sexta-feira, 11 de abril de 2014

Histórias de Paraquedistas I


A história do primeiro paraquedista morto no Brasil

(O primeiro paraquedista militar que não chegou a saltar)



Embarque num C-47

Em 15 de setembro de 1950, no Rio de Janeiro, faleceu o soldado Roberto Fernandes da Costa em uma preparação de salto que seria realizado nos próximos dias. Ele saiu de uma aeronave C-47, extraído violentamente pelo paraquedas reserva, e o T-7 foi aberto quando ele já estava fora do avião, por eu estar com o gancho de abertura na mão, caindo no mar ao redor da Ilha de Paquetá, morrendo afogado. 

Eu, Casemiro Scepaniuk, pioneiro 44,  fui uma das testemunhas oculares desta história, pois era auxiliar de MS (Mestre de Salto) nesse exercício que os recrutas faziam antes de saltar, que era levantar, enganchar, verificar equipamento, contar e chegar à porta. O candidato a Pqdt não saltava, só olhava a paisagem e dizia ao MS o que estava enxergando, voltando ao seu lugar, e o exercício se repetia com outro recruta. No dia em que fosse saltar, já familiarizado com o exercício de chegar à porta, ele daria o seu primeiro salto de uma aeronave em voo.

Abaixo, o meu relato verdadeiro do trágico acontecimento desta história, no qual narro, fielmente, os detalhes do que vi naquele distante dia de 1950.

*****

Vejo uma canoa...

Essas são as últimas palavras que o recruta Roberto pronunciou na porta do avião.

No dia 15 de setembro de 1950, às 7 horas e 30 minutos, saímos do quartel da Colina Longa no “vaca”, caminhão parecido com os que transportavam gado no Rio Grande do Sul, com destino à Base Aérea dos Afonsos para realizar o voo de descontração-adaptação dos alunos, que era realizado alguns dias antes do primeiro salto. Naquele tempo, esse exercício fazia parte do programa de instrução dos alunos.

O “vaca”, que levava os paraquedistas e alunos à Base Aérea dos Afonsos, ia buscar na ZL (Zona de Lançamento) de Gramacho ou outra; também transportava o pessoal das 6 às 6 horas 45 minutos da Estação de Deodoro até a Colina Longa, e, depois do expediente, levava os mesmos de volta à estação. Quando o “vaca” fazia a última curva para a direita, já subindo a pequena ladeira da colina e devagar, os mais afoitos saltavam pela traseira que ficava aberta (os lados eram gradeados com madeira) e a parte de cima também aberta; eles saltavam contando um mil, dois mil, três mil... e, a passo, iam rapidamente ao rancho tomar café. O Luisinho, pqdt n° 42, um dia, segurando-se na carroceria para dar o salto com uma mão por cima do trinco da porta traseira, enganchou a aliança no mesmo tirando pele e couro de duas falanges e, por pouco, não perdeu o dedo.


O vaca

Nesse dia, 15 de setembro de 1950, o “vaca” levava os alunos do 1950/4 para o citado exercício com o MS, capitão Newton Lisboa Lemos, pqdt 25, pioneiro (Hoje general e autor do hino paraquedista “Eterno Herói”, falecido em 2013), e eu seu auxiliar de MS e rec-fitas, ao local dos aviões. Chegando à base Aérea do Afonsos, já encontramos o C-47 n° 2017 ou outro número que não me lembro bem, com os motores quase aquecidos, foi o tempo de equipar os alunos com os paraquedas T-7 e reserva, e embarcar. O avião, taxiando, ficou na pista, de cauda na direção de Marechal Hermes e de frente para a serra de Jacarepaguá. Partiu com decolagem perfeita, pegando altura, ficando acima da serra, e fez uma curva para a esquerda, seguindo na direção das ilhas do Governador e Paquetá. Dia muito bonito, claro, o sol iluminando o avião que voava sereno como uma garça.

Com a porta do avião aberta como se fôssemos realizar um salto coletivo, o MS, capitão Newton, olhou para mim e disse:

- Scepaniuk, vamos começar o exercício: fica na posição do rec-fitas e segura o aluno pelo equipamento do lado esquerdo.

