domingo, 27 de abril de 2014

Cartas do Front*




Cartas do front é uma envolvente coleção de correspondência trocadas por soldados e civis na linha de frente dos grandes conflitos da história. Inclui, com exclusividade nesta edição brasileira, cartas de pracinhas que lutaram na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um compêndio de mais pura emoção em meio à tragédia.
  

Amor

“Preciso para aqui. Não posso escrever mais hoje à noite. Tua foto me distrai. Olho para ela sem parar, maravilhado, esperando, fantasiando – imaginando se, sem ti, poderia ser feliz. Escreverei novamente quando me recuperar um pouco. Enquanto isso, sonharei contigo.”

Do fuzileiro naval norte-americano Harry Kipp a Norma Clinton. Os dois se apaixonaram trocando cartas e se casaram quando Kipp voltou aos EUA depois da Segunda Guerra Mundial.

Horror

“Deparei-me com um de nossos rapazes irreconhecível devido à decomposição. Ele jazia como caíra – a cabeça desaparecera -, mas todos os equipamentos estavam afivelados no cinto, e enterramos o que restara dele. Procurei algo que o pudesse identificar, mas foi em vão. Pobre rapaz, em algum lar distante no Canadá alguém está chorando a perda do marido, filho ou namorado. O mais triste de tudo é que jamais saberão como morreu, ou onde foi enterrado, e, até mesmo agora, podem se apegar à esperança de ainda esteja vivo...”

Do soldado canadense William Mayse a sua mulher, durante a Primeira Guerra Mundial.

Humor

“Eu, abaixo assinada, tenho um pedido a lhe fazer. Embora meu marido esteja em serviço, há apenas quatro meses, gostaria de solicitar que lhe fosse concedida uma licença, devido à nossa relação sexual.”

De uma mulher alemã ao comandante de seu marido na Primeira Guerra Mundial.

Desespero

“Toda noite, soldados bêbados vêm e nos batem com pedaços de pau. Meu corpo está coberto de escoriações como madeira queimada... Outro dia, dois rapazes escaparam, então os alinharam e cada quinta pessoa da fila foi morta. Eu não ocupava a quinta posição, mas sei que não sairei vivo daqui.”

De um menino polonês chamado Chaim
 – em um campo de concentração alemão  – aos seus pais.


O autor

Andrew Carroll é diretor do projeto norte-americano Legacy, que tem por objetivo procurar conservar correspondências trocadas com soldados em tempos de guerra. É organizador de três livros que se tornaram Best-sellers nos Estados Unidos.

* “Cartas no Front – Relatos emocionantes da vida na guerra” – Jorge Zahar Editor


Carta do Sargento Evgueni Strchurov sobre os assassinatos na aldeia de Budionovka


“18 de outubro de 1942

Budionovka, minha terra natal... diante dos meus olhos surgem imagens familiares: casas brancas escondidas na verdura dos cerejais, ruas retilíneas que descem para o mar. Foi lá que eu nasci, foi lá onde passei a infância e adolescência. E eis que os jornais me informam sobre os meus compatriotas. Fiéis às tradições sagradas dos meus avós, os cossacos do Don lutaram corajosamente contra o inimigo. Os alemães martirizavam os cidadãos soviéticos. As bestas sanguinárias mataram uma criança de quatro anos; fuzilaram rapazes e raparigas às dezenas, cujas roupas vendiam ou mandavam para a Alemanha. Os fascistas fuzilaram Catarina Skoroiedova, o velho Saveli Petrovitch Stepanenko, o jovem sapateiro Alexandre Iakubenko, Ludmila Tchukanova, de dezessete anos. Todos são meus conhecidos amigos.
O meu coração está cheio de ódio pelos bárbaros fascistas. O meu único desejo é vingar a morte dos meus amigos de infância, o sangue dos cidadãos russos que inundou as ruas da minha aldeia natal. Basta-me fechar os olhos para ouvir a voz da minha amada, - para ver estender-me os braços, implorando-me socorro.

Evgueni Stchurov”

Cartas de soldados alemães escritas durante a batalha em Stalingrado


“Amados pais. Se estão lendo esta carta, é porque ainda temos o aeroporto. Tenho certeza que esta será a última que seu amado filho lhes escreverá. Temos russos por todos os lados e não nos mandam ajuda de Berlim. Tenho-lhes uma triste notícia, Granstsau morreu semana passada. Estava ele, eu e mais três andando quando simplesmente caiu no chão com a cabeça aberta. Amados pais, chorei muito ao vê-lo, porque crescemos juntos, lembram-se? Quando éramos crianças, quebrei a perna, ele me levou a casa nas suas costas com a minha perna quebrada. Sinto muito pelos pais dele. Perdi meu único amigo. E aqui haverá o fim. Nosso comandante se matou com um tiro na boca ontem de noite. Nossa moral não existe mais. Mas espero que essa maldita guerra acabe, pouco me importa o que aconteça. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha o quanto antes, sabemos que é uma questão de tempo dos russos chegarem em Berlim. Amados pais, após essa guerra, a Alemanha ficará atônita ao saber que o soldado que lhes escreve teve a vida salva por um médico judeu. Estou bem dos ferimentos, mas a cicatriz é enorme e horrível. Amados pais, se cuidem. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha, o dinheiro vocês já tem. Logo estaremos de novo conversando com Hilse, nos bom tempos dos dias de sol. Com muita devoção, seu filho querido.”

Fonte: Cartas de Stalingrado, Coleção Einaudi, 1958.


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