sexta-feira, 11 de abril de 2014

Apelidos têm razão de ser


Deise Sabbag

Por ser muito branca, a Sofia recebeu a alcunha de "Barata Descascada". O Mário — que tem lábios para dentro — é mais conhecido como "Chupa Ovo". O João, que cultiva uma barbicha rala e besuntada a óleo é chamado "João Melado". Rita — muito chorona — foi apelidada de "Manteiga Derretida". Isso mostra que a maioria das alcunhas paulistas tem sua razão de ser, um significado que diz respeito a alguma mania ou característica física da pessoa apelidada. Prova do fato é o resultado da pesquisa realizada pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e da qual participaram nada menos de 80 alunas. Os informantes foram localizados com relativa facilidade. Colecionado na ordem alfabética, o trabalho do paciente grupo trouxe parcela de contribuição aos estudos da literatura oral da classe média paulistana.

Alcunhas


Selecionamos alguns dos apelidos usados na cidade de São Paulo e sua explicação, segundo a pesquisa do Conservatório Dramático e Musical, levada a efeito através da cadeira de folclore.


Açucareiro: por estar sempre com as mãos na cintura.

Alfinete Sonoro: locutor muito magro.


Ali-Babá: porque é feliz nos negócios.


Avenca: por gostar de sombra e água fresca.


Bigodinho de Prata: por ser muito convencido de seus bigodes.


Boca Mole: por falar devagar.


Boca Rica: por ter dentes de ouro.


Bola Seis: por ter careca rosada como a sexta bola da sinuca.


Boticão: por ter dentes muito grandes.


Carijó: por ser sardento.


Caxinguelê: por estar sempre bêbado.


Chaminé: por estar sempre fumando.


Chapadão: por ter os pés esparramados.


Cheira Céu: por ser muito alto e ter o nariz arrebitado.


Chico Linguiça: por ser muito alto e vermelho.


Coca-Cola: por ter cara enjoada.


Cochicho: por falar muito alto.


Coringa: por estar em toda parte.


Doce de Leite: por ser muito perfumado e cheio de não me toques.


Dragão Dengosa: por ser muito feia e enfeitada.


Esfinge: por falar pouco.


Esponja: Por beber demais.


Gafanhoto: por comer tudo que encontra.


Gazetinha: por espalhar tudo que sabe.


Jóquei de Elefante: por ser muito grande e gordo.


Leão da Metro: por ter uma enorme cabeleira.


Maria Mole: por ser muito preguiçoso.


Meia-Noite: por ser o último a deixar os bares.


Moringa: por ter o pescoço comprido.


Nanquim: por ser muito preto.


Novelo de lã: por ser gorda e não ter cintura.


Pé Gelado: por não ter sorte.


Pudim: por ser muito delicado e meloso.


Pula Muro: por andar a passos largos.


Semana Santa: por ser excessivamente religioso.


Serpentina: por se requebrar ao andar.


Sim-Sim: por concordar com tudo.


Vassoura de Piaçava: por ter o cabelo duro.


Vinte e Cinco de Março: por ser filhos de Sírios.


Vó de Sarampo: por ser muito amolante.


Zero Um: por ter um olho fechado.


Deise Sabbag. "Apelidos têm razão de ser". Diário Popular
São Paulo, 10 de janeiro de 1970)


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