sexta-feira, 11 de abril de 2025

Esta vida

 

Um sábio me dizia: “Esta existência

não vale a angústia de viver. A ciência,

se fôssemos eternos, num transporte

de desespero, inventaria a morte!

Uma célula orgânica aparece

no infinito do tempo: e vibra, e cresce,

e se desdobra, e estala num segundo...

Homem, eis o que somos neste mundo!”

Falou-me assim o sábio e eu comecei a ver,

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

 

Um monge me dizia: “Ó mocidade,

és relâmpago, ao pé da eternidade!

Pensa: o tempo anda sempre e não repousa.

Esta vida não vale grande cousa.

Uma mulher que chora, um berço a um canto,

o riso às vezes, quase sempre o pranto...

Depois, o mundo, a luta que intimida,

quatro círios acesos – eis a vida!”

Isto me disse o monge e eu continuei a ver,

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

 

Um pobre me dizia: “Para o pobre,

a vida é o pão e o andrajo vil que o cobre.

Deus?... Eu não creio nessa fantasia!

Deus me dá fome e sede cada dia,

mas nunca me deu pão nem me deu água...

Nunca! Deu-me a vergonha, a nódoa, a mágoa

de andar, de porta em porta, esfarrapado...

Deu-me esta vida: um pão envenenado!”

Disse-me isto o mendigo e eu continuei a ver,

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

 

Uma mulher me disse: “Vem comigo!

Fecha os olhos e sonha, meu amigo!

Sonha um lar, uma doce companheira,

que queiras muito e que também te queira...

Um telhado... Um penacho de fumaça...

Cortinas muito brancas na vidraça...

Um canário que canta na gaiola...

‒ Que linda a vida lá por dentro rola!”

Pela primeira vez e comecei a ver,

dentro da própria vida, o encanto de viver! 

Guilherme de Almeida:

Meus poemas Preferidos – Edições de Ouro, Rio


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