quarta-feira, 30 de abril de 2014

Pérolas periciais


O perito José Eduardo Besaglia colecionou uma série de pérolas do português criminalístico extraída de laudos de colegas e de processos, em seu livro Perícias e peripécias.


Þ Atropelamento animal: “os melhores ferimentos localizavam-se no ombro esquerdo do cavalo”.

Þ Locais de homicídio: “deparamos com um cadáver morto, em decúbito dorsal, com as costas no chão” ou “o corpo, assistido por formigáceas, jazia ao leito de imensas mistáceas”.

Þ Bens para penhora: “O material é imprestável, mas pode ser utilizado.”

Þ Despacho judicial: “Arquive-se esta execução porque o exequente foi executado (à bala) pelo devedor.”

Þ Encerramento de um processo: “Os anexos seguem em separado.”

Linguagem poética

Policial à paisana, talvez delegado, contando como atirou em dois homens que tentavam assaltar o cobrador e os passageiros do ônibus em que viajava; matou um e feriu o outro:

- Quando os elementos consumaram o delito, dei voz de prisão a eles. Foi quando os mesmos esboçaram reação onde houve a troca de tiros.

No motel

A maior familiaridade de agentes da lei, escrivães e peritos com o português pode evitar vexames clássicos como o de um boletim de ocorrência registrado em 2 de abril de 1993, pelo Motel Estância dos Executivos, em Catanduva (SP). O incidente, a destruição parcial de um motel em decorrência das chuvas, teve a seguinte descrição hiperbólica e eufêmica:

“Chovia torrencialmente. De inopino no meio da torrente, os elementos em fúria manifestam-se sob a forma de uma faísca elétrica que, com um vigor moralista, precipita-se sobre o Motel Estância dos Executivos. O estrépido é ensurdecedor, assustando vários casais que, cansados, lá se preparavam após um longo dia de serviço para pernoitar. Inicialmente, a reação é de fuga. Após o passo-a-passo, os funcionários do motel retornam para avaliar a macabra situação. A maioria dos aparelhos de TV e vídeo queimados, além dos portões elétricos que, assustados, se escancararam e recusaram-se terminantemente a movimentarem-se. Banheiros de hidromassagem inoperantes para sua medicinal função.”

De olho no seguro, os representantes do motel queriam um registro formal do incidente. Premidos pelo preenchimento burocrático de um boletim-padrão, mas sem saber a que categoria atribuir a ocorrência, o escrivão e o delegado da 2ª DP em Catanduva acharam por bem indiciar o único responsável imaginável àquela altura: São Pedro.

Não consta que o suspeito tenha sido localizado.


(Da Revista Língua Portuguesa – número 10)



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