terça-feira, 7 de outubro de 2025

Bilhete

 Ivan Lins e Vitor Martins

Quebrei o teu prato,

Tranquei o meu quarto,

Bebi teu licor.

Arrumei a sala,

Já fiz tua mala,

Pus no corredor.

 

Eu limpei minha vida,

Te tirei do meu corpo,

Te tirei das entranhas,

Fiz um tipo de aborto,

E, por fim, nosso caso acabou.

Está morto.

 

Jogue a cópia das chaves

Por debaixo da porta,

Que é pra não ter motivo

De pensar numa volta.

Fique junto dos teus,

Boa sorte, adeus...

Contexto da música

O contexto da música “Bilhete”, de Ivan Lins e Vitor Martins, é sobre um fim definitivo e doloroso de um relacionamento, onde a protagonista se desfaz de objetos e sentimentos para se libertar e recomeçar a vida, marcando uma ruptura total e sem retorno. A canção foi composta por Ivan Lins e Vitor Martins no final de 1979, e a letra retrata uma decisão firme de cortar laços, expressada através de imagens fortes como a de “fazer um tipo de aborto” para retirar o ex-parceiro das entranhas, simbolizando a eliminação de um mal-estar emocional.  

Explicação de Ivan Lins

Amigos, “Bilhete” foi composta em dezembro de 1979, em Teresópolis, em nossa ex-casa, no Ingá. Eu e meu letrista e amigo Vitor já estávamos tentando fazer uma canção fazia dias e nada. O clima começou a ficar desagradável. Começamos a nos estranhar. Eis que nossa empregada, Dona Carmelita, reparando a situação, veio a nós e nos recomendou uma rezadeira que ela conhecia, chamada (pasmem) Madalena. 

Fomos lá. Era numa pequena favela (hoje grande), no Caxangá. Subimos e chegamos à casinha dela. Dona Madalena era uma senhora branca, tipo nórdica, cabelos desgrenhados e simpática. Dona Carmelita explicou a ela que nós precisávamos de uns passes. 

Aí ela foi para um canto e se concentrou e de repente estremeceu toda e recebeu uma entidade. Pegou um caderno e começou a escrever rabiscos nervosos, páginas e páginas, numa velocidade incrível, quando acabou, voltou para o canto, estremeceu de novo e voltou ao que era, e passou a traduzir a rabiscada toda: mal olhado, inveja braba. 

Virou-se para Vitor e disse pra ele acender uma vela numa pedra na beira de um rio e dedicar a uma entidade tal. Virou-se para mim também e disse para eu acender uma vela num descampado e dedicar a uma outra entidade. Já eram umas 20 horas da noite. Saímos de lá e Vitor logo achou o rio e acendeu a sua vela. 

Demorei a achar um descampado. Peguei minha vela, acendi e vi que não tinha pavio. Saímos atrás de outra vela, era domingo, tudo fechado. Acabei ganhando uma vela numa padaria. 

Voltei ao descampado e acendi, dedicando a tal entidade. Voltamos para casa. 

Dia seguinte, à tarde, minha sobrinha Heliane atende a um telefonema e vem me chamar dizendo que era um tal de Bíblia ou coisa parecida. Atendi e era o Quincy Jones, dizendo maravilhas de minhas músicas e nos convidando para Los Angeles, para saber o que ele estava preparando para nossas canções. 

Minha carreira internacional começou ali.

Claro que no dia seguinte já estávamos inspiradíssimos e a primeira que saiu foi “Bilhete”. 

Fiquei meio assustado com o tema, dizendo pra mim mesmo que nunca gostaria de cantar aquilo. 

A inspiração não ficou só nisso. Fizemos mais umas três canções, entre elas “Atrevida”, que Simone e Isabella Taviani gravaram. 

Canções femininas. Acho que a entidade do Vitor era uma mulher. 

Gravei “Bilhete” no disco “Novo Tempo” de 1980. Ano seguinte Fafá de Belém grava e estoura a música nas paradas, com um arranjo belíssimo de César Camargo Mariano. 

Dois anos depois ganhei meu “Bilhete”. O que eu temia aconteceu. 

Fazer o quê? 

Beijos, Ivan.

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