quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A história de uma parceria musical

A história da música Atrás da Porta



Atrás da Porta, primeira parceria de Chico Buarque com Francis Hime (Foto abaixo), música magistralmente interpretada por Elis Regina, tem uma história bastante curiosa na sua concepção.


Francis morava nos Estados Unidos e passava férias no Brasil. Em uma festa restrita a poucos amigos, encontrou-se com Chico Buarque e tocou a melodia da música, Chico gostou e começou a escrever, lá mesmo, a letra. Os dois não se lembram o motivo ‒ Chico atribui ao excesso ou mesmo a falta de bebida e até falta de inspiração momentânea ‒ o fato é que o letrista só conseguiu fazer uma parte da música.

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus.
Juro que não acreditei,
Eu te estranhei,
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos,
No teu peito, *
Teu pijama,
Nos teus pés,
Ao pé da cama,
Sem carinho, sem coberta,
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho,

* (Nos teus pelos) verso original vetado pela censura da época.

A obra incompleta ficou esquecida por um tempo, até que Elis a ouviu e ficou maravilhada. Gravou o trecho com letra e deixou a segunda parte apenas orquestrada, uma forma, para muitos, de pressionar Chico a concluir a música. A fita chegou até Chico que imediatamente concluiu sua obra com os versos:

Dei pra maldizer o nosso lar,
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua.

Fala-se que a antológica gravação de Elis foi influenciada pelo momento afetivo em que vivia. Em 1972, a cantora havia se separado de Ronaldo Bôscoli e engatava um novo romance com o pianista César Camargo Mariano (foto abaixo, com Elis), justamente durante o período da gravação da canção. A história é contada de forma emotiva por Nelson Mota, no livro “Noites Tropicais ‒ Solos, improvisos e memórias musicais”, da Editora Objetiva.




Leia um trecho da versão de Nelson Mota e, logo após, confira o depoimento de Chico Buarque sobre Atrás da Porta:


“Nesse meio tempo, Menescal e Francis tentariam dar uma pressão em Chico para terminar a letra. À noite, separada de Ronaldo, sozinha na casa branca da Niemeyer, Elis resolveu fazer uma sessão de cinema, convidando alguns amigos, entre eles César, para ver Morangos silvestres, de Bergman, um clássico-cabeça da época. Mal o filme começou, César recebeu um bilhete de Elis, foi ao banheiro ler e se espantou: era um “torpedo” amoroso. Atônito, César leu e releu, acreditou e sumiu: completamente fascinado por Elis, era tudo o que secretamente desejava. E temia. Então sumiu. Não foi encontrado nos dois dias seguintes em lugar nenhum, os amigos se preocuparam. Mas no dia e hora da gravação, duas da tarde, César estava no estúdio, Menescal se sentiu aliviado e Elis sorriu sedutora. César dispensou os músicos, pediu para todo mundo sair, para colocarem o piano no meio do estúdio, baixarem as luzes e deixarem só ele e Elis, para a gravação do piano e da voz-guia de “Atrás da porta” Extravasando seus sentimentos, misturando as dores da separação com as esperanças de um novo amor, Elis cantou, mesmo sem a segunda parte da letra, com extraordinária emoção, com a voz tremendo e intensa musicalidade. Na técnica, quando ela terminou, estavam todos mudos. Elis chorava abraçada por César. Juntos, César e Menescal foram levar a fita para Chico, que ouviu, chorou, e terminou a letra ali mesmo, no ato”.


2 comentários:

  1. Fui convidado para um churrasco na casa de amigos, e ouvi um comentário que uma ex professora de Chico Buarque, teria dito que quem fazia as letras das músicas era o pai dele,pois está aí o almanaque para desmentir tamanha falta de informação.

    ResponderExcluir
  2. Meu amigo, o problema é que muitas pessoas leem notícias na Internet e nos livros, onde estão os fatos verdadeiros.

    ResponderExcluir