Isso era rotina. Ele, em seguida, iniciou o comando que era feito para cada aluno: preparar, levantar, enganchar, verificar equipamento, contar e à porta. O MS segurava o aluno pelo lado direito do equipamento. Eu o segurava com a mão direita do lado esquerdo e a outra mão me apoiava na fuselagem do avião próxima à porta. O aluno, equipado com o T-7 e reserva, ficava na porta na posição de quem ia saltar. O MS fazia, durante alguns minutos, uma série de perguntas, tais como:

- O que você está vendo lá embaixo?

E o aluno respondia o que via: umas casinhas, uma estrada com um automóvel preto, um canal duplo com água, coqueiros, o mar, um navio, uma ilha, uma pequena canoa. O MS também fazia correções na posição do aluno na porta:

- Olha a linha do horizonte, levanta a cabeça. - e outros comandos.

Terminadas as perguntas e correções, o aluno dava um passo de costas, ficando sempre de frente para a porta e um pouco atrás do cabo de ancoragem, fazendo o desenganchamento. Eu o ajudava a tirar o gancho, pois alguns complicavam na saída do cabo. Desenganchado, o aluno ia sentar-se e o MS comandava outro.

No acidente do soldado Roberto, quando ele já estava fora da porta, por ter terminadas as perguntas e correções e ter dado um passo para trás, mas de frente ainda para a porta e atrás do cabo, desenganchando, e eu ajudando-o a tirar o gancho, com a fita encostada no meu braço esquerdo, olhando um pouco para cima, o avião deu uma tremida leve e o Roberto sumiu! Voávamos sobre o mar. O co-piloto saiu da cabine e fez a seguinte pergunta:

- O que houve?

O MS respondeu:

- Um aluno foi sugado, faz uma volta!

Eu, ajoelhado no canto esquerdo da porta, olhando para baixo, vi o Roberto descendo com os dois paraquedas abertos, e uma pequena canoa navegando com uma pessoa nas proximidades onde ele ia cair. Era a minha esperança de socorro. A fita de abertura deve ter ido junto com o T-7, presa no ápice ou caído no mar, pois não ficou dentro do avião presa no cabo, e o gancho de comando do reserva também não. Quando o avião passou por cima dele, na primeira volta pedida pelo MS, ele ainda balançava o braço (os braços). A canoa estava se dirigindo na sua direção. O MS pediu que o avião fizesse mais uma volta, enquanto nós preparávamos uma boia com a bolsa de transporte do T-7 e reserva com dois paraquedas fechados dentro. Ajoelhado novamente na porta, observando o melhor ponto para lançar a boia, só vi a pequena canoa (última palavra que o recruta pronunciou na porta do avião).

Senti o meu pulso esquerdo doer, olhei e vi que sangrava e que havia uma marca esfolada, da largura da fita, que ia até perto do cotovelo, marca essa que levou muitos anos para desaparecer.

O que houve, em minha opinião, foi que, enquanto eu o ajudava no desenganchamento e o MS continuava a segurá-lo pelo equipamento, e ele de frente para a porta, mas já afastado, por ter dado um passo para trás, o “piloto” do reserva soltou-se e foi sugado para fora do avião, extraindo o paraquedas reserva, que, inflado, extraiu violentamente o soldado Roberto com o T-7 ainda fechado, batendo no lado esquerdo da porta com muita violência, ocasionando a tremida do avião. Eu, que estava com o gancho na mão, próximo ao cabo e a fita encostada no braço, abri o T-7, sem pensar e querer.

Como o “piloto” do reserva foi libertado? E por quê? Isso eu não sei. Sei que estávamos juntos e, num piscar de olhos, ele sumiu. Em milésimos de segundos aconteceu tudo o que narrei sobre o primeiro acidente fatal, nesta hoje grande Unidade de Paraquedistas Militares do Brasil.

Epílogo:

Passados alguns meses, eu encontrei, casualmente, a irmã do falecido Roberto, na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Santa Luzia, próximo ao clube militar, no centro do Rio, e ela me disse:

- Senhor Scepaniuk, nós moramos no Catete, próximos às praias do Flamengo e Botafogo desde pequenos. Não entendi a morte do meu irmão até agora por afogamento no mar. Ele era um exímio nadador...


Observação final:*

Creio que, ao bater violentamente na porta do avião, o soldado Roberto deve ter tido fraturas generalizadas. Como, talvez, ele estivesse impossibilitado de fazer qualquer movimento em virtude dos possíveis ferimentos internos e externos, ele afundou sem poder fazer nada pela sua vida.

