segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Vocabulário é a chave da defesa dos políticos

 Marcelo Paiva

Muitos políticos não xingam, “achincalham”. Referem-se a si mesmo como “homens públicos”. Seus amigos chamam-se “base”, e suas cidades, “eleitorado”. Falam “inverdades”, e não mentiras, para parecerem cultos. Recebem, além do salário, jetons e emendas. Enquanto a “moralidade pública” e a “lisura” estão no verbo, seus bens estão nos nomes dos filhos, das esposas, namoradas e empregadas. 

Não ganham, “arrecadam”. Não conversam, “prestam depoimentos”. Não interrompem, “fazem apartes”. Não fazem o que devem fazer por terem sido eleitos para isso, fazem favores. Não viajam, fazem contatos. Suas vidas não são  moleza, são “vidas austeras”. Não trabalham, “prestam um serviço à nação”. Não têm inimigos, mas “adversários políticos”. Não têm coragem, mas “bravura cívica”. 

Divertem-se não em um cinema, mas numa comissão de inquérito. Não seguem regras e sim o “regimento”. Não são cidadãos comuns, mas “eleitos pelo povo”. Não os merecemos. O Inverso é verdadeiro: estão acima de nós, ralé. 

Para muitos políticos, que são forçados a viajar grandes distâncias e gastar grandes fortunas em campanha eleitorais, somo o obstáculo que impede o bom desenvolvimento de suas vidas públicas. Somos o “desserviço” à nação. Deveriam nos cassar! 


(Folha de S.Paulo, 29 de novembro de 1993) 


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