quarta-feira, 30 de abril de 2014

Poemas indecorosos de Olavo Bilac



Olavo Bilac por Toni Dagostini

Soneto que escreveu em São paulo, em 1887, refundiu no Rio, em 1895, a uma viúva.

Domingo. Chove. Como é triste a chuva!
Como é triste e monótono o domingo!
Ouço a chuva cair de pingo em pingo...
Ah! se chegasses, pálida viúva!

Sonho que chegas; livro-te da capa;
Todas as vestes úmidas te arranco;
Como de um ninho, o teu pezinho branco,
De bota, como um pássaro, se escapa...

Bátegas de águas, trépidas, lá fora.
Tremes de frio, entrechocando os dentes...
Rufam nas pedras, encharcando a rua!

E, dos meus lábios, trêmulos, ardentes,
Outra chuva te cai, quente e sonora,
- Chuva de beijos - sobre a espádua nua.

O poeta tem peças dum erotismo tanto perverso, delirante, pornográfico que, certamente, corava as professoras tão sóbrias. Ficou famoso o papelucho deixado por Emílio de Menezes para o epitáfio do amigo:

"Bilac esta cova encerra.
Choram sacros e profanos...
Muitos anos coma a terra,
a quem comeu tantos ânus!”

Delírio

Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo.
Na minha, a sua boca eu comprimia
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
‒ Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência brutal do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos, mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda, quase em grito:
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ num frenesi!

No seu ventre pousei a minha boca,
‒ Mais abaixo, meu bem! ‒ disse ela, louca.
Moralistas ‒ perdoai! Obedeci...


Por estas noites

Por estas noites frias e brumosas
É que melhor se pode amar, querida!
Nem uma estrela pálida, perdida,
Entre a névoa, abre as pálpebras medrosas.

                   Mas um perfume cálido de rosas
Corre a face da terra adormecida...
E a névoa cresce, e, em grupos repartida,
Enche os ares de sombras vaporosas:

                   Sombras errantes, corpos nus, ardentes
Carnes lascivas... um rumor vibrante
De atritos longos e de beijos quentes...

                   E os céus se estendem, palpitando, cheios
Da tépida brancura fulgurante
De um turbilhão de braços e de seios.



Olavo Bilac por  Loredano

Um comentário: