sábado, 22 de abril de 2017

Espelhos, lágrimas e chuvas


Paulo Mendes



Desenho de Lauren De Bacco


Ah, parceiro, se este rosto ressecou, rachou e agora mostra sulcos como uma taquara velha exposta ao sol, eu te garanto, não foi por falta de água. Esta cara, coitada, foi irrigada diariamente pelas chuvas doces e pelas lágrimas salobras. Espera, espera um pouco, talvez a fuça tenha se ressecado por isso mesmo, por tanto aguaceiros frios nas invernias e por tantas soalheiras nos janeiros escaldantes. Sofreu muitos desenganos, enfrentou garoas com vento gelado e, por isso, ficou assim. Não a vejo há tempo, que nem me conheço mais, nem quero ver o meu outro, o de carne e osso, como fazia nas tardes de antigamente. Eu me via no espelho dos açudes, das sangas, ainda guri, e enxergava uma face jovem, sorridente e feliz. Uma cabeça cheia de planos, plena de sonhos. E hoje, confesso, já não os procuro, eu os temo, esses espelhos, pois tenho medo que a imagem refletida mostre-me o verdadeiro rosto de minha alma.

Com o passar dos dias reconheço que perdi o viço e um jeito matreiro de olhar os infinitos, de vasculhar os escuros, de pressentir os avessos. Sinto falta das coisas amadas que perdi, dos amigos que se foram, do calor do fogo de chão, dos dedos de minha mãe alisando meus cabelos, das bolitas, das pandorgas, do gosto da pitanga madura, do cheiro que brotava das panelas sobre o fogão, dos cachorros e dos pelegos sobre os quais sesteava debaixo dos cinamomos. Cadê meu rosto? Será que se perdeu no Sul desse passado sonolento? Ah, essa mania que trago nos alforjes de fazer perguntas cujas respostas vivem nas reticências. Lembro que no pátio de minha infância brincavam os pintos e os passarinhos, fedendo a esterco e a árvores, e ambos traziam rios antes de chover.

As chuvas molhavam minha pele e os meus internos. Um dia ganhei uma capa gaúcha, de baeta colorada, que muito me alegrou. Nessa época, contudo, já sabia que o que molha a gente, de fato, são os rios interiores, os que não têm margens, os que não têm água, só peixes carnívoros. Os espelhos mostraram-me os duplos e me confundiram. Depois, muitos anos depois, aprendi a beber lágrimas na chuva com reflexos cristalizados de minúsculas gotas de sangue. Ah, parceiro, mas não pense que estou me vitimando. Ao contrário. Essas tristezas me forjaram para a luta. E me encontrei na literatura regional, contando causos, inventando personagens, provocando emoções, trazendo à tona os sentimentos esquecidos. Meus e dos leitores. E, sem querer, me fiz escrevinhador de causos e isso, meus amigos, me redime e acalenta. Me ressuscita.

Então volto a mirar meu espelho e, milagre, vejo um guri cheio de vida, de sonho, de esperança e que sorri. Nesta madrugada, monto no lombo de uma estrela prateada, abano o pala colorado para os amigos e sigo meu destino. Ouço o cantar dos galos e um ponteio de milonga enquanto abraço a manhã chuvosa que umedece a minha saudade…


(Da coluna Campereada, de Paulo Mendes, no Correio do Povo)


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