quarta-feira, 30 de abril de 2014

O Glubador



O coronel perguntou ao novo recruta:
 O senhor faz o quê na vida civil?
 Bom, coronel. Eu sempre fui glubador.
 Glubador?
 É. O senhor, como homem instruído, sabe naturalmente o que é um glubador.
 Claro, claro! Glubador! – respondeu o coronel, que não era homem de se dar por achado.
 E como glubador você naturalmente faz... faz...
 Glubeiras, não é, coronel? Eu faço glubeiras.
 Evidentemente! Glubeiras! Já fez alguma glubeira aqui pro meu quartel? - perguntou o coronel, disfarçando a sua ignorância.
 Como, se nunca me deram material para construir uma? - respondeu o soldado.
 Mas isso é um absurdo! Então eu tenho um glubador no regimento e ele ainda não fez nenhuma glubeira? Eu lhe dou carta branca para fazer uma imediatamente. Na sua opinião, o material ideal para se fazer uma glubeira seria... seria...?
 É lógico que o senhor sabe que uma boa glubeira se faz de alumínio. Fica meio caro, mas o senhor tem uma glubeira pra toda vida.
– O custo não importa! Eu quero que você comece a fazer uma glubeira de alumínio amanhã! – disse o diretor.
 Pois não, coronel. De que tamanho? – perguntou o soldado.
 Não sei. O especialista é você.
 Bom, depende do gosto. Pra mim, uma glubeira profissional deve ter 5,30m de comprimento por 3,52m de largura e 15cm de espessura. Isso se o senhor quiser uma glubeira clássica – explicou o soldado.
 É claro que eu quero uma glubeira clássica! Nada de modernismos! – falou o coronel muito senhor de si.

Uma semana depois, o soldado-glubador dava os últimos retoques na chapa de alumínio. Curioso, o coronel foi ver como andava sua glubeira. Ao chegar, viu a chapa toda perfurada com orifícios que iam de 10 a 15cm. Quase enlouqueceu:
 Quem foi que furou a minha glubeira?!!
 Fui eu, é claro, coronel. Sem os respiros ela não funciona - afirmou o glubador.
 Muito bem! Muito bem! Só estava vendo se o senhor conhece mesmo o seu serviço! – disfarçou o coronel. - E onde é que nós vamos usar essa maravilhosa glubeira?
 Num lago ou num rio, é claro.
Assim transportaram a glubeira até a beira de um lago e lá ela foi lançada na água pelo glubador, afundando no lago a seguir. O coronel ficou louco.
 O que é isso?! Então eu gasto uma fortuna para fazer uma glubeira e você joga a minha glubeira na água! Louco!! Você vai preso!!
 O coronel me desculpe, coronel, mas pelo visto parece que o senhor não sabe o que é uma glubeira - disse o soldado-glubador.
 Não sei mesmo! Mas agora você vai me explicar! - desabafou o coronel.
O glubador elucidou-o calmamente:
 Pois então o senhor não viu que a glubeira funciona exatamente quando afunda? Só aí é que ela faz: GLUB… GLUB… GLUB… GLUB…


(Do livro “Astronauta sem Regime”, de Jô Soares)


Nenhum comentário:

Postar um comentário