sábado, 3 de dezembro de 2016

Os melhores sambas de todos os tempos



Arte de Fábio

Uma centena de pérolas

Dezenas de cantores, compositores, pesquisadores e jornalistas foram convidados a escolher entre três e dez sambas para O GLOBO formular, com os mais votados, uma lista de 100 mais significativos representantes do gênero. Dentre os que toparam a única unanimidade foi uma certa reação de desespero, seguida do comentário: “mas só dez?!” É impossível!”

O resultado está aí. O glorioso Frankenstein tem lacunas graves, podem afirmar alguns, mas listas são assim, já nascem arbitrárias, ainda mais quando feitas por tantas mãos. Houve muitos empates ‒ nesses casos, a opção foi colocar em ordem alfabética.

Os mais votados

Aquarela brasileira

Silas de Oliveira

O samba-enredo de Silas de Oliveira, composto em 1964 para o desfile do Império Serrano, cita as belezas do Brasil em cada uma de suas regiões.

“Vejam essa maravilha de cenário
É um episódio relicário...
Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto, como passarela, será a tela
pro Brasil em forma de aquarela”

Foi um rio que passou em minha vida

Paulinho da Viola

Samba mais conhecido de Paulinho da Viola, foi composto em homenagem à Portela. O músico a lançou após causar uma certa ciumeira entre os integrantes de sua escola do coração, porque havia criado, tempos antes, “Sei lá, Mangueira”, com Hermínio Bello de Carvalho, um tributo à escola verde e rosa.

“Se um dia,
Meu coração for consultado
Para saber se andou errado,
Será difícil negar.
Meu coração tem mania de amor.
Amor não é fácil de achar.”
Folhas secas

Um dos sambas mais conhecidos de Nelson Cavaquinho, em parceria com Guilherme de Brito, presta homenagem a seus companheiros da Mangueira. A letra, poética, remete-se também a uma reflexão sobre o passar do tempo e à saudade da mocidade.

“Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira,
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira.
Não sei quantas vezes,
Subi o morro cantando;
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.”
A voz do morro

Zé Kéti

“Eu sou o samba,
A voz do morro sou eu mesmo sim senhor,
Quero mostrar ao mundo que tenho valor,
Eu sou o rei do terreiro.
Eu sou o samba,
Sou natural daqui do Rio de Janeiro,
Sou eu quem levo a alegria
Para milhões de corações brasileiros.”

Conversa de botequim

Noel Rosa e Vadico

“Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada.
Feche a porta da direita com muito cuidado.
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol.
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.”

Feitio de oração

Noel Rosa e Vadico

“Quem acha vive se perdendo,
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade.
Por isso agora lá na penha.
Vou mandar minha morena
Pra cantar com satisfação,
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de oração.”

Se você jurar

Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves

“Se você jurar
Que me tem amor
Eu posso me regenerar
Mas se é
Pra fingir, mulher
A orgia assim não vou deixar”

Último desejo

Noel Rosa

“Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João.
Morre hoje sem foguete,
Sem retrato e sem bilhete,
Sem luar, sem violão.”

Aquarela do Brasil

Ary Barroso

“Brasil, meu Brasil brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
Vou cantar-te nos meus versos.
O Brasil, samba que dá,
Bamboleio que faz gingar,
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil, pra mim,
Pra mim, pra mim.”

As rosas não falam

Cartola
“Bate outra vez
Com esperanças o meu coração,
Pois já vai terminando o verão enfim.
Volto ao jardim.
Com a certeza que devo chorar.
Pois bem sei que não queres voltar para mim.”

Falsa baiana

Geraldo Pereira

“Baiana que entra na roda e só fica parada
Não canta, não samba, não bole nem nada,
Não sabe deixar a mocidade louca.
Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira,
Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras,
Deixando a moçada com água na boca.”

O bêbado e a equilibrista

João Bosco e Aldir Blanc

“Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...
A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel”
  
Os jurados

Aldir Blanc (compositor e letrista)
Aluizio Maranhão (jornalista)
Antonio Carlos Miguel (jornalista)
Arlindo Cruz (cantor e compositor)
Arnaldo Bloch (jornalista)
Bernardo Araujo (jornalista)
Beth Carvalho (cantora)
Bia Paes Leme (coordenadora de música do IMS)
Carlos Didier (pesquisador e escritor)
Cesar Tartaglia (jornalista)
Claudio Jorge (violonista)
Diogo Nogueira (cantor)
Djavan (cantor e compositor)
Fred Coelho (pesquisador e escritor)
Helena Aragão (jornalista)
Henrique Cazes (cavaquinista e compositor)
Hermínio Bello de Carvalho (compositor e produtor)
Hugo Sukman (jornalista)
Jairo Severiano (pesquisador e escritor)
Jards Macalé (cantor e compositor)
Jorge Aragão (cantor e compositor)
José Ramos Tinhorão (pesquisador e escritor)
João Máximo (jornalista e escritor)
João Pimentel (jornalista)
Kiko Dinucci (compositor)
Lenine (cantor e compositor)
Leonardo Cazes (jornalista)
Leonardo Lichote (jornalista)
Luiz Antonio Simas (historiador e escritor)
Luís Filipe de Lima (violonista e arranjador)
Marceu Vieira (jornalista)
Maria Bethânia (cantora)
Maria Rita (cantora)
Martinho da Vila (cantor e compositor)
Miguel Jost (pesquisador e professor)
Moacyr Luz (cantor e compositor)
Monarco (cantor e compositor)
Monica Salmaso (cantora)
Moyseis Marques (cantor e compositor)
Nei Lopes (compositor e escritor)
Nelson Motta (jornalista e produtor)
Paulo Aragão (violonista e arranjador)
Paulo Cesar Pinheiro (compositor e poeta)
Pedro Aragão (bandolinista e professor)
Pedro Paulo Malta (cantor e jornalista)
Roberta Sá (cantora)
Romulo Fróes (cantor e compositor)
Silvio Essinger (jornalista)
Teresa Cristina (cantora e compositora)
Thiago Amud (cantor e compositor)
Xande de Pilares (cantor e compositor)
Zeca Pagodinho (cantor e compositor)
Zuza Homem de Mello (pesquisador e escritor)
Zé Renato (cantor)


(Segundo Caderno de O Globo, de 27.11.2016)


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