Uma crônica de Ivan Carvalho
Qual foi mesmo o ano em que o verão não terminou? O primeiro?
Acho que foi 2025. O calor virou o ano, emendou com o verão seguinte, e nunca mais esfriou em Porto Alegre.
Foi um ano terrível, a gente não estava preparada. A partir daí, foi só calor e tempestades. As laranjas goraram e as uvas passaram a dar o ano inteiro.
Dizem que antes havia inverno. E é verdade, eu vi. Tive casacos de lã! E conheci geada. Meus netos não acreditam. Muita gente duvida.
Depois daquele verão em que as pessoas morriam se saíssem na rua certas horas, acho que foi 2034, os expedientes passaram a ser noturnos. As lojas e tudo o mais só funcionavam à noite.
Hoje, as pessoas gastam metade do que ganham em conta de luz, pois vivem no ar condicionado, os mais novos nem conhecem outra vida.
E quem não tem AC? Bom, isto não existe, quem não tem foi desta para a melhor, ou viraram moradores de shoppings, amontoados nos corredores. Dizem que os antigos moradores de rua foram cremados em vida, mas não sei se isto é totalmente verídico.
Foi por 2053, acho eu, minha memória não anda muito boa (cabeça quente dizem), que surgiu o movimento “nudez necessária”. A gente concluiu que usar roupas era uma convenção besta, que só interessava às indústrias de roupas, todas chinesas, muita gente aderiu a essa moda, cada vez mais.
Hoje fez só 63 graus. Está fresquinho, acho que vou passear na orla do riacho Guaíba de madrugada...

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