sábado, 26 de abril de 2014

Explicação complicada




Foi então que o chefe da central, que era um homem sabedor e prático, expoente de uma época e de uma classe (com a dose social que vocês quiserem) atendeu ao telefone o seu colega da delegação do Norte, homem prático e sabedor, expoente de uma classe e de uma época, etc., etc.
- Vamos fretar um navio – disse este último, do lado de lá.
O da central apurou o ouvido.
- Vamos fretar o quê?
- Um navio. Para carregar algodão em caroço.
- Em quê?
- Em caroço.
- Ah!
- Tome nota do nome do navio, por favor.
- Estou à espera.
- Nilo – soletrou o colega da delegação do Norte. E repetiu: - Ni-lo.
- Não percebo – protestou o chefe da central. – Diga isso por letras.
O outro encheu-se de ar.
- Nilo – articulou de um jato. E perante o silêncio do companheiro-chefe.
- Agora por letras.
- O.K. – concordou o da central.
- Nilo. Ene, de Nabucodonosor.
- Nabuquê?
- Nabucodonosor. Um dos primeiros reis da Caldeia.
- Caldeira?
- Caldeia – repetiu o chefe da delegação do Norte. CE, de Ceratômetro. A, de arteriotomia. Ele, de Leibnitz. Dê, de Demóstenes. E, de epibástico. I, de inconstitucional. A, de absterso.
- Abesquê?
- Absterso.
- Não percebo. Letra a letra, por favor.
- O.K.! A, de anisanto. Bê, de bulbífero. Esse, de seticórneo. Tê, de tapiriba. E, de eritróstomo. Erre. De rizospermo. Esse, de sudoríparo. O, de oleogênese.
- Assim não nos entendemos – berrou o chefe da central, o papel na sua frente cheio de hieróglifos. – Isto não é nome de barco nenhum, com os diabos!
Nilo! – gritou o chefe da delegação do Norte. – Vou principiar de novo. Tome nota.
- Estou farto de tomar notas. Recomece, ande lá.
- Atenção.
- Mantenho-me atento. Diga.
- Nilo. Ni-lo. Ene, de nopálea. I, de ipseidade. Ele, de leucócito.
- Ele de quê?
- De leucócito.
- Por letras, por letras.
- Ele, de lofobrânquio. E, de encanzinamento. O, de operculífero. Ce, de crepusculário, I, de integérrimo. Tê, de tetaniforme. O, de orelha-de-mula. Entendido?
- Vamos ver – duvidou o chefe da central -, Que disse você no fim?
- Orelha-de-mula.
- De quê?
- Mula – esganiçou-se o chefe da delegação do Norte – Eme, de mirilâmetro. U, de uretroscópio, uropígio ou ubaia-muxana. Ele, de loligídeo. A, de apendicalgia. Percebeu agora? - perguntou por fim.
- Sim. E o nome do barco? – inquiriu por sua vez o chefe da central.
- Nilo. Ni-lo.
- Diga por letras.
- Ene, de nucífrago...
Consta que o navio não foi fretado, apodrecendo no cais de embarque, repleto de algas e outras palavras lamacentas. Ele, de lodo. A, de adubo. Eme, de...



Santos Fernando, no Pasquim n° 113 – agosto/setembro de 1971




Santos Fernando, escritor português nascido em 1925, já era conhecido no Brasil através do jornal satírico "O Pasquim", antes que fosse lançado, em 1970, um de seus maiores sucessos: "A sopa dos ricos". Autodidata em literatura, cursou em Lisboa a Escola Comercial, onde encontrou tipos humanos que logo iriam prestar-se à sua caricatura ferina. Pois, como escritor, Santos Fernando caracteriza-se pela exploração do "nonsense", do absurdo cômico da vida. Seus personagens têm sempre um comportamento crítico, exagerado. Assim, embora tido por humorista, Santos Fernando considera-se antes um escritor sério, com uma visão crítica alcançada através do humor e da sutileza. Aos vinte e dois anos, já tinha muitos artigos publicados nos jornais lisboetas. Mas sua carreira de romancista começou mesmo em 1957, com a publicação de "A, ante, após, até". Seguiram-se "Seis gramas de paraíso" (1959), "A bolsa do canguru" (1961), "Areia nos olhos" (1962) e "Os cotovelos de Vênus" (1963), todos esgotados. Um de seus livros mais importantes surgiu em 1964: "Tempo de roubar'', onde dois ladrões filósofos roubam a casa do chefe de polícia, criando depois um verdadeiro caos no país, ao divulgar uma ordem de soltura de todos os presos. Em "Consolação n.° 3" (1968) e "A sopa dos ricos" (1970) fica mais bem caracterizada sua veia para o humor negro. No primeiro, situações embaraçosas para um grupo de herdeiros são criadas por um boneco eletrônico que faz revelações indiscretas. No segundo, Santos Fernando ironiza o problema da fome e da miséria, aqui transformado em atração turística. Autor ainda de "Absurdíssimo" (1972) e "A árvore dos sexos" (1973), Santos Fernando fez também o argumento de um filme português ("Pão, amor e totobola"), peças de teatro musicado e programas de rádio. Dirigiu durante um ano "Família e Alegria", folhetim de crônicas de vida portuguesa. Segundo informações de amigos leitores de Portugal, o autor faleceu em 1975.





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