticamente terminado o segundo grau, e já sabia o que queria ser.
Ele me abraçou. Foi embora, me pedindo uma cópia do filme.
A
partir daquela noite, eu já não fui mais o mesmo. Sabia que havia mudado uma
vida e a minha vida seria um pouco mais feliz.
Obs.: O DVD desse filme faz parte da minha coleção
particular.

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