Pachos na testa, terço na
mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a
mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a
goela,
Cala os miúdos, fecha a
janela,
Não quero canja, nem a
salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales
nada.
Se tu sonhasses como me
sinto,
Já vejo a morte nunca te
minto,
Já vejo o inferno, chamas,
diabos,
Anjos estranhos, cornos e
rabos,
Vejo demônios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem
tranças.
Choros de coruja, risos de
grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma
torneira,
Põe-me a Santinha à
cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a
chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por
nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
Por: António Lobo Antunes
“Sátira aos homens quando estão com gripe”
in Letrinhas de Cantigas (canções) 2002

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