A canoa, infelizmente, chegou um pouco tarde...



Relato de Casemiro Scepaniuk, foto acima, pqdt 44, pioneiro

* O manuscrito deste texto foi-me dado pelo autor, o qual guardo até hoje como uma relíquia histórica do paraquedismo militar brasileiro. Fiz as devidas correções até ficar do agrado do Cap Scepaniuk, que até hoje sofre pela morte do primeiro soldado acidentado no Brasil

Nilo da Silva Moraes

O Cap Casemiro Scepaniuk faleceu no dia 02 de fevereiro de 2016, aos 94 anos.



Nesta montagem fotográfica dos anos 50, aparecem, no meio dela, abaixo do escudo PQD, as fotos dos três primeiros paraquedistas morto em salto no Brasil: Sd Roberto Fernandes da Costa - Sgt João Alves Diniz e Cb Paulo Wilhelm Neto.

Adendo final:

Casemiro Scepaniuk: 28 de novembro de 1921 - 02 de fevereiro de 2016.


O túmulo de Casemiro Scepaniuk está no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre-RS, localizado atrás do túmulo do cantor nativista Teixeirinha.


4 comentários:

  1. Realmente dramatico e contundente. Se pode entender o sentimento do mestre Scepaniuk...
    ,o(

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  2. Faleceu dia 3/2/2016 aos 94 anos, o ex-paraquedista do EB, Casemiro Scepaniuk. Especializou-se em paraquedismo nos EUA. Era o número 44 de um total de 47 oficiais e sargentos que foram para Fort Benning, na Georgia, tornando-se pioneiros do paraquedismo militar brasileiro.
    Destes, com a perda de Scepaniuk, apenas quatro ainda vivem. Um dos primeiros instrutores da Brigada de Paraquedista do Campo dos Afonsos, Casemiro também ficou conhecido por "salvar a vida" de colegas. Após ter descoberto uma falha em um gancho de paraquedas, criou uma espécie de pino de segurança que impedia a abertura acidental do equipamento. O invento recebeu o nome de "gancho de chipanique", referência à pronuncia do sobrenome de origem polonesa de Casemiro. Em vida, ele construiu um túmulo, com uma estátua de bronze, de si próprio, em tamanho natural, em uniforme de paraquedista ( inclusive com paraqueda reserva), tendo ao lado uma estátua do cão Piloto, ( com o seu paraquedas) primeiro cão paraquedista da América do Sul e, do outro lado, a imagem de uma águia, em homenagem ao primeiro curso de paraquedismo que realizou nos EUA, na década de 1940. Os colegas que estiveram presentes ao sepultamento prestaram a última homenagem a Casemiro, cantando "Eterno Herói", a canção do paraquedista. Atualmente, o militar integrava, em Porto Alegre, o Grupo Grafonsos, que congrega paraquedistas de todo o Brasil.
    http://zh.rbsdirect.com.br/imagesrc/17923835.jpg?w=640
    Foto do túmulo de Casemiro, com sua estátua em bronze!

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  3. Em 1953, pela primeira vez caminhei pela Colina Longa e entrei na Escola de Pára-quedistas do Exército, na Vila Militar, Rio de Janeiro, onde poucos meses depois me sagraria combatente aéro-terrestre. À época Scepaniuk, se não me engano, era 2º Sgt. Tive oportunidade de saltar com ele e também de praticar esportes nas quadras improvisadas do aquartelamento. Fiquei lá 6 anos. Algumas vezes, ele como Adjunto e eu como Sgt de Dia da 1ªCiaEngAéT ficamos de serviço e lembro-me bem de duas características dele: era muito forte, tanto quanto educado - líder nato. Dele guardo lembranças de um tempo feliz passado junto a tantos outros amigos pára-quedistas.
    Que Jesus, o Divino Amigo, abençoe o Scepaniuk.
    Eurípedes Kühl - Cap Ref Pqdt nº 826

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  4. Obrigado pelo comentário, amigo Eurípedes Kühl, pqdt 826 - do Turno 1953/1 e MS 500.

    Nilo da Silva Moraes, do Blog Almanaque Cultural Brasileiro.

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