domingo, 27 de abril de 2014

Predestinação


Millôr Fernandes

Tinha no nome seu destino líquido:
mar, rio e lago.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Peixes.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.
Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.
Seu provérbio predileto: “Quem tem capa, escapa”.
Sua piada favorita: “Ser como o rio: seguir o curso sem deixar o leito”.
Pois estudava: engenharia hidráulica.
Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando estava na bica para se formar.
Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.
Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva
Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.
Rim flutuante.
Água no joelho.
Hidropsia.
Bolha d'água.
Gota.
Catarata.
Morreu afogado.


Haikais

há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

Com que habilidade
Você estraga
Qualquer felicidade!

Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos.

Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.

Aniversário é uma festa
Pra te lembrar
Do que resta.

Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.


Não é segredo.
Somos feitos de pó, vaidade,
E muito medo.

No falecimento
Lenço grande demais
Pro sentimento.

Eremita, me afundo
No deserto, pra ser
O centro do mundo.

O desenvolvimento cerebral
Nunca se compara
                             Ao abdominal



O QUE É HAICAI

Haicai é um poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século 20 e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão, e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku.

Segundo Harold G. Henderson, em Haiku in English, o haicai clássico japonês obedece a quatro regras:

→ Consiste em 17 sílabas japonesas, divididas em três versos de 5, 7 e 5 sílabas.

→ Contém alguma referência à natureza (diferente da natureza humana).

→ Refere-se a um evento particular (ou seja, não é uma generalização).

→ Apresenta tal evento como “acontecendo agora”, e não no passado.

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(Do Blog Caqui)



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