O texto dissertativo é um texto temático, isto é, constrói-se a partir da declaração e da confirmação de ideias sobre um dado ou um fato da realidade. Em outras palavras, é a defesa de uma tese (ideia) que se tem sobre algum tema da anualidade do ponto de vista do presente (o tempo da reflexão, da formulação da análise).
Em todos os momentos da estrutura que a conforma, a dissertação, portanto, caracteriza-se por declarações e justificativas com funções diferentes:
a) na introdução (1) → para racionalizar o roteiro de sua construção;
b) no desenvolvimento (2 e 3) → para promover a análise propriamente dita;
c) na conclusão (4) → para estabelecer ou ratificar o ponto de vista sobre o tema.
Qualidades do texto dissertativo
a) A dissertação caracteriza-se pela predominância, em todos os momentos de sua conformação (introdução, desenvolvimento e conclusão), de verbos no tempo presente do indicativo. O presente é o tempo da origem das idéias, do estabelecimento do ponto de vista, da escritura do texto enfim.
b) O texto dissertativo, ao contrário do texto narrativo, obedece a uma ordem lógica argumentativa, e não a uma ordenação, a uma sequenciação temporal.
c) Outra particularidade do texto dissertativo é a pouca adjetivação. O excesso de adjetivos somente remete a uma imprecisão, a uma abordagem subjetiva do tema (e na maioria das vezes de difícil compreensão para o leitor). Também os pronomes indefinidos (tudo, nada, algum, nenhum, certos etc.) são palavras, como o próprio nome diz, de sentido indefinido. Um texto curto, como a redação do vestibular, com muitas palavras desse tipo, acaba provocando falta de precisão na análise do tema. Então, os adjetivos, bem como os pronomes indefinidos, devem ser usados com muito comedimento e, dentro do possível, ser substituídos por palavras de sentido exato, preciso.
d) A necessária retomada de elementos no decorrer do texto tem a ver com a sua unidade, pois um dos fatores que fazem com que percebamos um texto como um todo único é a permanência, em seu desenvolvimento, de elementos constantes. Em outras palavras, avaliar a continuidade de um texto é verificar se há elementos que percorrem todo o seu desenvolvimento, conferindo-lhe unidade.
e) O texto deve retomar seus elementos conceituais (as idéias-chaves que constituem seu tema e argumentação), mas não pode limitar-se a essa repetição. (É preciso que apresente novas informações justificativas) a propósito dos elementos retomados.
f) A não-contradição das ideias deve ser observada tanto no âmbito interno (isto é, a argumentação e suas justificativas não podem opor-se) quanto no âmbito das relações do texto com o mundo a que se refere. O texto, portanto, não pode contradizer-se, nem contradizer a realidade a que se propõe a analisar.
A estrutura da introdução
(o roteiro do texto)
Tópico Frasal: ideia geradora do texto, a partir da qual se delimita e encaminha a análise. Em outras palavras, é a frase que sintetiza a situação do tema (a tese que será desenvolvida).
Argumentação: fundamentação, justificativa da ideia geradora do texto. É o estabelecimento dos limites da análise, a organização (roteiro) das questões que serão trabalhadas no desenvolvimento propriamente dito.
Exemplos de Introduções
a) Por justificativa*
“O desemprego é o pior que pode acontecer para um trabalhador no Brasil (tópico frasal), pois o indivíduo fica sem meios para manter-se (argumento 1). Além disso, o governo não faz nada para impedir ou pelo menos racionalizar a substituição do homem pelas máquinas nas grandes indústrias (argumento 2).” ‒ PUC/97-2
b) Por conclusão*
“Levado-se em conta a qualidade do ensino fundamental gratuito no Brasil, o vestibular não é justo (argumento 1). Muitos dos conteúdos exigidos dos vestibulandos não são trabalhados com eficiência nas escolas do governo (argumento 2). Portanto, para possibilitar o acesso à faculdade das pessoas com menor poder aquisitivo, o vestibular da UFRGS deveria ser mudado (tópico final).” ‒ UFRGS/97
(*) Na verdade, a colocação do tópico frasal (no início ou no fechamento do parágrafo) é que vai determinar se a operação da introdução será por “justificativa” ou “conclusão”.
c) Por exemplificação (tem a função de limitar a situação genérica do tema, de introduzir uma experiência que servirá de ponto de partida para a análise.)
“Viajar é uma das melhores formas de lazer, em que ao mesmo tempo nos divertimos e aprendemos coisas novas. Por exemplo, quando viajei para os Estados Unidos, aprendi duas coisas fundamentais (tópico frasal): que jamais me adaptaria aos costumes, ao modo de ser americano (argumento 1), e que seria impossível para mim viver por muito tempo isolado da família (argumento 2).” ‒ PUC 98/1.
d) Por polêmica (prós e contras)
A mulher dos anos 90 é independente (tópico frasal). E o ingresso no mercado de trabalho foi, de todos os fatores, o mais determinante para as suas conquistas (argumento 1 ‒ ideia “positiva”). No entanto, essa independência teve um custo enorme para ela, pois geralmente ainda são atribuídos exclusivamente às mulheres todos os afazeres domésticos (argumento 2 ‒ ideia “negativa”). ‒ UNISC/95
A conclusão
A conclusão é o fechamento das ideias apresentadas na introdução e analisadas ao longo do desenvolvimento. É a ratificação ou o definitivo estabelecimento do ponto de vista do autor sobre a questão do tema, dentro dos limites da argumentação.
Na maioria das vezes, é muito mais a ponderação dos argumentos (a análise de qual deles é mais determinante para a manutenção da situação inicial ou de qual deles é mais determinante para uma possível mudança da situação apresentada inicialmente) do que a solução de um problema. Até porque, tendo em vista a complexidade e a abrangência dos temas geralmente propostos para ser discutidos, as soluções tendem a ser, na melhor das hipóteses, ingênuas demais, revelando imaturidade ou até mesmo alienação por parte do autor do texto, quando não são dispersivas, por tratar de ideias não desenvolvidas no momento da análise, nem apresentadas na introdução.
Exemplos (três possíveis conclusões para a dissertação que apresentasse a introdução anteriormente mencionada sobre o tema da PUC 1997/2 “O que significa ficar desempregado no Brasil?”):
EXEMPLO 1*
Embora o governo não faça nada, e isso indique o descaso dele com o número cada vez maior de pessoas sem trabalho forma no Brasil, o que realmente torna a situação do desempregado uma calamidade é a pessoa ficar desprovida de meios para sobreviver na sociedade. Até porque, em casos extremos, o indivíduo é levado, pela falta de dinheiro, à ruína total, como à marginalização e à delinquência, por exemplo.
EXEMPLO 2*
Pior mesmo do que ficar sem dinheiro para um trabalhador numa sociedade que gira em torno do capital, é o governo não fazer nada para impedir as demissões que fazem o contingente de desempregados atingir marcas assustadoras. Porque, caso os mandatários do país racionalizassem a mecanização das indústrias que substitui o homem, também o número de pessoas induzidas à marginalização e à delinquência com certeza diminuiria.
EXEMPLO 3*
O desemprego, portanto, é uma tragédia para o trabalhador honesto. E o que realmente torna a situação dos desempregados brasileiros terrível, muito mais do que ficar sem dinheiro, é eles sofrerem com a passividade do governo, que parece não querer enxergar as conseqüências de uma industrialização descontrolada, que visa exclusivamente ao lucro imediato.
* Todos os exemplos foram
retirados de redações de alunos do curso Unificado.

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