domingo, 27 de abril de 2014

Textos de Millôr Fernandes



Teatro Corisco I

Personagens: Pecador I, Pecador II e Sacerdote-Confessor.

Ato I

(No estreito confessionário)

Pecador I - Reverendo, eu engano minha mulher.

Sacerdote - (Na compreensível necessidade de informar-se melhor para aplicar punições apenas justas ao pecador) Com quem?

Pecador I - Perdão, prelado, mas sou um jornalista, tenho que preservar meu segredo profissional.

Sacerdote - Bem, profissional não é. Até bem amador, com perdão do trocadilho. Mas como também sirvo sob sigilo do confessionário, o seu segredo, transmitido a mim, continuará secreto.

Pecador I - (doido pra entrar na do Padre, doido pra que o mundo saiba de seus feitos, mas resistindo - afinal ele trabalha na municipalidade, cobiçam seu cargo) Eu sei, Santo Homem, mas antigamente as paredes tinham só ouvidos. Hoje estão cheias de gravadores.

Sacerdote - (arriscando uma ficha, ou melhor, uma hóstia): Não vai dizer que foi com aquela louquinha da sapataria, que já me confessou horrooooores.

Pecador I - (Babando na gravata, que, aliás, não porta): A lourinha da sapataria, é? Aquela gostosa, de tetas grandes e coxas grossas, que vive exibindo as quatro?

Sacerdote - Essa mesma. (Outra ficha-hóstia) - Bem, se não foi essa só pode ser a caixa do supermercado.

Pecador I - (animado) A moreninha dimenor?

Sacerdote - Essa, é. Noutro dia esteve aqui, durante mais de uma hora... (A melhor ficha, a melhor hóstia) - Ah, já sei, foi com a viúva do capitão de corveta que mora na praça.

Pecador I - Também favorece? O marido morreu há três meses.

Sacerdote - Mas ela continua muita viva, meu filho. E depois, o rapaz nem precisava morrer. Ou foi a...

Pecador I - (saciado) - Não, seu pároco, não foi com nenhuma dessas. Foi com a dona do cartório de órfãos. Mas muito obrigado pelas dicas. Tchau.

Sacerdote - Tchau, meu filho, mas não esqueça três ave-marias e cinco salve-rainhas. E preserve o sagrado sigilo. Volte sempre que tiver novidades.

Ato II

(Logo à saída do Pecador I entra o Pecador II)

Pecador II - Seu padre, estou casado só há dois anos, mas tenho que confessar que prevarico.

Sacerdote - Já, meu filho? Com quem? Não vai me dizer que é com a mulher desse jornalista que acabou de sair daqui!

(Pano rápido)

Teatro Corisco II

Cena: uma farmácia - Personagens: Farmacêutico, Mulher e Criança

Tragédia em um ato: Os Rigores do Ofício

Ato Único

Mulher - (entrando esbaforida com criança estrebuchando no colo) Senhor, senhor, meu filho está morrendo envenenado! Me dê alguma coisa para salvá-lo!

Farmacêutico - A senhora trouxe a receita?

(Pano rápido)

Teatro Corisco III

Cena - Um café comum.

Personagens - Um garção. Um freguês

Freguês - Garção, traga-me uma cerveja enquanto espero a pequena.

Garção - Preta ou branca, senhor?

Freguês - Que é que você tem com isso?


Teatro Corisco IV


Personagens - O milionário e o miserável

Cenário - Um jardim público

  Ato Único

O milionário (encontrando o miserável comendo a grama do jardim):
- Oh, meu filho, não coma essa coisa horrível! Venha, venha para a minha casa - a grama lá é muito melhor.

(Pano rápido)

Teatro Corisco V


Cena - Qualquer.

Época - Estado Novo.

Personagens - Dois partidários do regime.

1º Personagem - Bem, quando percebi que o negócio era sujo, me afastei.

2º Personagem - Com quanto?

Teatro Corisco VI

Personagens – Duas "amigas".

Cena – Qualquer

Primeira pequena - O meu noivo sempre me diz que vai se casar com a mulher mais encantadora do mundo.

Segunda pequena - Que patife, hein! E sendo teu noivo há tanto tempo!

Teatro Corisco VII


Tragédia em quatro atos

(Homem bem vestido entra numa confeitaria. Chama o confeiteiro).

1º Ato

Homem - Senhor. Meu nome é José. Queria que o senhor fizesse um bolo com J em cima, cercado de rosas verdes.

Confeiteiro - Pois, não!

Homem - Quanto custa? Quando fica pronto?

Confeiteiro - Custa 50 cruzeiros. Fica pronto depois de amanhã.

Homem - Ok!

2º Ato

(Mesmo ambiente. Dois dias depois.)

Homem - Realmente o bolo está excelente. Mas... o senhor fez um j minúsculo! Eu queria um jota grande!

Confeiteiro - Lamento, mas o senhor não explicou. Enfim, mandarei fazer outro. Volte depois de amanhã.

3º Ato

(Mesmo ambiente, Dois dias depois.)

Homem - É lamentável. Mas o senhor errou mais uma vez. Eu pedi rosas verdes e o senhor fez o bolo com rosas vermelhas!

Confeiteiro (procurando se dominar) - Bem, está bem, está bem! Volte amanhã que eu lhe darei o bolo assim.

4º Ato (Final)

(Mesmo ambiente. Dia seguinte)

Homem - Agora sim! O bolo está exatamente como eu pedi! Magnífico.

Confeiteiro - Posso embrulhá-lo então?

Homem - Não, eu vou comer aqui mesmo.



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