sexta-feira, 7 de junho de 2024

Inundar de infância

 

Hoje acordei sem dia,

a casa sem lar,

a cama sem leito. 

Hoje acordei sem mim. 

Saí à rua, para me deixar possuir

pela simples leveza de existir. 

Crianças passaram por mim,

aos bandos de espantar,

com folias e desmandos,

nessa fabricação de milagres

que é o absoluto brincar. 

Dentro de mim

o universo se dissolveu

e um respirar de céu

em meu peito se inundou. 

Seria a Vida,

seria o Tempo sem nostalgia,

ou seria, apenas, a poesia? 

Sei que havia um fluir de rio

lavando antiquíssimas dores. 

E do cristal de tristeza

que antes me negava o ar,

desse nó de vazio,

voltou a nascer o mar. 

Mia Couto, In: “Vagas e lume”

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