quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Um conto de Cornélio Pires


Comer um homem vivo


– Coisa nunca vista! Todos ao circo!

Três dias de propaganda e o circo, às 8 horas da noite, já não suportava mais ninguém. Nem um espectador. Barbaçudos caipiras de cinco léguas em redor vieram, abismados, assistir ao estranho espetáculo. Após alguns trabalhos conhecidos, reinando o maior silêncio, surgiu o secretário.

Ao centro do picadeiro encontravam-se uma mesinha de três pernas, bacia com água, toalha, sabão e uma cadeira.

– Respeitável público!

Soturno silêncio de espanto e curiosidade domina o ambiente.

– Vai comparecer o extraordinário Come Gente, que se compromete a comer um homem vivo!

Todos os olhares se voltaram para a porta da barraca, de onde apareceu o Fontes, nu da cintura para cima, horrivelmente caracterizado, com enorme boca de orelha a orelha. Vinha em passo lento e terrificante. O secretário retirou-se fingindo medo.

E Fontes falou numa voz de estertor:

– Pacueri! Issabubdê! Mararpatedefroagá!

Parou. Passou a olhar, de sobrecenhos carregados, no público:

– Cá estou para comer um homem vivo!

Um arrepio de terror correu pelas espinhas dos espectadores.

– Estou a vossa disposição! Qual de vós quer ser comido vivo?

Silêncio fúnebre... Movimentos de dúvida.

–Ninguém? Esperarei dois minutos.

O dentista do lugar, indignado por perceber o plano, cochichou com o vigário e o barbeiro. Ele, que estivera duas vezes em cidades grandes, ser embrulhado... Desceu da arquibancada. O povo, horrorizado, olhou-o, pouco faltando para saltar em sua defesa. Dirigiu-se ao primeiro caipira e disse-lhe ao ouvido:

– Não tem perigo que ele te coma. É uma esperteza do ladrão. Dou-te cinqüenta cruzeiros. Vá!

– Por cem eu vô...

– Vá...

E o caipira, resoluto, galgou o picadeiro vermelho e gritou:

– Tô aqui!

Fontes não vacilou:

– Tire o chapéu o paletó e a camisa, para começar.

O povo vibrava, espantado, como se estivesse sonhando.

O malandro ensaboou com raiva a cabeça, o pescoço e o peito do caboclo. Lavou-os. Esfregou-lhes a toalha com força.

– Senhores, vou devorar este homem vivo, conforme prometi Convém que as pessoas nervosas se retirem. Costumo começar pelas orelhas...

O tabaréu olhou-o terrificado, fechando os olhos. A ansiedade era geral.

Fontes, arregalando a boca enorme, pegou a orelha do matuto. Ouviu-se estridente grito do povo:

– Não!

O Come Gente fincou o dente, com violência, na orelha direita da vítima. O caboclo deu um berro de dor, saindo em disparada, seminu, com o ombro manchado de sangue que lhe escorria da ferida.

– Assim é impossível!

E o caipira, rasgando a massa do povo, gritava:

– Eu não aquerditava! Ele come mermo!

Enquanto o Fontes fugia pelos fundos, com os cobres no bolso, garrando estrada, o caipira, no meio dos espectadores, vestindo a roupa que lhe trouxeram, dizia trêmulo e horrorizado:

– Ele come mermo! Nem por mir conto... Ave Maria! Credo!

(Cornélio Pires, Prosa e Poesia, em Antologia Caipira,
Edições “O Livreiro”, SP)



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