sexta-feira, 4 de abril de 2025

Os chatos da língua

São os puristas. E ponha chato nisso. Principalmente para nós, que sabemos português de ouvido. Segundo um tio meu, gramático é um camarada que só entende de gramática. E, na opinião de um velho professor que tive no ginásio, para qualquer asneira que se escreva haverá sempre um autor clássico para nos defender. 

Pois, passando os olhos num dicionário de dúvidas da língua portuguesa, encontrei algumas expressões que os puristas (onde eles se escondem durante o dia?) dizem ser preferíveis a certas palavras honestas e humildes que usamos a toda hora. Por exemplo: babouches em vez de chinelas; açafate em vez de corbeille; premagem em vez de massagem; e frouxel em vez de edredom. 

Como bom aluno que sou e amante das coisas puras, comecei imediatamente a pôr em prática o purismo vernacular. 

Assim que minha empregada apareceu, pedi-lhe que pegasse embaixo da cama as minhas babouches. Nada feito. Ela me trouxe os mais variados objetos, desde a chupeta do caçula a uma vara de pescar. 

Depois pedi à esposa que providenciasse uma açafate para festejar o aniversário de uma amiga ‒ e também não fui compreendido. Por fim, já louco de ódio porque não conseguia devolver para a gaveta um frouxel vermelho, escorreguei e dei um mau jeito na perna. Quando pedi à enfermeira que me aplicasse uma premagem, ela encabulou disse que não estava ali para isso e que, se eu quisesse, o máximo que podia me aplicar era uma massagem. 

Massagem que, aliás, me fez um glorioso bem. 

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Do livro “O pescoço da girafa

pílulas de humor por Max Nunes”,

Seleção e organização Ruy Castro 

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