domingo, 23 de junho de 2024

Invernias

 Luiz Coronel

Venta o vento no arvoredo,

chove a chuva na cumeeira.

No quarto da noite escuta,

é teu corpo minha lareira.


A cidade está dormindo,

não despertem sua atenção.

A cidade está coberta

com as colchas da cerração.

 

Chove chuva chuvinheira

no riacho da calçada.

O barquinho vai levando

minha infância rua abaixo...

 

Ontem à meia-noite,

quem estaca acordado assistiu

moradores de rua e estátuas

espirrando de tanto frio.

 

No aquário dos sapatos,

sinto os pés como dois peixes.

Há três dias que nas calhas

lê a chuva o mesmo texto.

 

A lua nova, lá no alto,

com o inverno se depara,

por isso ela se enrosca

no poncho das nuvens claras.

 

A neve vinha de leve

flutuando no céu assim.

Pensei, estão depenando

arcanjos e querubins.

 

No cinza da tarde cinza,

teu sorriso claro deparo.

Tuas mãos são minhas luvas

e teu corpo, meu amparo.

 

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