quarta-feira, 2 de abril de 2025

Memórias futuras

 Uma crônica de Ivan Carvalho

Qual foi mesmo o ano em que o verão não terminou? O primeiro? 

Acho que foi 2025. O calor virou o ano, emendou com o verão seguinte, e nunca mais esfriou em Porto Alegre. 

Foi um ano terrível, a gente não estava preparada. A partir daí, foi só calor e tempestades. As laranjas goraram e as uvas passaram a dar o ano inteiro. 

Dizem que antes havia inverno. E é verdade, eu vi. Tive casacos de lã! E conheci geada. Meus netos não acreditam. Muita gente duvida. 

Depois daquele verão em que as pessoas morriam se saíssem na rua certas horas, acho que foi 2034, os expedientes passaram a ser noturnos. As lojas e tudo o mais só funcionavam à noite. 

Hoje, as pessoas gastam metade do que ganham em conta de luz, pois vivem no ar condicionado, os mais novos nem conhecem outra vida. 

E quem não tem AC? Bom, isto não existe, quem não tem foi desta para a melhor, ou viraram moradores de shoppings, amontoados nos corredores. Dizem que os antigos moradores de rua foram cremados em vida, mas não sei se isto é totalmente verídico. 

Foi por 2053, acho eu, minha memória não anda muito boa (cabeça quente dizem), que surgiu o movimento “nudez necessária”. A gente concluiu que usar roupas era uma convenção besta, que só interessava às indústrias de roupas, todas chinesas, muita gente aderiu a essa moda, cada vez mais. 

Hoje fez só 63 graus. Está fresquinho, acho que vou passear na orla do riacho Guaíba de madrugada... 

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